Ciência e Matemática08/08/2026Curadoria de Inovação12 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

A Foto 51 foi “roubada”? O que Franklin, Gosling, Wilkins, Watson e Crick realmente fizeram

A Foto 51 não foi literalmente furtada, mas foi mostrada a Watson sem Franklin saber. Veja quem produziu os dados, quem os acessou e quem montou o modelo do DNA.

Padrão de difração de raios X da Foto 51, registro histórico usado na investigação da estrutura em dupla hélice do DNA.

Chamar a Foto 51 de “roubada” mistura três perguntas diferentes: quem produziu a imagem, quem teve acesso aos dados e quem transformou as evidências disponíveis em um modelo estrutural do DNA.

A resposta mais precisa é esta: não há evidência de que James Watson tenha furtado fisicamente a Foto 51 ou de que Watson e Francis Crick tenham simplesmente copiado de Rosalind Franklin um modelo pronto. O que está documentado é que Maurice Wilkins mostrou a Watson uma cópia da imagem em janeiro de 1953 sem que Franklin soubesse. Pouco depois, Max Perutz deu a Crick acesso a um relatório do Medical Research Council (MRC) que continha resultados ainda não publicados do trabalho de Franklin. Esses dados ajudaram Watson e Crick na etapa decisiva de construção do modelo.

Também seria incorreto ir ao extremo oposto e reduzir Franklin a alguém que apenas produziu uma fotografia útil sem compreender seu significado. Seus resultados experimentais estabeleceram restrições importantes para qualquer modelo correto do DNA e, no início de 1953, ela própria estava chegando a conclusões muito próximas da dupla hélice. O episódio é melhor entendido quando se separam produção experimental, circulação dos dados e modelagem teórica.

Quem realmente fez a Foto 51?

A Foto 51 é um padrão de difração de raios X da forma B do DNA, não uma fotografia convencional de uma molécula. O experimento foi realizado no King’s College London em maio de 1952. Segundo os registros apresentados pelo King’s, a exposição começou em 2 de maio, terminou com a revelação em 6 de maio e acumulou 62 horas de exposição aos raios X. O padrão em forma de cruz era uma forte indicação de estrutura helicoidal e continha informação compatível com cerca de dez bases por volta da hélice.

Há uma nuance importante quando se pergunta quem “tirou” a Foto 51. Uma correção publicada posteriormente pela Genome Biology registra que Raymond Gosling confirmou ter realizado fisicamente a imagem, sob a orientação de Rosalind Franklin. Gosling era doutorando e trabalhava com Franklin. Na atribuição científica do experimento, portanto, Foto 51 é resultado do trabalho de Franklin e Gosling; ambos também assinaram o artigo de 1953 no qual os resultados foram publicados.

Dizer apenas “a foto de Rosalind Franklin” é compreensível como abreviação histórica, porque ela conduzia aquele programa experimental e interpretava os dados. Mas apagar Gosling também distorce a autoria. Se a pergunta for quem operou a obtenção daquela imagem específica, a resposta é Gosling, sob orientação de Franklin. Se a pergunta for quem produziu, analisou e publicou aquele conjunto de evidências, a atribuição correta é Franklin e Gosling.

Como a Foto 51 chegou a Watson?

A imagem não desapareceu do laboratório nem foi furtada clandestinamente por Watson. No início de 1953, quando Franklin se preparava para deixar o King’s College e Gosling voltaria a trabalhar sob supervisão de Wilkins, uma cópia da Foto 51 estava com Wilkins. Uma reconstrução publicada no FASEB Journal relata que Franklin pediu a Gosling que entregasse a imagem a Wilkins nesse contexto de transição.

O passo controverso aconteceu depois: Wilkins mostrou a Foto 51 a Watson. O King’s College registra explicitamente que Franklin não sabia que isso havia ocorrido. Wilkins aparentemente considerava a informação parte do trabalho compartilhado do grupo e supunha que Watson já conhecesse padrões de difração helicoidais anteriores. Isso ajuda a explicar sua ação, mas não transforma o episódio em consentimento de Franklin.

Watson reconheceu imediatamente a importância do padrão muito mais nítido da forma B. A imagem fornecia restrições geométricas que tornavam uma estrutura helicoidal difícil de ignorar e deu novo impulso à construção de modelos em Cambridge.

Portanto, a descrição historicamente mais segura não é “Watson roubou a Foto 51”, e sim: Wilkins mostrou a Watson dados experimentais de Franklin e Gosling sem que Franklin soubesse que eles estavam sendo mostrados a um concorrente científico.

A Foto 51 não foi o único dado de Franklin que chegou a Cambridge

A imagem ganhou enorme valor simbólico, mas houve um segundo caminho de acesso aos resultados de Franklin.

Em dezembro de 1952, uma comissão do MRC visitou a unidade de biofísica do King’s College. Max Perutz, do laboratório de Cambridge, participava da comissão e recebeu um relatório sobre os trabalhos da unidade. O documento incluía uma seção com resultados de Franklin. Pouco depois de Watson ver a Foto 51, Perutz colocou esse relatório à disposição de Crick. Historiadores Matthew Cobb e Nathaniel Comfort registram que Perutz explicou em 1969 que o relatório não estava marcado como confidencial, embora lamentasse tê-lo compartilhado sem antes consultar o grupo do King’s.

Esse ponto é importante porque reduz a utilidade de classificações simples como “documento secreto roubado”. O relatório circulava institucionalmente e não tinha marca de confidencialidade. Ao mesmo tempo, continha resultados ainda não publicados de uma pesquisadora concorrente, que não foi consultada antes de eles chegarem à equipe que disputava a mesma estrutura.

O bioquímico Thoru Pederson argumenta que esse relatório pode ter sido até mais decisivo que a própria Foto 51. Entre os dados estavam medidas compatíveis com uma simetria cristalográfica C2. Crick, que tinha experiência particular com esse tipo de simetria, percebeu que ela favorecia duas cadeias orientadas em sentidos opostos, isto é, antiparalelas. Essa avaliação é uma interpretação historiográfica, não uma unanimidade sobre qual dado individual foi “o mais importante”, mas mostra por que a descoberta não pode ser reduzida a uma única imagem.

O que cada pesquisador realmente fez?

 
Pesquisador Contribuição direta Papel no acesso ou uso dos dados
Rosalind Franklin Elevou muito a qualidade dos estudos de difração do DNA, distinguiu as formas A e B e obteve com Gosling medidas estruturais essenciais. Em março de 1953, trabalhava com uma estrutura provavelmente helicoidal e possivelmente dupla. Não foi informada de que a Foto 51 havia sido mostrada a Watson; resultados seus também estavam no relatório do MRC entregue a Cambridge.
Raymond Gosling Doutorando que trabalhou primeiro com Wilkins e depois com Franklin. Confirmou ter realizado fisicamente a Foto 51 sob orientação de Franklin e foi coautor do artigo de 1953. Sua posição entre os programas de Wilkins e Franklin fez dele parte direta da continuidade experimental no King’s.
Maurice Wilkins Já pesquisava DNA por difração de raios X antes da chegada de Franklin e havia obtido padrões com Gosling. Continuou a produzir e testar evidências estruturais do DNA. Foi quem mostrou a Foto 51 a Watson sem que Franklin soubesse. Também manteve intercâmbio científico com Cambridge.
James Watson Trabalhou na construção do modelo e no arranjo das bases. Com Crick, chegou ao modelo de dupla hélice com pareamento específico, que imediatamente sugeria um mecanismo de cópia do material genético. Viu a Foto 51 por meio de Wilkins e incorporou evidências experimentais do King’s à modelagem.
Francis Crick Trouxe forte domínio de simetria, difração helicoidal e modelagem estrutural. Com Watson, integrou restrições químicas e experimentais em uma estrutura coerente. Teve acesso, por Perutz, ao relatório do MRC com resultados de Franklin e percebeu a importância da simetria C2 para a orientação das cadeias.

A tabela mostra por que a pergunta “quem descobriu a estrutura do DNA?” não tem uma resposta satisfatória com um único nome. Wilkins e Gosling já produziam dados de difração antes da chegada de Franklin; Franklin levou o trabalho experimental a um novo nível de precisão; Watson e Crick tinham a combinação de modelagem e interpretação estrutural que permitiu reunir rapidamente diferentes evidências em uma solução. O King’s College descreve Wilkins e Franklin como os principais responsáveis pela obtenção dos dados experimentais que sustentaram o modelo de Cambridge.

Franklin sabia que o DNA era uma hélice?

Outra versão popular da história afirma que Franklin produziu a Foto 51, mas não percebeu o que ela mostrava. Essa formulação também é enganosa.

Franklin foi cautelosa com modelos helicoidais, sobretudo porque a forma A do DNA produzia um padrão mais difícil de interpretar. Mas seu pensamento evoluiu com os dados. O King’s College registra que, em março de 1953, ela preparou um manuscrito no qual considerava uma estrutura helicoidal altamente provável, mais provavelmente uma dupla hélice, com cerca de dez bases por volta, bases voltadas para dentro e grupos fosfato para fora.

Isso não significa que Franklin já tivesse produzido exatamente o modelo de Watson e Crick. Ela não havia apresentado o arranjo completo de pareamento específico entre adenina e timina e entre guanina e citosina que tornou o modelo de Cambridge especialmente poderoso. O mérito de Watson e Crick não foi apenas pronunciar a palavra “hélice”: foi construir uma estrutura tridimensional química e geometricamente plausível que integrava várias linhas de evidência e oferecia uma explicação para a replicação do material genético.

Assim, duas afirmações extremas devem ser evitadas: Franklin não era uma técnica que deixou de entender os próprios dados, mas Watson e Crick também não receberam dela um modelo terminado que apenas apresentaram como seu.

O que Watson e Crick acrescentaram

Watson e Crick não foram os principais produtores dos dados de difração do DNA. O trabalho deles era sobretudo de síntese e construção de modelos.

Eles combinaram resultados experimentais do King’s com conhecimentos químicos, dados já publicados sobre a composição das bases — incluindo os resultados associados a Erwin Chargaff — e restrições de geometria molecular. O artigo publicado na Nature em 25 de abril de 1953 propôs duas cadeias entrelaçadas e pareamento específico das bases. O próprio texto destaca que esse pareamento sugeria imediatamente um modo pelo qual a informação genética poderia ser copiada.

Também é significativo que o artigo de Watson e Crick reconhecesse ter sido influenciado pelo conhecimento geral de resultados e ideias ainda não publicados de Wilkins, Franklin e seus colegas. Essa menção existiu, portanto não é correto dizer que Franklin foi totalmente omitida do artigo. A limitação é outra: o texto não explicava ao leitor como informações de Franklin haviam chegado aos autores nem deixava claro o peso que algumas delas tiveram durante a construção do modelo.

Os artigos de 25 de abril de 1953 ajudam a enxergar essa divisão do trabalho. A Nature publicou em sequência o modelo de Watson e Crick, o trabalho experimental de Wilkins, Alec Stokes e Herbert Wilson, e o estudo de Franklin e Gosling. O artigo de Franklin e Gosling não era simplesmente uma verificação posterior de algo já conhecido: os dados que continha haviam participado do processo que levou ao modelo.

Então, a Foto 51 foi roubada?

Furto físico: não é isso que as fontes documentam

Não há base para narrar o episódio como se Watson tivesse entrado em um laboratório e roubado uma chapa fotográfica. Wilkins mostrou a ele uma cópia. Além disso, há evidência de que a própria Franklin havia transferido a Foto 51 a Wilkins dentro da reorganização do trabalho no King’s.

Acesso sem o conhecimento de Franklin: sim

Esse ponto é muito mais sólido. O King’s College afirma que Franklin não sabia que Wilkins havia mostrado a Foto 51 a Watson. No caso do relatório do MRC, Perutz posteriormente lamentou tê-lo compartilhado sem consultar primeiro o grupo do King’s, embora defendesse que o documento não fosse confidencial.

Portanto, mesmo sem chamar o episódio de “roubo”, existe uma questão legítima de prática científica e crédito: dados ainda não publicados de uma pesquisadora chegaram a concorrentes que trabalhavam no mesmo problema sem que ela participasse dessa decisão.

Plágio do modelo: a palavra também simplifica demais

Watson e Crick não reproduziram um modelo criado por Franklin. A estrutura que publicaram envolvia trabalho próprio de modelagem, conhecimento de química e simetria, pareamento das bases e integração de resultados produzidos por diversos grupos.

Isso não elimina a dívida com Franklin, Gosling e Wilkins. Elimina apenas a falsa escolha entre duas histórias igualmente incompletas: “Watson e Crick fizeram tudo sozinhos” ou “Watson e Crick apenas roubaram a descoberta de Franklin”.

Em 2023, os historiadores Matthew Cobb e Nathaniel Comfort defenderam que a imagem de Franklin apenas como uma vítima passiva também reduz sua estatura científica. Para eles, novas evidências de arquivo reforçam a visão de Franklin como participante intelectual do processo. Um editorial da própria Nature, publicado na mesma ocasião, enfatizou o outro lado dessa conclusão: a dupla hélice foi produto de ciência em equipe, mas Franklin não recebeu em vida o reconhecimento proporcional ao seu papel.

E o Nobel de 1962?

O Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1962 foi dividido entre Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins por suas descobertas sobre a estrutura molecular dos ácidos nucleicos e sua importância para a transferência de informação nos seres vivos.

Rosalind Franklin havia morrido em 1958. É tentador transformar o Nobel em uma espécie de veredito definitivo sobre “quem descobriu o DNA”, mas o prêmio não funciona como auditoria completa de autoria científica. Também não é possível saber, como fato histórico, qual teria sido a composição do prêmio se Franklin ainda estivesse viva. Isso é um contrafactual.

Mais útil é observar a documentação de 1953: três trabalhos apareceram juntos na Nature, cada um correspondendo a uma parte diferente do problema. A história posterior privilegiou durante muito tempo a clareza do modelo de Watson e Crick e os nomes associados ao Nobel, enquanto a importância dos dados experimentais de Franklin e Gosling demorou mais para ocupar lugar equivalente na narrativa pública.

A atribuição mais precisa

Se o objetivo é dizer quem fez o quê sem transformar uma história científica complexa em julgamento de uma frase, a atribuição mais defensável é:

  • Foto 51: trabalho experimental de Rosalind Franklin e Raymond Gosling; Gosling confirmou ter realizado fisicamente a imagem sob orientação de Franklin.
  • Dados de difração que restringiram a estrutura: produzidos principalmente no King’s por Franklin, Gosling, Wilkins e outros colegas, em programas que se sobrepunham e também competiam.
  • Circulação controversa dos dados: Wilkins mostrou a Foto 51 a Watson sem o conhecimento de Franklin; Perutz compartilhou com Crick o relatório do MRC sem consultar previamente o grupo do King’s.
  • Modelo da dupla hélice com pareamento específico das bases: construído por James Watson e Francis Crick, combinando os dados do King’s com outras evidências químicas e estruturais.
  • Descoberta histórica da estrutura do DNA: resultado coletivo. Nenhum dos cinco nomes, isoladamente, explica toda a cadeia que levou ao modelo de 1953.

Por isso, dizer simplesmente que “a Foto 51 foi roubada” transmite uma parte real do problema o acesso a dados sem o conhecimento de Franklin, mas perde precisão histórica. A formulação mais fiel é que dados inéditos de Franklin e Gosling chegaram a Watson e Crick por canais que não envolveram o consentimento direto de Franklin; esses dados foram importantes para o modelo, mas o modelo correto da dupla hélice e seu mecanismo de pareamento foram uma contribuição intelectual própria de Watson e Crick dentro de um esforço científico muito mais amplo.

Tópicos deste artigoDNAFoto 51Francis CrickJames WatsonMaurice WilkinsRaymond GoslingRosalind FranklinFoto 51 foi roubadaRosalind Franklin Foto 51Raymond Gosling DNAMaurice Wilkins DNAWatson e Crick DNAdescoberta da dupla héliceestrutura do DNAhistória da genéticadifração de raios X DNA