A resposta curta é não: o Inep não publicou uma regra que proíba, por nome, a Constituição, um autor conhecido, um livro famoso ou qualquer outro repertório chamado de "coringa". O alerta oficial é contra o uso do chamado "repertório de bolso": referências prontas, memorizadas, genéricas e pouco aprofundadas, inseridas sem conexão genuína com o tema e com o argumento desenvolvido.
A diferença importa porque "proibido" e "não produtivo" não são a mesma coisa. Uma referência pode ser conhecida por milhares de candidatos e ainda funcionar bem se estiver corretamente relacionada ao recorte, contextualizada e usada para sustentar o raciocínio. Do outro lado, até uma referência rara pode ser fraca se aparecer apenas para ornamentar o texto.
Na página de documentos do Enem atualizada pelo Inep em 17 de julho de 2026, a Cartilha do Participante 2025 ainda aparece como a cartilha de redação mais recente listada. É nela que o Instituto destaca de forma explícita o cuidado com o "repertório de bolso" e explica que uma inserção decorada, automática ou forçada pode ser avaliada como não produtiva na Competência II.
O que o Inep efetivamente disse sobre repertório de bolso
A Cartilha do Participante 2025 descreve o repertório de bolso como uma referência previamente decorada e usada de modo genérico, sem aprofundamento e sem uma relação genuína com o tema proposto. O documento liga o problema diretamente à Competência II, que exige compreensão da proposta e mobilização de conhecimentos de diferentes áreas de forma pertinente ao desenvolvimento da redação.
A orientação não transforma uma lista de autores ou obras em material vetado. Em entrevista antes do Enem 2025, o então presidente do Inep, Manuel Palacios, respondeu justamente a uma dúvida sobre a Constituição. Ele explicou, em síntese, que não há obstáculo em usar uma citação se ela se encaixar bem no desenvolvimento do argumento. A citação não sustenta o texto sozinha; ela precisa reforçar uma ideia que o participante efetivamente está construindo.
Isso também ajuda a desfazer outra confusão: repertório de bolso não é uma causa automática de nota zero. O Inep trata o problema como uma questão de avaliação do repertório e da argumentação. Uma referência mal empregada pode prejudicar a Competência II e, se vier acompanhada de problemas mais amplos de abordagem do tema, contribuir para um desempenho pior. Mas não existe uma regra geral segundo a qual mencionar Constituição, Bauman, Thomas More ou qualquer nome conhecido zere a redação.
Proibido e não produtivo são coisas diferentes
"Proibido" sugeriria uma vedação objetiva: usou determinada referência, perdeu a possibilidade de pontuar ou cometeu uma infração definida previamente. Não é isso que o material oficial diz.
"Não produtivo" descreve outra situação. A referência está no texto, mas não executa uma função argumentativa suficiente. Ela não esclarece a causa discutida, não fornece um critério de comparação, não ajuda a interpretar um fato, não sustenta uma consequência nem cria um vínculo específico com o recorte da proposta.
É possível pensar em três níveis. Primeiro, a referência precisa ser pertinente: deve ter relação real com o assunto e, de preferência, com o recorte exato do tema. Segundo, precisa ser contextualizada: o leitor deve entender qual ideia da obra, norma, conceito ou episódio é relevante. Terceiro, precisa ser produtiva: depois de ser apresentada, ela deve fazer o argumento avançar.
Essa sequência evita um erro comum na preparação para o Enem: decorar frases e depois procurar um lugar onde encaixá-las. O caminho mais seguro é o inverso. Primeiro vem a tese do parágrafo; depois, a referência que realmente ajuda a explicar ou sustentar essa tese.
Constituição, livro ou autor não são bons ou ruins por si mesmos
A Constituição é um bom exemplo porque aparece em muitos modelos de redação e, ao mesmo tempo, contém dispositivos bastante específicos. Dizer apenas que "a Constituição garante direitos" quase sempre é amplo demais. Já apontar qual direito, qual princípio ou qual dever se relaciona ao recorte pode transformar a mesma fonte em repertório útil.
O mesmo raciocínio vale para obras literárias, filmes, conceitos sociológicos e filósofos. O nome do autor não garante profundidade. O que conta é a operação feita com a referência. Um conceito pode servir para definir um fenômeno, estabelecer uma comparação, oferecer um contraponto, explicar uma relação de causa e efeito ou fornecer um critério para julgar a situação discutida.
Por isso, trocar um repertório muito conhecido por outro mais "diferente" não resolve o problema se a forma de uso continuar automática. Autoria, nesse contexto, aparece na maneira como o candidato seleciona, explica e articula o conhecimento ao próprio projeto de texto.
Um teste em 3 perguntas antes de usar qualquer repertório
Pergunta 1: é específico ao recorte do tema?
Faça um teste de substituição. Se o trecho pudesse ser reutilizado em cinco temas diferentes trocando apenas duas ou três palavras, há um sinal de generalidade excessiva. Quanto mais a referência conversa com o recorte exato da proposta, menor o risco de parecer uma peça pronta.
Isso não significa que a mesma obra nunca possa aparecer em temas diferentes. Significa que, em cada texto, você precisa mobilizar um aspecto diferente quando o recorte exige outra relação. O conhecimento pode ser o mesmo; a função argumentativa não precisa ser.
Pergunta 2: consigo explicar a relação sem depender do nome famoso?
Depois de citar, complete mentalmente a frase: "isso importa para meu argumento porque...". Se você não consegue responder em uma ou duas frases claras, a conexão provavelmente está fraca.
Esse teste separa conhecimento de ostentação de conhecimento. Escrever "segundo determinado filósofo" não vale muito se o parágrafo não explica o conceito mobilizado e por que ele ajuda a compreender o problema. O corretor precisa enxergar a ponte entre a referência e a tese, não apenas reconhecer o sobrenome citado.
Pergunta 3: a referência faz o argumento avançar?
Apague a citação por alguns segundos e releia o parágrafo. Se nada importante muda e o raciocínio continua exatamente igual, talvez a referência esteja funcionando apenas como enfeite.
Uma referência produtiva costuma acrescentar algo identificável: um critério, uma causa, um exemplo, um contraste, uma definição ou uma consequência. Ela não precisa ocupar muitas linhas, mas deve deixar uma marca no raciocínio. O parágrafo deveria perder alguma força ou alguma precisão se ela fosse retirada.
Antes e depois: a mesma Constituição usada de forma decorativa e produtiva
Exemplo 1: permanência na escola - uso decorativo
"A Constituição Federal afirma que a educação é direito de todos. Entretanto, muitos estudantes ainda deixam a escola, o que mostra que esse direito não é respeitado no Brasil."
O problema aqui não é a Constituição. É a generalidade. A referência apenas repete que existe um direito e logo em seguida afirma que a realidade é diferente. O trecho ainda não mostra por que o dispositivo constitucional ajuda a analisar especificamente a permanência escolar.
Exemplo 1: permanência na escola - uso produtivo
"Em um debate sobre permanência de estudantes na escola, o artigo 206, inciso I, da Constituição é mais específico do que uma menção genérica ao direito à educação: o texto constitucional estabelece igualdade de condições para acesso e permanência. Assim, quando o argumento analisa barreiras que impedem o estudante de continuar frequentando a escola, a referência oferece um critério preciso para mostrar que o problema não termina na matrícula; ele envolve também a continuidade do vínculo escolar."
A diferença está na função. A Constituição não aparece como selo de autoridade. O dispositivo delimita o aspecto relevante do problema e ajuda a formular a análise.
Exemplo 2: valorização da herança africana - uso decorativo
"A Constituição determina que o Estado deve proteger a cultura brasileira. Mesmo assim, a herança africana ainda enfrenta desafios de valorização no país."
A frase tem relação com o assunto, mas continua ampla. "Cultura brasileira" poderia ser usada em muitos temas, e o texto não mostra qual parte da Constituição conversa diretamente com o recorte.
Exemplo 2: valorização da herança africana - uso produtivo
"No tema do Enem 2024 sobre a valorização da herança africana no Brasil, o artigo 215, parágrafo 1º, cria uma relação direta com o recorte ao determinar a proteção das manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras. A referência se torna produtiva quando o texto usa esse dever específico como critério para discutir, no argumento seguinte, por que determinadas práticas de reconhecimento, preservação ou difusão ainda são insuficientes."
Aqui, o repertório aponta para um dever constitucional diretamente ligado ao tema e prepara o terreno para o desenvolvimento do parágrafo. Ele passa a cumprir uma tarefa na
argumentação.
Como revisar um repertório que parece coringa
Quando perceber que uma referência está genérica, não é obrigatório descartá-la imediatamente. Primeiro tente torná-la mais precisa. Identifique qual parte do conceito, obra, norma ou fato realmente conversa com o tema. Depois explicite a ponte com a tese do parágrafo. Por fim, verifique se a referência ajuda a explicar algo que você de fato pretende demonstrar.
Se a única conexão possível for "a realidade é diferente do ideal", "a sociedade tem problemas" ou "o Estado deve agir", provavelmente falta especificidade. Essas fórmulas cabem em assuntos demais e tendem a produzir exatamente o efeito que o alerta do Inep procura evitar.
Também vale revisar repertórios decorados junto com os próprios modelos de introdução. Às vezes o problema não está em uma citação isolada, mas em uma estrutura inteira montada para receber qualquer tema: uma frase famosa, uma oposição genérica entre ideal e realidade, duas causas previamente escolhidas e uma conclusão que apenas repete esse molde. Quanto mais o texto nasce antes da proposta, maior o risco de a proposta real ficar em segundo plano.
O que fazer na preparação para o Enem
Em vez de montar uma coleção de citações universais, organize seu repertório por ideias que você realmente entende. Para cada referência estudada, saiba explicar o conceito com suas próprias palavras, lembrar em que contexto ele faz sentido e imaginar quais tipos de argumento ele pode sustentar.
Também é útil treinar o mesmo repertório em duas situações: uma em que ele é claramente pertinente e outra em que ele não é. Esse contraste desenvolve a habilidade mais importante para a prova: selecionar, e não apenas lembrar.
Na revisão final da redação, volte às três perguntas. A referência é específica ao recorte? Você consegue explicar a relação? Ela faz o argumento avançar? Se as três respostas forem positivas, o fato de a referência ser conhecida não a transforma automaticamente em repertório de bolso.
A regra prática
O melhor resumo do posicionamento do Inep é este: não procure uma lista de referências "proibidas". Procure sinais de uso automático. A Constituição, um clássico da literatura ou um autor muito citado podem funcionar; o que precisa desaparecer é a citação colocada apenas porque estava decorada e parecia servir para tudo.
Até que o Inep publique uma nova cartilha específica para a redação do Enem 2026, a orientação oficial mais recente listada pelo Instituto continua sendo a da cartilha de 2025. Se houver atualização, vale conferir o documento novo antes da prova. A lógica central, porém, já está clara no material disponível: repertório não é um adereço. Ele precisa participar do argumento.





