Rodrigo S. M. é o narrador ficcional de A hora da estrela; Macabéa é a protagonista cuja vida ele tenta contar. Essa distinção é decisiva porque o romance não entrega Macabéa diretamente ao leitor. Entre ela e nós existe um escritor-personagem que comenta suas escolhas, hesita, julga, se corrige e transforma o próprio ato de narrar em parte da história.
Quem narra a história de Macabéa?
Clarice Lispector é a autora real da obra. Dentro do romance, porém, a função de narrar é atribuída a Rodrigo S. M., personagem criado como escritor e narrador. A apresentação editorial da Rocco identifica Rodrigo como o falso autor do livro, enquanto a edição da Rocco catalogada no Google Books descreve a obra como a história do processo de criação desse escritor ao narrar Macabéa.
Macabéa, por sua vez, é a protagonista. É sua trajetória de pobreza, deslocamento e invisibilidade social que organiza o enredo, mas ela não controla a forma pela qual essa trajetória chega ao leitor. Rodrigo seleciona, comenta e problematiza o modo de contá-la.
Um quadro simples das vozes
| Instância | Quem é | Função na obra | Como aparece para o leitor |
|---|---|---|---|
| Clarice Lispector | Autora real | Cria o romance, o narrador e as personagens | Assina a obra e constrói a mediação ficcional |
| Rodrigo S. M. | Narrador e escritor-personagem | Conta a história de Macabéa e comenta a dificuldade de escrevê-la | Fala em primeira pessoa, expõe decisões e põe a narração em cena |
| Macabéa | Protagonista | Vive os acontecimentos centrais do enredo | É apresentada por meio do olhar e da linguagem de Rodrigo |
Por que a presença de Rodrigo S. M. importa?
Se o romance fosse apenas uma sequência de acontecimentos da vida de Macabéa, o leitor poderia concentrar-se no que acontece com ela. Com Rodrigo, outra pergunta entra em cena: quem tem autoridade para contar a vida de alguém socialmente distante de si? O narrador não desaparece atrás da história. Ele torna visível a mediação e, com isso, transforma a representação de Macabéa em um problema literário.
Estudos acadêmicos leem esse procedimento de modos próximos, embora não idênticos. Lucia Helena descreve Rodrigo S. M. como narrador interposto e relaciona sua atividade ao ato de criação pela linguagem. Fernando Cerisara Gil analisa a metalinguagem do narrador como parte de uma tensão de classe: ao mesmo tempo que Rodrigo problematiza a escrita, sua própria linguagem pode limitar ou suprimir o outro que tenta representar. Genilda Azerêdo e Jenison dos Santos destacam a metaficção, isto é, o modo como o texto expõe seu estatuto de construção e convoca o leitor a participar da produção de sentido.
A história de Macabéa e a história de como contar Macabéa
Há, portanto, duas linhas narrativas que avançam juntas. Uma acompanha Macabéa no Rio de Janeiro, seu trabalho como datilógrafa, sua relação com Olímpico, a convivência com Glória e o encontro com a cartomante. A outra acompanha Rodrigo tentando produzir essa narrativa.
Essa segunda linha não é um comentário externo acrescentado depois. Ela faz parte da forma do romance. A própria apresentação da edição Rocco de 1998 registra uma formulação do narrador que resume esse efeito: “estou escrevendo na hora mesma em que sou lido”. O leitor recebe, simultaneamente, a história e a encenação de sua fabricação.
O narrador não é sinônimo da autora
É útil evitar uma confusão comum. Rodrigo S. M. não deve ser tratado simplesmente como Clarice Lispector falando sem mediação. Ele é um dispositivo ficcional criado por ela. A Rocco chega a chamá-lo de “falso autor”, justamente porque o romance insere um autor imaginário dentro da obra.
Isso não impede aproximações entre autora e narrador, e algumas apresentações editoriais fazem essa associação. Mas, para analisar o texto, a distinção entre autora real e narrador ficcional continua necessária: é ela que permite perceber quando a fala pertence à construção de Rodrigo, quando ele expõe seus limites e quando suas atitudes podem ser lidas criticamente.
Passagens a observar durante a leitura
Como a paginação varia entre edições, é mais seguro localizar os momentos pela função que exercem no texto.
| Momento textual | O que observar | Por que importa |
|---|---|---|
| Abertura antes do enredo ganhar velocidade | Rodrigo fala sobre escrever, começar e encontrar uma forma para a história | Mostra que a construção da narrativa já é parte do assunto |
| Apresentação de Macabéa | O narrador escolhe características, informações e julgamentos para torná-la visível | Expõe a distância entre quem conta e quem é contado |
| Interrupções metalinguísticas | Rodrigo comenta a própria escrita e o efeito que deseja produzir | Quebra a ilusão de uma narração neutra e transparente |
| Trechos em que Rodrigo se aproxima de Macabéa | O narrador relaciona sua identidade e seu desconforto à personagem | Complica a separação entre observador e objeto observado |
| Desfecho | Observar como Rodrigo continua mediando o sentido da experiência de Macabéa | Reforça que a “hora da estrela” não é apenas um fato do enredo, mas também um problema de linguagem e visibilidade |
Como responder à pergunta em uma prova ou discussão
Uma resposta completa pode seguir três passos. Primeiro, identificar Rodrigo S. M. como narrador ficcional e escritor-personagem. Segundo, distinguir Macabéa como protagonista e Clarice Lispector como autora real. Terceiro, explicar que essa escolha importa porque o romance põe em primeiro plano a dificuldade de representar outra pessoa: Rodrigo conta Macabéa ao mesmo tempo que revela as limitações, os julgamentos e as escolhas envolvidos nesse ato.
Assim, perguntar “quem narra?” em A hora da estrela não é apenas localizar uma voz gramatical. É perceber que a distância entre Rodrigo e Macabéa faz parte do sentido do livro. O romance narra a vida da protagonista e, ao mesmo tempo, examina o poder e o risco envolvidos em transformar essa vida em literatura.
Fontes e referências
- Editora Rocco: A hora da estrela, edição comemorativa, ISBN 978-65-5532-035-0
- Google Books: A hora da estrela, Editora Rocco, 1998, 88 páginas
- Lucia Helena: Nomeação, criação e linguagem em A hora da estrela
- Fernando Cerisara Gil: A metalinguagem como posição de classe da linguagem em A hora da estrela
- Genilda Azerêdo e Jenison Alisson dos Santos: “Então eu grito”: encontro entre narrador, personagem e leitor em A hora da estrela
- Instituto Moreira Salles: Notas de A hora da estrela





