Bíblia e Traduções15/09/2026Núcleo de Estudos Bíblicos6 min de leituraAtualizado em 17/09/2026

Pai-Nosso em Mateus 6:12: por que algumas Bíblias trazem “dívidas” e outras “ofensas”

Mateus 6:12 usa no grego a linguagem de “dívidas/devedores”, mas o contexto trata de perdão do pecado. Veja por que algumas traduções preservam a metáfora e outras explicitam “ofensas” ou “pecados”.

Bíblia aberta sobre mesa de madeira ao pôr do sol, com mãos unidas em oração e torre de igreja desfocada ao fundo.

Resposta curta: em Mateus 6:12, o texto grego usa palavras do campo de dívida e devedor. Por isso, traduções como Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Corrigida (ARC) conservam “dívidas/devedores”. Outras versões, como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), preferem “ofensas”, e há versões que explicitam “pecados”. Essas escolhas não precisam ser tratadas como versões em conflito: elas podem representar maneiras diferentes de traduzir a mesma imagem moral.

O que está no grego de Mateus 6:12

Em Mateus 6:12, o substantivo grego é opheilēmata (ὀφειλήματα), plural de uma palavra que designa aquilo que é devido, uma dívida ou obrigação. Na segunda metade do verso aparece opheiletais (ὀφειλέταις), “devedores”. A estrutura lexical, portanto, sustenta diretamente a tradução “perdoa-nos as nossas dívidas... aos nossos devedores”. O texto grego pode ser consultado em uma análise interlinear de Mateus 6:12.

Isso, porém, não obriga o leitor a entender o pedido como uma oração sobre empréstimos ou contas financeiras. No contexto do Pai-Nosso, “dívida” funciona como imagem de uma obrigação moral não cumprida e de uma culpa que precisa ser perdoada. Em outras palavras, a metáfora financeira aponta para o campo do pecado e da ofensa. Traduzir a forma da metáfora e explicitar o seu sentido são duas decisões possíveis de tradução.

Como cinco traduções em português resolvem a frase

Versão Palavras-chave em Mateus 6:12 O que a escolha destaca
ARA “dívidas / devedores” Preserva de modo direto a metáfora lexical do grego.
NAA “dívidas / devedores” Mantém a mesma imagem de obrigação e remissão.
ARC “dívidas / devedores” Segue a tradição Almeida nesse verso.
NTLH “ofensas / pessoas que nos ofenderam” Explicita o sentido moral em linguagem corrente.
VFL “pecados / os que pecam contra nós” Expõe diretamente a interpretação da metáfora; a edição consultada informa em nota que o termo é literalmente “dívidas”.

A ARA pode ser conferida em Mateus 6:12, e a NAA em Mateus 6:12. O comparador do Bible Gateway reúne, na mesma página, ARC, NTLH, VFL e outras versões em português. O importante é observar que a diferença está na estratégia adotada para expressar a metáfora, não em uma troca aleatória de assunto.

Por que Mateus 6:14–15 usa “ofensas” em traduções Almeida

A dúvida aumenta porque, logo depois do Pai-Nosso, Mateus 6:14–15 fala do dever de perdoar e várias traduções Almeida usam “ofensas”. Isso não é uma simples inconsistência editorial. O próprio texto grego muda de vocabulário: em 6:14 aparece paraptōmata (παραπτώματα), termo associado a transgressões, faltas ou ofensas, em vez de opheilēmata, “dívidas”, de 6:12. A mudança pode ser vista na análise grega de Mateus 6:14.

Por isso, uma tradução pode legitimamente conservar “dívidas” em 6:12 e usar “ofensas” em 6:14–15. Na ARA, por exemplo, essa alternância aparece claramente. O efeito do contexto é importante: os versos 14–15 explicam o tema do perdão imediatamente depois da oração e ajudam o leitor a entender que a “dívida” do verso 12 é moral e relacional.

Lucas 11:4 torna a relação entre pecado e dívida ainda mais explícita

A forma do Pai-Nosso em Lucas oferece uma chave comparativa útil. Em Lucas 11:4, o pedido começa com “pecados”, enquanto a frase seguinte usa a linguagem de quem está “em dívida” com alguém. Uma nota de tradução da NET Bible observa que o grego da segunda parte é literalmente “todo o que está em dívida conosco” e identifica a imagem do pecado como dívida.

Isso não significa que Mateus e Lucas sejam idênticos palavra por palavra. Significa que, dentro das duas formas da oração preservadas nos Evangelhos, “pecado”, “ofensa” e “dívida” pertencem ao mesmo campo de sentido quando o assunto é perdão. Lucas ajuda a mostrar por que uma tradução de Mateus pode explicitar “pecados” ou “ofensas” sem inventar um tema estranho ao texto.

Tradução, interpretação e tradição litúrgica não são a mesma coisa

Tradução

Tradução é a decisão de como representar, em outro idioma, as palavras e relações do texto de origem. Em Mateus 6:12, “dívidas/devedores” reproduz mais visivelmente a metáfora lexical grega; “ofensas” ou “pecados” torna mais explícito o sentido que essa metáfora assume no contexto. Nenhuma tradução séria é puramente mecânica: mesmo uma versão bastante próxima da forma do original precisa escolher ordem, sintaxe, vocabulário e grau de explicitação.

Interpretação

Interpretação é a pergunta sobre o que a frase quer dizer no contexto. Aqui, a leitura de “dívidas” como culpa moral não depende apenas de um dicionário. Ela é reforçada pelos versos 14–15 de Mateus, que desenvolvem o tema das ofensas perdoadas, e pela versão de Lucas 11:4, que coloca “pecados” e “dívida” lado a lado. A interpretação dá sentido à metáfora; não muda silenciosamente o vocábulo grego de Mateus 6:12.

Tradição litúrgica

A forma recitada em uma comunidade religiosa pode seguir uma tradição litúrgica consolidada e não necessariamente reproduzir palavra por palavra a edição bíblica que a pessoa lê em casa. No uso católico em português, por exemplo, a fórmula “perdoai-nos as nossas ofensas” aparece no Compêndio do Catecismo da Igreja Católica e também em material da CNBB. Essa forma litúrgica expressa o sentido da petição, mas não altera o fato textual de que Mateus 6:12 usa o substantivo grego para “dívidas”.

Então “dívidas” ou “ofensas” é a tradução certa?

As duas formulações respondem a perguntas um pouco diferentes. “Dívidas” mostra com mais nitidez a imagem usada por Mateus; “ofensas” comunica ao leitor moderno a realidade moral que a imagem representa. “Pecados” faz essa explicitação de modo ainda mais direto e encontra apoio comparativo em Lucas 11:4. Portanto, a avaliação não deve partir da ideia de que uma dessas palavras automaticamente prova erro na outra versão.

Uma boa comparação pergunta primeiro qual é o objetivo da versão: conservar a metáfora do texto de origem, torná-la imediatamente compreensível, ou equilibrar os dois movimentos. Também é útil verificar a edição específica, porque nomes de versões e revisões podem mudar ao longo do tempo e plataformas digitais nem sempre exibem a mesma edição.

Como comparar Mateus 6:12 sem transformar diferença de tradução em erro

  • Leia o verso e o contexto imediato: Mateus 6:12 apresenta a metáfora de dívida; 6:14–15 explicita o tema das ofensas e do perdão.
  • Compare com Lucas 11:4: a combinação entre “pecados” e linguagem de dívida mostra que os conceitos estão ligados na própria tradição evangélica.
  • Separe texto bíblico e fórmula litúrgica: uma oração tradicional pode usar “ofensas” mesmo quando determinada tradução bíblica imprime “dívidas”.
  • Identifique a edição: ao comparar aplicativos, sites ou Bíblias impressas, confira o nome completo e o ano/revisão da versão quando essa informação estiver disponível.
  • Evite exigir equivalência palavra por palavra entre versões: traduções podem preservar a figura de linguagem ou explicitar o seu sentido sem abandonar o conteúdo central.

Assim, a diferença entre “dívidas”, “ofensas” e “pecados” em Mateus 6:12 é melhor entendida como uma questão de metáfora, estratégia de tradução e tradição de uso. O grego de Mateus conserva a imagem da dívida; o contexto de Mateus e o paralelo de Lucas deixam claro que a petição trata do perdão da culpa e das faltas humanas.

Fontes consultadas

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