Pensamento e Sociedade07/08/2026Curadoria de Inovação9 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Mata Hari nasceu há 150 anos: de Margaretha Zelle à personagem pública o que é fato e o que virou mito

Há 150 anos, nascia Margaretha Zelle, a futura Mata Hari. Arquivos mostram uma história de espionagem real, mas bem menos certeira que a lenda.

Retrato histórico de Mata Hari em composição editorial que contrapõe sua persona pública aos documentos de arquivo sobre sua vida e julgamento.

Em 7 de agosto de 1876, nascia em Leeuwarden, nos Países Baixos, Margaretha Geertruida Zelle. Exatos 150 anos depois, a data oferece uma oportunidade incomum: olhar para Mata Hari sem começar pela lenda da sedutora capaz de arrancar segredos de generais e decidir batalhas.

A própria certidão de nascimento ajuda a fixar o primeiro fato. O registro civil informa que Margaretha nasceu em 7 de agosto e que o nascimento foi registrado no dia 8. A distinção é relevante porque até fontes institucionais mais antigas chegaram a publicar 8 de agosto como sua data de nascimento. O documento civil e a biografia atual do Fries Museum, porém, convergem em 7 de agosto de 1876.

A efeméride não está passando despercebida em sua cidade natal. Leeuwarden organizou em 2026 uma programação de aniversário entre 23 de maio e 7 de agosto, com exposições, passeios, cinema e outras atividades dedicadas aos 150 anos de Mata Hari.

O interesse permanece porque sua história admite uma resposta mais complexa do que “espiã” ou “inocente”. Há fatos documentados sobre seus contatos com serviços de inteligência, uma condenação judicial que realmente ocorreu e, ao mesmo tempo, uma distância considerável entre aquilo que os arquivos permitem demonstrar e a imagem da “superespiã” eternizada no século XX.

O que é fato, o que exige ressalva e o que pertence ao mito

 
Afirmação Situação histórica O que as fontes sustentam
Margaretha Zelle nasceu em 7 de agosto de 1876 Documentado O registro civil de Leeuwarden informa nascimento no dia 7 e registro da ocorrência no dia 8.
Mata Hari era uma princesa ou dançarina de templo nascida na Ásia Personagem criada por ela Documentos de identidade confirmam seu nascimento neerlandês; diferentes origens “exóticas” faziam parte das histórias que apresentava ao público e à imprensa.
Ela teve relações com serviços de inteligência alemães e franceses Fortemente documentado Arquivos e reconstruções institucionais mostram recrutamento e contatos com os dois lados durante a guerra.
O código H21 esteve ligado a Mata Hari Parte central do caso Mensagens alemãs referentes ao agente H21 integraram a investigação; o acervo do Fries Museum relata que ela admitiu ter recebido dinheiro alemão e reconheceu o código, embora negasse ter espionado a França para a Alemanha.
Ela entregou segredos decisivos e provocou a morte de dezenas de milhares de soldados Não demonstrado pelos arquivos disponíveis O próprio Service historique de la Défense afirma que, depois da guerra, franceses e alemães não conseguiram demonstrar que ela tivesse fornecido informações de importância capital.
A história já provou que Mata Hari era completamente inocente Também é uma simplificação A fragilidade das acusações mais espetaculares não apaga seus contatos, o dinheiro recebido ou seu envolvimento com serviços secretos. A extensão e a efetividade desse envolvimento continuam sendo objeto de interpretação histórica.

Margaretha Zelle existiu antes de Mata Hari

A personagem pública não nasceu durante a Primeira Guerra Mundial. Ela já vinha sendo construída havia anos.

Margaretha era filha de Adam Zelle, comerciante de chapéus, e passou parte da infância em condições confortáveis antes da ruína financeira da família. Aos 18 anos, conheceu Rudolph MacLeod, oficial do Exército Real das Índias Orientais Neerlandesas. Casaram-se em 1895 e partiram em 1897 para as Índias Orientais Neerlandesas. Tiveram dois filhos. O casamento se deteriorou, a família sofreu a morte do menino Norman e o casal acabou se separando após retornar à Europa.

Margaretha tentou a vida em Paris em 1903 e voltou definitivamente à cidade em 1904. Foi ali que transformou a própria biografia em espetáculo. Em 13 de março de 1905, apresentou-se no Musée Guimet sob o nome Mata Hari, expressão habitualmente traduzida como “olho do dia” em malaio. Criou números inspirados no imaginário europeu sobre a Ásia e contou versões diferentes sobre suas supostas origens: em algumas, seria uma princesa de Java; em outras, teria nascido em ambiente religioso na Índia.

Essas histórias eram falsas como biografia, mas funcionavam como construção artística e publicitária. O sucesso foi real. Mata Hari circulou por grandes palcos europeus, frequentou ambientes de elite e se tornou uma celebridade antes que qualquer acusação de espionagem entrasse em sua vida.

Essa distinção é importante. O fato de Margaretha ter inventado uma origem para sua persona cênica não prova que tenha mentido sobre todas as acusações posteriores. Mostra, porém, como desde cedo a história de Mata Hari foi composta por uma mistura de pessoa real, autopromoção e imaginação pública.

A guerra transformou mobilidade em suspeita

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, a carreira de Mata Hari perdeu espaço. Como cidadã dos Países Baixos, país que permaneceu neutro, ela ainda possuía uma mobilidade internacional pouco comum numa Europa em guerra. Ao mesmo tempo, suas viagens e seus relacionamentos com oficiais de diferentes nacionalidades começaram a chamar a atenção dos serviços secretos.

Segundo a reconstrução do Fries Museum baseada em documentação do período, em 1916 ela recebeu uma proposta de um representante alemão em Haia para atuar como agente, com o código H21, e recebeu 20 mil francos. Mais tarde, durante os interrogatórios franceses, admitiu ter aceitado o dinheiro, mas sustentou que não pretendia trabalhar efetivamente para a Alemanha e que considerava a quantia uma compensação por bens que os alemães haviam confiscado.

Ao mesmo tempo, Mata Hari entrou na órbita do contraespionagem francês. Georges Ladoux, que já a observava, discutiu com ela uma missão para a França. Ela posteriormente viajou por Espanha e manteve contato em Madri tanto com representantes alemães quanto com franceses. Correspondências e outros documentos preservados mostram que não é correto reduzir toda essa atividade a uma invenção posterior: ela realmente se envolveu no jogo de inteligência.

O problema está em dar o passo seguinte e transformar esse envolvimento na carreira de uma agente extremamente eficiente.

Mensagens alemãs referentes ao agente H21 foram interceptadas e decifradas e acabaram integradas ao material do caso. O Service historique de la Défense conserva inclusive registros de decifrações de correspondências e telegramas ligados ao processo de Mata Hari.

Mas uma identificação em comunicações de inteligência, o recebimento de dinheiro e a realização de contatos não demonstram, por si sós, que ela tenha obtido segredos decisivos ou causado grandes perdas militares.

A condenação é fato; a narrativa da “maior espiã” é outra questão

Mata Hari foi presa em Paris em 13 de fevereiro de 1917. O processo foi conduzido pela justiça militar francesa. Depois de interrogatórios e coleta de testemunhos, seu julgamento começou em 24 de julho, a portas fechadas, e durou dois dias. Em 25 de julho, o 3º Conselho de Guerra a declarou culpada de espionagem e de manter relações com o inimigo com a finalidade de favorecer suas operações.

Ela pediu revisão da sentença no mesmo dia. O recurso foi rejeitado em 17 de agosto. Seu pedido de graça também não prosperou. Em 15 de outubro de 1917, aos 41 anos, Margaretha Geertruida Zelle foi executada por um pelotão de fuzilamento em Vincennes.

Nada disso é mito: houve investigação, julgamento, condenação e execução.

A questão histórica é outra: o material reunido justificava a imagem de uma agente excepcionalmente perigosa?

A própria apresentação atual do Service historique de la Défense oferece uma resposta cautelosa. A instituição afirma que, depois da guerra, nem alemães nem franceses conseguiram demonstrar que Mata Hari tivesse entregue informações de importância capital a qualquer dos lados. A página remete ao historiador militar Frédéric Guelton, cuja interpretação é a de uma mulher ligada aos dois serviços, mas que provavelmente nunca realizou espionagem de grande efetividade.

Isso não produz automaticamente uma sentença histórica de “inocência”. Produz algo mais preciso: a condenação judicial de 1917 é documentada, enquanto a dimensão extraordinária atribuída aos supostos danos causados por ela não encontra sustentação equivalente nos arquivos.

O contexto de 1917 também importa

Mata Hari não foi julgada em um momento politicamente neutro. Poucos meses antes, a ofensiva francesa do Chemin des Dames havia fracassado com perdas enormes. O descontentamento se espalhou pelas tropas e ocorreram recusas coletivas de obediência e motins em unidades do Exército francês.

Esse contexto alimenta uma das interpretações mais importantes sobre o caso: a de que Mata Hari também serviu como bode expiatório num período de crise militar e de procura por responsáveis internos.

A historiadora Julie Wheelwright, que pesquisou os arquivos militares franceses, argumenta que a acusação ajudou a construir Mata Hari como uma “femme fatale” estrangeira e perigosa. Em sua análise, os documentos não oferecem evidência de que ela tenha usado relações sexuais para extrair segredos militares de oficiais aliados, embora essa imagem tenha se tornado um dos pilares de sua fama posterior.

É uma interpretação historiográfica, e deve ser apresentada como tal. O fracasso francês no campo de batalha não prova que o processo tenha sido inventado. Mas ajuda a compreender por que uma mulher já conhecida por sua sexualidade pública, por relacionamentos internacionais e por uma identidade cênica “exótica” podia ser convertida em símbolo de uma ameaça muito maior do que a eficácia operacional que os documentos permitem comprovar.

A “superespiã” cresceu depois da morte

A transformação não terminou diante do pelotão de fuzilamento. Segundo o arquivo militar francês, a lenda começou praticamente de imediato. Livros sobre Mata Hari proliferaram no período entre guerras, e o cinema ajudou a consolidar a figura da mulher irresistível que seduzia homens poderosos para roubar segredos. Greta Garbo a interpretou em 1931; muitas outras versões vieram depois.

Wheelwright mostra como algumas das primeiras narrativas apresentaram como fatos episódios sem sustentação nos arquivos militares. Histórias de Mata Hari seduzindo soldados aliados para obter informações, por exemplo, circularam de uma biografia para outra e passaram a parecer documentação simplesmente porque haviam sido repetidas.

Há uma ironia nisso: Margaretha Zelle foi uma das primeiras responsáveis por transformar a própria vida em narrativa. Inventou origens, compôs uma personagem e aprendeu a alimentar o interesse da imprensa. Depois de 1917, perdeu o controle da história. Estado, jornalistas, memorialistas, biógrafos, romancistas e cineastas continuaram escrevendo “Mata Hari” sobre uma mulher que já não podia responder.

Aos 150 anos, qual Mata Hari permanece?

A leitura mais compatível com os documentos evita os dois extremos.

Mata Hari não precisa ser transformada numa mártir absolutamente alheia à espionagem: há evidências de dinheiro recebido, contatos com agentes alemães, envolvimento com a inteligência francesa e do código H21 associado ao caso. Também não há boa base para continuar descrevendo-a como uma espiã magistral cuja sedução teria custado dezenas de milhares de vidas.

Ela entrou no mundo da inteligência, aparentemente sem o profissionalismo que sua lenda posterior lhe atribuiu. Foi julgada e executada como espiã. A importância real das informações que transmitiu, porém, parece muito menor do que a reputação criada em torno de seu nome.

No sesquicentenário de seu nascimento, talvez essa seja justamente a parte mais interessante da história. Margaretha Zelle criou Mata Hari para conquistar o palco. A guerra e a cultura popular transformaram essa personagem em outra coisa: um arquétipo de espionagem feminina que sobreviveu por mais de um século à força de repetição.

Para conhecer a mulher por trás dele, o caminho mais seguro continua sendo voltar aos registros civis, às cartas, aos documentos militares e aos objetos preservados — e perguntar, a cada episódio, se estamos diante de um fato, de uma acusação ou de uma história que ficou boa demais para desaparecer.

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