Bíblia e Traduções02/09/2026Núcleo de Estudos Bíblicos7 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Marcos 16:9–20: por que algumas Bíblias usam colchetes ou notas e o que os manuscritos mostram

Entenda por que traduções modernas sinalizam Marcos 16:9–20, quais finais aparecem nos manuscritos e o que a evidência permite concluir sem confundir crítica textual com posição teológica.

Manuscrito grego antigo sob uma lupa ao lado de uma Bíblia aberta em Marcos 16 com nota sobre a variação dos versículos 9–20.

Resposta curta: Marcos 16:9–20 é sinalizado em algumas Bíblias porque os testemunhos antigos não concordam sobre como o Evangelho de Marcos termina. Dois dos mais antigos manuscritos gregos completos que preservam o fim de Marcos, o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, encerram o livro em 16:8. A maioria dos manuscritos gregos sobreviventes, porém, traz os versículos 9–20, e esse “final longo” já era conhecido no fim do século II. Há ainda um “final curto” e uma forma expandida do final longo em testemunhos específicos. Colchetes, subtítulos e notas de rodapé são maneiras editoriais de mostrar essa variação ao leitor.

Por que algumas Bíblias colocam Marcos 16:9–20 entre colchetes ou com nota?

Porque uma tradução moderna não trabalha apenas com um manuscrito. Editores comparam cópias gregas, versões antigas e citações de autores cristãos para reconstruir a história do texto. Quando uma passagem importante aparece de formas diferentes em testemunhos relevantes, a tradução pode mantê-la no corpo do texto e, ao mesmo tempo, avisar que existe uma questão textual.

É isso que acontece em Marcos 16. A ESV e a NIV, por exemplo, preservam os versículos, mas sinalizam que manuscritos antigos não os contêm. A NRSVue identifica explicitamente a seção como “final longo de Marcos” e acrescenta notas sobre outros encerramentos. A forma visual varia de edição para edição: colchetes, linha divisória, subtítulo ou nota. O ponto editorial é o mesmo: o leitor deve saber que a tradição manuscrita não é uniforme.

Quais formas de encerramento aparecem nos testemunhos?

Forma do encerramento Testemunhos e características O que esse dado mostra
Fim em 16:8 O Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, ambos do século IV, terminam Marcos após “porque tinham medo”. O Sinaítico digitalizado passa de Marcos 16:8 diretamente para Lucas 1. Há uma forma antiga e importante do texto em que 16:9–20 não aparece.
Final longo: 16:9–20 Está na maioria dos manuscritos gregos sobreviventes e em diversos testemunhos antigos. Resume aparições do ressuscitado, comissão, sinais, ascensão e pregação dos discípulos. O final longo tem ampla transmissão e não pode ser tratado como uma invenção medieval tardia.
Final curto Um pequeno grupo de testemunhos traz, depois de 16:8, um breve parágrafo sobre a mensagem levada a Pedro e a proclamação do evangelho. Em vários desses testemunhos, o final longo vem em seguida. Alguns copistas ou tradições receberam um Marcos que parecia terminar abruptamente e transmitiram outro fechamento.
Final longo com acréscimo O Códice Washingtoniano inclui 16:9–20, mas acrescenta material entre 16:14 e 16:15, conhecido como Freer Logion. Mesmo dentro da tradição que preserva 16:9–20 há variantes relevantes.

O peso do Códice Sinaítico e do Códice Vaticano

Sinaítico e Vaticano recebem atenção porque são dois dos mais antigos manuscritos gregos praticamente completos do Novo Testamento. No caso do Sinaítico, a página disponível no projeto digital do Códice Sinaítico mostra Marcos 16:1–8 seguido do título de encerramento e, em seguida, Lucas 1:1.

Esse dado é forte, mas precisa ser descrito com precisão. Não significa que “os manuscritos mais antigos da Bíblia” em geral provem que Marcos terminava em 16:8. O papiro P45, mais antigo que esses códices e contendo partes de Marcos, não preserva o capítulo 16. Portanto, para essa passagem específica, os primeiros manuscritos gregos completos disponíveis são do século IV.

Também não basta contar manuscritos. A maioria dos exemplares gregos sobreviventes contém o final longo, mas muitos são posteriores. A crítica textual avalia idade, independência entre famílias textuais, distribuição geográfica, hábitos de copistas e coerência interna, e não apenas uma votação de cópias.

O final longo é antigo — e isso importa

A ausência em Sinaítico e Vaticano não transforma 16:9–20 em uma criação medieval. Irineu de Lião, escrevendo no fim do século II, cita Marcos 16:19 e o apresenta como parte da conclusão do Evangelho de Marcos. O trecho pode ser conferido em Contra as Heresias 3.10.5. Isso coloca o conhecimento do final longo muito antes dos códices completos do século IV que chegaram até nós.

Esse testemunho estabelece uma coisa com boa segurança: uma forma de Marcos que incluía ao menos material do final longo circulava no século II. O que ele não estabelece sozinho é quem escreveu os doze versículos, quando exatamente foram incorporados ao Evangelho ou se faziam parte da primeira forma publicada por Marcos.

Por que muitos críticos textuais consideram 16:9–20 secundário?

Além dos manuscritos que terminam em 16:8, há argumentos internos. A passagem de 16:8 para 16:9 é abrupta: o foco muda das mulheres para Jesus; Maria Madalena é reapresentada mesmo tendo acabado de aparecer no relato; as outras mulheres deixam de ser mencionadas. Há também vocabulário e construções pouco usuais no restante de Marcos.

Esses dados ajudam a explicar por que muitos estudiosos entendem o final longo como uma conclusão antiga acrescentada a um texto que, na forma disponível ao copista, terminava em 16:8. A nota textual da NET Bible resume essa linha de avaliação e também registra o final curto e outros testemunhos.

Mas a evidência interna não é unanimemente interpretada. Nicholas P. Lunn, em The Original Ending of Mark, defende que diferenças de vocabulário e estilo foram superestimadas e argumenta a favor da autenticidade do final longo. O próprio debate acadêmico mostra por que é melhor separar os dados brutos — quais testemunhos contêm o quê — das conclusões sobre autoria.

Se 16:9–20 não for original, Marcos pretendia terminar em 16:8?

Essa é uma segunda pergunta, e não deve ser confundida com a primeira. Mesmo entre estudiosos que consideram 16:9–20 secundário, há divergência sobre o que aconteceu com o fim original de Marcos. Três hipóteses aparecem com frequência:

  • 16:8 foi um final intencional: o medo e o silêncio das mulheres formariam um encerramento literário aberto.
  • o final original se perdeu: Marcos teria escrito uma continuação, mas ela teria desaparecido antes da fase de cópias que originou parte da tradição preservada.
  • o Evangelho ficou inacabado: uma possibilidade menos demonstrável, mas historicamente proposta.

Robert H. Stein, por exemplo, argumentou que 16:8 dificilmente seria o encerramento pretendido porque Marcos 14:28 e 16:7 apontam para um encontro posterior de Jesus com os discípulos na Galileia. Essa discussão pode ser consultada no resumo de seu artigo “The Ending of Mark”. Ainda assim, defender que o final original se perdeu não equivale a demonstrar que 16:9–20 é esse final perdido.

Então por que manter os versículos no texto?

Porque sua antiguidade, ampla transmissão e enorme importância na história de leitura do Evangelho tornam inadequado simplesmente escondê-los. A solução de muitas edições é transparência editorial: imprimir o texto e marcar a variante. A Reformation Study Bible resume bem a razão do debate: há manuscritos antigos que não trazem 16:9–20, outros que os trazem, e ainda outros com finais alternativos; ao mesmo tempo, o final longo é citado cedo e domina a tradição manuscrita posterior.

Por isso, colchetes não significam “texto proibido”, e uma nota não significa que a tradução “removeu” a passagem. Eles indicam que o editor está distinguindo entre impressão do texto e grau de segurança sobre sua posição na forma mais antiga recuperável de Marcos.

O que os manuscritos permitem concluir com mais segurança

  • Há variação real no final de Marcos. Não é uma controvérsia inventada por traduções recentes.
  • 16:9–20 é antigo. Irineu demonstra que material do final longo era conhecido no século II.
  • Os dois mais antigos manuscritos gregos completos que preservam o fim de Marcos terminam em 16:8.
  • A maioria dos manuscritos gregos sobreviventes contém 16:9–20. Quantidade, porém, não é o único critério textual.
  • Existem encerramentos alternativos e acréscimos. Isso torna a história da transmissão mais complexa que um simples “tem ou não tem”.
  • A autoria de 16:9–20 é uma conclusão crítica, não um dado diretamente escrito nos manuscritos. Muitos estudiosos a rejeitam; outros a defendem.

O que a crítica textual não resolve sozinha

A crítica textual tenta responder qual forma do texto é mais antiga ou melhor explica o surgimento das demais. Ela não decide, por si só, como uma igreja deve definir cânon, autoridade litúrgica, doutrina ou uso pastoral. Comunidades cristãs podem atribuir peso teológico ao final longo mesmo aceitando que existe uma questão de autoria e transmissão; outras preferem não construir uma doutrina exclusiva sobre uma passagem com esse grau de incerteza textual.

Separar essas perguntas evita dois extremos: tratar a nota da Bíblia como prova de fraude ou, no sentido oposto, fingir que a variação manuscrita não existe.

Como ler a nota da sua Bíblia sem tirar conclusões maiores do que ela diz

  1. Veja se a edição diz “alguns dos manuscritos mais antigos”, “os manuscritos mais antigos” ou apenas “alguns manuscritos”. As formulações não são idênticas.
  2. Procure a nota completa: muitas edições explicam o final curto, o final longo e possíveis acréscimos.
  3. Compare duas ou três traduções. A diferença de diagramação costuma refletir política editorial, não uma descoberta manuscrita diferente.
  4. Separe três perguntas: o texto é antigo?, estava na forma mais antiga de Marcos? e como minha tradição religiosa o recebe? Elas podem ter respostas diferentes.

Fontes e leitura adicional

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