Em 9 de agosto de 2026 completam-se 250 anos do nascimento de Amedeo Avogadro. A data encontra a cidade italiana de Vercelli e a Universidade do Piemonte Oriental em meio a uma programação oficial dedicada ao cientista, iniciada em maio e prevista para continuar até 23 de novembro. O aniversário oferece também uma oportunidade para revisitar uma das histórias mais instrutivas da ciência: Avogadro formulou em 1811 uma ideia hoje fundamental para a química, mas sua aceitação ampla só viria cerca de meio século depois.
A demora não pode ser explicada simplesmente como falta de visão dos contemporâneos. A hipótese de Avogadro exigia que os químicos aceitassem consequências que entravam em conflito com teorias influentes da época, aparecia em um campo ainda confuso sobre o significado de átomo e molécula e não dispunha, em 1811, do conjunto de evidências e métodos que mais tarde a tornaria especialmente útil. Quando Stanislao Cannizzaro retomou essa ideia em 1858, o cenário científico já era outro.
O que Avogadro propôs em 1811
Avogadro partiu dos resultados de Joseph Louis Gay-Lussac sobre as proporções simples em que gases participavam de reações. Sua proposta era que, mantidas as mesmas condições de temperatura e pressão, volumes iguais de gases contivessem o mesmo número de partículas — na terminologia moderna, moléculas. Dessa relação decorria uma ferramenta poderosa: comparar densidades gasosas permitiria obter massas moleculares relativas.
O ponto mais ousado surgia quando essa hipótese era aplicada a gases formados por elementos. Para fazer as proporções observadas experimentalmente funcionarem, Avogadro admitiu que uma partícula de uma substância simples não precisava corresponder a um único átomo. Ela poderia conter mais de um. É justamente a possibilidade hoje familiar de moléculas como H₂ e O₂.
Essa solução ajudava a reconciliar a teoria atômica de John Dalton com os resultados experimentais sobre volumes gasosos. Mas, para muitos químicos do início do século XIX, ela criava um problema teórico maior do que aquele que pretendia resolver.
Por que a ideia parecia tão difícil de aceitar
Uma das barreiras estava nas teorias sobre como as partículas se uniam. O modelo eletroquímico associado a Jöns Jacob Berzelius concebia a combinação química em termos de atrações entre partes com propriedades elétricas opostas. Dentro dessa visão, a existência estável de uma molécula formada por dois átomos iguais, como O₂, era difícil de justificar: partículas de mesma natureza não deveriam se unir daquela maneira.
Não se tratava, portanto, apenas de escolher entre duas fórmulas. Aceitar Avogadro significava mexer em pressupostos sobre a própria constituição da matéria.
Havia ainda um segundo obstáculo: a linguagem científica não estava suficientemente estabilizada. Termos equivalentes a átomo, molécula e partícula eram empregados de maneiras diferentes por autores distintos. O próprio Avogadro usava expressões como “molécula integrante”, “molécula constituinte” e “molécula elementar”. A distinção operacional entre átomo e molécula que hoje parece elementar ainda estava em construção.
Essa confusão tinha consequências práticas. Sem acordo sobre o que exatamente constituía uma molécula e sobre quantos átomos havia nela, diferentes sistemas de pesos atômicos e diferentes fórmulas químicas podiam coexistir. Em meados do século XIX, divergências desse tipo haviam se tornado um problema central para uma química que crescia rapidamente, sobretudo no estudo de compostos orgânicos.
A hipótese também precisava de uma química mais madura
A proposta de 1811 não possuía a mesma força empírica e operacional que adquiriria décadas depois. O número de substâncias adequadas a determinações confiáveis de densidade de vapor era limitado, havia aparentes exceções e faltava uma teoria consolidada capaz de explicar satisfatoriamente como átomos iguais poderiam formar moléculas estáveis.
Ao longo das décadas seguintes, a química acumulou muito mais resultados experimentais. Novos estudos sobre gases, densidades de vapor, composição de substâncias e dissociação permitiram reinterpretar problemas que antes pareciam incompatíveis com a hipótese. Paralelamente, teorias que dificultavam a aceitação de moléculas formadas por átomos iguais perderam influência.
Avogadro também trabalhava relativamente afastado das principais redes internacionais de químicos de França, Alemanha, Inglaterra e Suécia. Esse isolamento contribuiu para a baixa repercussão, embora não explique sozinho o esquecimento: seu trabalho de 1811 foi publicado no Journal de Physique e não era simplesmente um texto desconhecido. O problema era que a comunidade ainda não tinha razões suficientes para transformá-lo em princípio organizador de toda a química.
Cannizzaro mostrou para que a hipótese servia
A virada ocorreu com Stanislao Cannizzaro. Em 1858, ele publicou o Sunto di un corso di filosofia chimica, trabalho no qual retomou explicitamente a hipótese de Avogadro e a utilizou para estabelecer uma distinção coerente entre átomos e moléculas e determinar massas moleculares e atômicas.
Essa diferença é importante. Cannizzaro não simplesmente afirmou que Avogadro estava certo. Ele mostrou como usar a hipótese como parte de um sistema capaz de organizar resultados que a química havia acumulado durante quase cinquenta anos.
A partir das densidades dos gases, era possível comparar massas moleculares. A análise da composição dessas moléculas ajudava, por sua vez, a identificar as quantidades mínimas de cada elemento que apareciam repetidamente nos compostos. O método oferecia uma base muito mais consistente para definir pesos atômicos.
Foi nesse novo contexto que a antiga hipótese deixou de parecer apenas uma especulação engenhosa e passou a funcionar como uma ferramenta para resolver problemas concretos.
Karlsruhe foi um catalisador, não uma votação sobre Avogadro
O Congresso de Karlsruhe, realizado de 3 a 5 de setembro de 1860, reuniu 127 químicos e tinha entre seus objetivos discutir justamente a confusão em torno de átomos, moléculas, pesos atômicos, fórmulas e nomenclatura. Participaram nomes como Cannizzaro, Dmitri Mendeleev e Lothar Meyer.
É comum resumir esse episódio dizendo que Karlsruhe consagrou a hipótese de Avogadro. A história é mais gradual. O congresso não chegou a uma solução definitiva para todos os problemas discutidos. O impacto decisivo veio, em parte, da circulação de cópias do texto de Cannizzaro entre os participantes, permitindo que suas ideias fossem examinadas depois das sessões. Nos anos seguintes, a interpretação baseada em Avogadro ganhou aceitação cada vez maior.
Essa padronização foi relevante para avanços posteriores. Um conjunto mais coerente de pesos atômicos forneceu parte da base conceitual utilizada por pesquisadores como Mendeleev e Lothar Meyer no desenvolvimento da classificação periódica dos elementos.
Avogadro, porém, não viu essa reviravolta. Ele morreu em 1856, dois anos antes da publicação do trabalho de Cannizzaro e quatro anos antes do congresso de Karlsruhe.
A lei de Avogadro não é o número de Avogadro
O reconhecimento posterior criou outra associação que pode causar confusão. A contribuição de Avogadro foi a hipótese sobre a relação entre volume e número de moléculas nos gases; ele não determinou experimentalmente o valor que hoje chamamos de número ou constante de Avogadro. A própria IUPAC chama atenção para essa distinção histórica.
Hoje a constante de Avogadro, (N_A), é uma das sete constantes definidoras do Sistema Internacional de Unidades. Seu valor é fixado exatamente em 6,022 140 76 × 10²³ mol⁻¹. Desde a redefinição do SI que entrou em vigor em 2019, um mol contém exatamente esse número de entidades elementares especificadas.
Há uma ironia histórica nessa trajetória: uma ideia que passou décadas sem consenso terminou ligada a uma das constantes que hoje ajudam a definir o próprio sistema internacional de medidas.
Por que os 250 anos importam em 2026
Avogadro nasceu em Turim em 9 de agosto de 1776. Entre 1809 e 1819, ensinou física no Regio Collegio de Vercelli, período no qual elaborou a hipótese publicada em 1811. Em 2026, a Universidade do Piemonte Oriental, o Município de Vercelli e diversas instituições científicas e culturais organizaram um calendário de celebrações entre maio e novembro.
A programação inclui atividades acadêmicas e culturais, além de eventos previstos para o segundo semestre. Entre eles estão um encontro na Accademia delle Scienze, em Turim, em 13 de outubro; o Avogadro Day no liceu científico que leva seu nome, em 23 de outubro; e o encerramento oficial das celebrações em 23 de novembro. Como essas informações pertencem a uma agenda em andamento, devem ser reconfirmadas nos canais oficiais antes de eventual divulgação de serviço.
Os 250 anos de Avogadro servem, assim, para recordar algo maior que uma fórmula escolar. A história de sua hipótese mostra que uma boa ideia científica não vence apenas por ser elegante ou, vista retrospectivamente, correta. Ela precisa ser compatível com evidências disponíveis, superar modelos concorrentes, ganhar uma linguagem suficientemente clara e, sobretudo, demonstrar que consegue organizar problemas que antes pareciam desconectados.
Foi isso que faltava em 1811. E foi isso que a química das décadas seguintes, culminando no trabalho de Cannizzaro, finalmente tornou possível.





