Métodos de Aprendizagem10/09/2026Núcleo de Estudos e Aprendizagem6 min de leituraAtualizado em 25/09/2026

PISA 2025: 48% dos estudantes no Brasil usam IA toda semana — o que isso diz (e não diz) sobre aprendizagem

Quase metade dos estudantes brasileiros avaliados pelo PISA 2025 usa IA semanalmente para aprender. Entenda o que os dados revelam, por que não provam causalidade e como usar chatbots sem terceirizar o raciocínio.

Estudante brasileira estuda diante de notebook com assistente de IA, cercada por cadernos, gráficos e avisos visuais sobre correlação, causalidade e pensamento crítico.

O dado de que 48% dos estudantes no Brasil usam chatbots de IA para ajudá-los a aprender ao menos uma vez por semana mostra que a inteligência artificial já faz parte da rotina escolar de uma parcela grande dos jovens avaliados pelo PISA 2025. O percentual brasileiro está próximo da média da OCDE, de 46%. Mas ele não demonstra, por si só, que esses estudantes aprenderam mais — nem que aprenderam menos — por causa da IA.

A distinção é importante porque o PISA combina questionários de contexto, baseados no relato dos estudantes, com medidas de desempenho. Isso permite observar padrões e associações, mas não transforma a frequência de uso de uma ferramenta em um experimento causal. A própria OCDE descreve a relação entre uso de IA e desempenho em ciências como complexa.

O que o PISA 2025 mediu sobre uso de IA

Na nota do Brasil divulgada pela OCDE em setembro de 2026, os estudantes relataram usar chatbots de IA para diferentes atividades escolares. O indicador mais amplo foi “ajudar a aprender”: 48% disseram fazer isso ao menos semanalmente. A nota também destaca pesquisa preliminar, resumo e elaboração de rascunhos.

Uso de IA no estudo Brasil Média OCDE O que o número permite dizer
Ajudar a aprender ao menos semanalmente 48% 46% O uso regular é comum e está próximo da média da OCDE.
Pesquisa preliminar sobre um tema 40% 31% Pesquisar é o uso específico mais destacado na nota brasileira.
Resumir um texto que precisava ler 31% 30% O uso para síntese está praticamente alinhado à média da OCDE.
Elaborar rascunho para trabalho escrito 27% 29% Redigir com apoio de IA também é frequente, mas não é maioria.
Nunca ou quase nunca usar IA em nenhuma das tarefas examinadas 11% 14% A não utilização existe, porém é minoritária.

Fonte principal: nota do PISA 2025 para o Brasil, da OCDE. Os percentuais descrevem respostas dos estudantes às atividades pesquisadas; eles não medem diretamente a qualidade das respostas da IA, o tempo economizado nem o ganho de aprendizagem em cada tarefa.

O dado de 48% não é uma nota de eficácia

É tentador ler “48% usam IA toda semana” e em seguida perguntar se a ferramenta “melhorou” o desempenho. O PISA 2025 não autoriza essa passagem direta. Há pelo menos quatro motivos.

  • Autoseleção: estudantes com perfis, recursos, curiosidade, dificuldades ou hábitos de estudo diferentes podem escolher usar IA com frequências diferentes.
  • Uso não é um tratamento padronizado: pedir uma explicação, copiar uma resposta pronta, revisar um rascunho e gerar um resumo são experiências cognitivas muito diferentes.
  • Desempenho e uso são observados no mesmo universo: uma associação entre os dois pode refletir fatores anteriores, como condição socioeconômica, acesso digital, apoio escolar e domínio prévio.
  • Frequência não mede qualidade: duas pessoas que usam um chatbot “toda semana” podem fazê-lo de maneiras opostas — uma para testar raciocínio; outra para evitar o raciocínio.

No relatório completo, a OCDE informa que, em média, estudantes que usam IA semanalmente para o propósito amplo de “ajudar a aprender” tendem a apresentar desempenho em ciências semelhante ao de não usuários depois do ajuste por perfil socioeconômico. Já usos muito frequentes ou muito ocasionais aparecem associados a resultados inferiores em vários recortes. Para tarefas específicas, como resumir e pesquisar, o padrão também varia conforme a frequência. A OCDE ressalta explicitamente que essas relações não determinam causalidade. Veja o capítulo sobre vida escolar e uso digital em PISA 2025 Results, Volume I.

O que o resultado sugere para quem estuda com IA

O ganho prático não está em escolher entre “usar” e “não usar” IA como se fossem dois métodos fechados. Está em decidir qual parte do trabalho mental pode ser apoiada sem eliminar a atividade que produz aprendizagem.

Pesquisa: use a IA para abrir caminhos, não para encerrar a busca

Um chatbot pode sugerir termos, perguntas, autores e explicações iniciais. O risco começa quando a resposta gerada passa a funcionar como fonte final. Para informações factuais, procure a fonte original, confira data, contexto e autoria e compare pelo menos uma referência independente quando o tema for controverso ou importante.

Resumo: leia antes de delegar a síntese

Se a IA resume um texto antes de você ler, ela pode economizar tempo, mas também retirar justamente o esforço de selecionar ideias principais e relações entre argumentos. Uma prática melhor é fazer uma primeira leitura, anotar o que considera central e só então comparar sua síntese com a versão da IA. Depois, tente explicar o conteúdo sem consultar nenhuma das duas.

Rascunho: peça crítica e alternativas, não um texto para entregar

Para trabalhos escritos, a IA pode funcionar como leitora provisória: apontar lacunas, testar clareza, sugerir contra-argumentos ou oferecer estruturas alternativas. Se ela produz o texto inteiro desde o início, o estudante corre o risco de terceirizar planejamento, recuperação de conhecimento, escolha de evidências e formulação de frases — etapas que também treinam a habilidade de escrever.

Aprender: prefira pistas que preservem o esforço

Em matemática, ciências ou leitura, vale pedir uma dica, uma pergunta intermediária ou um exemplo análogo antes de pedir a solução. Uma regra simples é: tente primeiro, consulte depois, refaça sem ajuda e explique com suas próprias palavras. Isso mantém a IA como apoio e transforma a verificação em parte do estudo.

“Terceirização cognitiva” é um risco possível, não uma sentença

O termo descreve situações em que uma pessoa transfere para uma ferramenta uma etapa mental que poderia executar sozinha. Isso pode ser útil — calculadoras, mapas e buscadores fazem isso há décadas —, mas no estudo existe uma diferença entre terceirizar uma tarefa periférica e terceirizar a própria prática que se quer aprender.

Pesquisas recentes ajudam a entender por que não convém simplificar. Uma revisão sistemática e meta-análise de estudos experimentais e quase experimentais encontrou, em conjunto, efeitos positivos da IA generativa sobre resultados de aprendizagem, mas com heterogeneidade muito alta entre contextos e desenhos. Em sentido complementar, um ensaio randomizado com universitários encontrou menor retenção após 45 dias no grupo que usou ChatGPT sem restrições como apoio de estudo. Esse experimento não prova o mesmo efeito em adolescentes brasileiros, mas mostra por que o modo de uso e o esforço cognitivo importam.

A leitura mais responsável, portanto, não é “IA melhora a aprendizagem” nem “IA prejudica a aprendizagem”. É: os efeitos dependem do objetivo, da tarefa, da frequência, das regras e de como a ferramenta é integrada ao processo de aprender.

Verificar respostas de IA também precisa ser ensinado

O PISA 2025 traz outro indicador relevante: segundo o painel da OCDE, cerca de 51,2% dos estudantes no Brasil relataram ter oportunidades em aula para avaliar a qualidade de informações geradas por IA, abaixo da média da OCDE de 62,6%. Isso sugere que o uso já é disseminado, mas a prática escolar de avaliação crítica ainda não alcança todos.

Uma rotina de verificação pode ser curta:

  1. identifique quais afirmações da resposta são verificáveis;
  2. peça ou procure fontes primárias;
  3. confira se a fonte realmente sustenta a afirmação;
  4. verifique data, unidade, definição e contexto dos números;
  5. compare uma segunda fonte quando o erro tiver consequência importante;
  6. ao final, responda ou explique sem copiar a formulação do chatbot.

Como ler os 48% sem exagerar

O número é forte como retrato de comportamento: em 2025, usar IA para aprender já era rotina semanal para quase metade dos estudantes brasileiros avaliados. Ele também ajuda a mostrar que pesquisa, resumo e escrita são frentes concretas dessa adoção. O que ele não entrega é uma resposta causal sobre notas, retenção, compreensão ou pensamento crítico.

Para estudantes e escolas, a pergunta mais útil passa a ser menos “usar IA pode?” e mais “em que etapa ela ajuda sem substituir o raciocínio que queremos desenvolver?”. É nessa diferença entre apoio e substituição que os dados do PISA ganham valor pedagógico.

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