Tecnologia e Invenção31/08/2026Curadoria de Inovação9 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Ada Lovelace foi mesmo a primeira programadora? O que a Nota G prova — e o que Babbage já havia programado antes

A fama de Ada Lovelace depende do que chamamos de “primeiro programa”. A Nota G traz um algoritmo publicado e detalhado para a Máquina Analítica, mas os papéis de Charles Babbage preservam programas anteriores. A evidência aponta para colaboração e para uma contribuição de Lovelace mais ampla do que um rótulo simples.

Retrato estilizado de Ada Lovelace ao lado de uma Máquina Analítica de latão, com fórmulas em um quadro e cartões históricos de cálculo no primeiro plano.

A resposta curta é: Ada Lovelace pode ser defendida como autora do primeiro programa de computador publicado em sentido moderno, mas não como a primeira pessoa a escrever qualquer programa para a Máquina Analítica. A distinção importa porque os documentos sobreviventes mostram duas coisas ao mesmo tempo. Em 1843, a Nota G de Lovelace apresentou publicamente uma sequência detalhada de operações para calcular números de Bernoulli na máquina concebida por Charles Babbage. Mas o arquivo de Babbage preserva dezenas de “traces” ou percursos de programas anteriores, produzidos entre 1836 e 1840.

Por isso, a frase “Ada Lovelace foi a primeira programadora” é útil como resumo histórico, mas vira exagero quando é tratada como uma afirmação sem qualificações. O caso real é mais interessante: Lovelace publicou uma descrição extraordinariamente completa de como uma máquina geral poderia executar uma sequência de operações, enquanto Babbage já vinha escrevendo e testando no papel procedimentos para a mesma arquitetura. A autoria da rotina dos números de Bernoulli também foi colaborativa, não uma criação isolada de um dos dois.

O que era a Nota G

Em 1842, o engenheiro italiano Luigi Federico Menabrea publicou em francês uma descrição da Máquina Analítica depois de assistir a exposições de Babbage em Turim. Ada Lovelace traduziu o texto para o inglês e, por sugestão de Babbage, acrescentou uma série de notas próprias, identificadas de A a G. A tradução e as notas saíram em 1843 no volume 3 de Scientific Memoirs. A publicação original pode ser consultada em versões digitalizadas no Project Gutenberg e no Fourmilab.

A última dessas notas, a Nota G, escolhe os números de Bernoulli como exemplo de uma tarefa suficientemente complicada para mostrar as capacidades da Máquina Analítica. O texto não apresenta apenas uma fórmula. Ele descreve quais valores seriam armazenados nas colunas da máquina, quais operações seriam executadas, em que ordem os resultados intermediários seriam reutilizados e como o procedimento poderia prosseguir sucessivamente para obter novos números de Bernoulli.

O próprio texto da Nota G explica que o diagrama e a tabela mostram as mudanças sucessivas das colunas da máquina durante o cálculo. Também afirma que, depois de obter um número de Bernoulli, a máquina poderia reutilizá-lo como dado para calcular o seguinte. É esse grau de detalhamento que faz a Nota G aparecer tão frequentemente como “o primeiro programa de computador”.

O que a Nota G prova — e o que ela não prova

A Nota G é evidência direta de que Lovelace publicou, em 1843, uma especificação operacional muito detalhada para uma máquina de propósito geral que ainda existia principalmente no papel. Ela mostra uma forma de pensar que se aproxima do que hoje chamamos de programação: separar dados, variáveis de trabalho, resultados, sequência de operações e repetição.

Mas a Nota G não prova que ninguém antes dela havia escrito instruções programáveis para a Máquina Analítica. Os Babbage Papers do Science Museum Group catalogam 27 conjuntos de notações, datados de 1836 a 15 de agosto de 1840, descritos pelo museu como “walk throughs” ou “traces” de programas para a Máquina Analítica. Esses documentos precedem a publicação de Lovelace em vários anos.

O acervo inclui, por exemplo, uma notação de 23 de dezembro de 1837 para determinar uma variável a partir de três equações simultâneas. O documento está atribuído a Charles Babbage e faz parte da série de cálculos da Máquina Analítica. Assim, se a pergunta for “quem escreveu primeiro alguma sequência de operações para essa máquina?”, os papéis preservados favorecem Babbage, não Lovelace.

Então por que a Nota G ainda é chamada de primeiro programa publicado?

Porque “programa” é uma palavra anacrônica aplicada a documentos do século XIX, e diferentes autores usam critérios diferentes. Algumas sequências anteriores de Babbage são curtas, experimentais ou apresentadas como traços do funcionamento da máquina. A Nota G, por outro lado, foi publicada, é extensa, associa operações a variáveis e resultados intermediários e apresenta um procedimento iterativo para uma tarefa matemática não trivial.

Há ainda uma segunda complicação: o próprio texto de Menabrea, publicado em francês em 1842, já continha tabelas de operações para exemplos como a resolução de equações. O catálogo do Science Museum observa que quase todos os exemplos discutidos no artigo Menabrea/Lovelace derivam de notações anteriores das séries de Babbage. Se qualquer tabela operacional for classificada como “programa publicado”, então até a expressão “primeiro programa publicado” precisa ser usada com cuidado.

Afirmação O que a documentação sustenta
“Ada foi a primeira pessoa a escrever um programa para a Máquina Analítica.” Não. Os papéis de Babbage preservam programas ou traços de programas de 1836–1840.
“A Nota G é o primeiro programa de computador publicado.” É uma formulação defensável, mas depende da definição de programa. Ela é um dos primeiros exemplos publicados mais completos e sofisticados.
“Ada criou sozinha o cálculo dos números de Bernoulli.” Não. A documentação aponta para colaboração com Babbage.
“Ada apenas traduziu Menabrea.” Também não. Suas notas são muito mais extensas que a tradução e contêm análise própria sobre a Máquina Analítica.

Quem escreveu a rotina dos números de Bernoulli?

A resposta mais fiel às fontes é: Lovelace e Babbage contribuíram de maneiras diferentes. Em Passages from the Life of a Philosopher, publicado em 1864, Babbage recordou que sugeriu vários exemplos para as notas, mas que a escolha era de Lovelace. Ele também disse que o desenvolvimento algébrico dos problemas era dela, com uma exceção: o cálculo dos números de Bernoulli, que ele se ofereceu para desenvolver para poupá-la do trabalho. Segundo o próprio Babbage, Lovelace devolveu esse cálculo pedindo correção porque havia detectado “um grave erro” no processo. O trecho está disponível na edição digital de Passages from the Life of a Philosopher.

Esse relato impede duas simplificações opostas. Não é correto dizer que Babbage não teve papel na rotina dos Bernoulli: ele próprio afirma ter feito a parte algébrica. Mas também é fraco concluir que Lovelace apenas copiou trabalho alheio. A Nota G organiza o cálculo em uma representação detalhada da execução da máquina, e Babbage reconheceu a escolha e a elaboração das notas como trabalho dela, além de registrar que ela encontrou um erro em seu processo.

O historiador da computação Thomas J. Misa sintetiza bem a questão em seu estudo Charles Babbage, Ada Lovelace, and the Bernoulli Numbers: o crédito entre os dois não é um jogo de soma zero. Há problemas de definição em chamar Lovelace de “primeira programadora”, mas há evidência para atribuir a ela uma sequência elementar de instruções — isto é, um algoritmo — para calcular a série de Bernoulli.

A Nota G é um programa ou apenas um “trace” de execução?

Esse é um dos pontos técnicos da controvérsia. Em computação moderna, um programa costuma ser uma especificação de instruções que pode ser executada para diferentes dados; um execution trace registra a sequência de estados produzidos durante uma execução particular. A grande tabela da Nota G tem muito de um trace: ela mostra o que acontece com as variáveis passo a passo quando a máquina calcula um caso específico.

Mas reduzir a Nota G apenas a isso também perde parte do documento. O texto ao redor da tabela explica como a máquina poderia calcular números de Bernoulli sucessivamente, reutilizando resultados anteriores e repetindo o procedimento para valores seguintes. Portanto, a tabela é uma representação concreta de uma execução, enquanto a explicação descreve uma regra geral de cálculo. É por isso que estudos contemporâneos divergem mais sobre o rótulo do que sobre a importância do documento.

O que Babbage já havia programado antes

O material preservado pelo Science Museum mostra que Babbage não ficou esperando a máquina ser construída para pensar em software. Seus cadernos e folhas de notação exploram cálculos estendidos, resolução de equações e formas de controlar a sequência de operações da Máquina Analítica. O museu descreve os 27 conjuntos como exemplos de como micro-operações aritméticas poderiam ser combinadas em cálculos maiores.

Esses documentos também ajudam a entender por que a discussão não pode ser reduzida a “quem teve a ideia primeiro”. Babbage era o inventor da arquitetura e naturalmente desenvolveu métodos para fazê-la funcionar. Lovelace entrou nesse projeto depois e transformou parte desse conhecimento em uma exposição publicada, sistemática e conceitualmente ambiciosa. O trabalho de um fornece contexto para o do outro.

A contribuição de Lovelace é maior do que o título de “primeira programadora”

Fixar toda a importância de Lovelace na pergunta “foi a primeira?” acaba escondendo o trecho mais visionário de suas notas. Na Nota A, ela distingue a Máquina Analítica de uma simples calculadora e observa que a máquina poderia operar sobre outras coisas além de números se as relações entre esses objetos pudessem ser expressas por símbolos e regras. Como exemplo, imagina que relações musicais pudessem ser codificadas de modo que a máquina produzisse composições.

Essa passagem é importante porque trata a máquina como um manipulador geral de representações, não apenas como um aparelho para produzir tabelas numéricas. Em outra formulação famosa, Lovelace compara a Máquina Analítica ao tear de Jacquard: assim como o tear tece flores e folhas seguindo cartões perfurados, a máquina poderia “tecer padrões algébricos”.

Ela também foi cautelosa sobre os limites da máquina. Na abertura da Nota G, escreveu que a Máquina Analítica não tinha pretensão de “originar” algo por conta própria e faria aquilo que soubéssemos ordenar que fizesse. Séculos depois, essa passagem ainda aparece em debates sobre automação e inteligência artificial, embora o contexto de 1843 fosse uma máquina mecânica de cálculo, não sistemas de aprendizado de máquina.

Veredito: Ada Lovelace foi a primeira programadora?

Se “primeira programadora” significar a primeira pessoa de que temos registro a escrever qualquer programa para a Máquina Analítica, a resposta mais segura é não: Babbage deixou notações anteriores. Se significar a autora do primeiro grande exemplo publicado de programação para uma máquina de propósito geral, o título é defensável e explica por que se consolidou.

O mais preciso é dizer que Ada Lovelace foi uma das fundadoras intelectuais da programação: publicou em 1843 uma explicação detalhada de como a Máquina Analítica poderia executar um algoritmo para números de Bernoulli, colaborou estreitamente com Babbage e formulou uma visão da computação que ia além da aritmética. Babbage, por sua vez, já havia produzido programas e traços de execução anos antes. A história documental não exige escolher um herói único; ela mostra como a programação nasceu da interação entre projeto de máquina, notação, matemática e explicação.

Fontes principais

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