Pensamento e Sociedade17/08/2026Curadoria de Inovação12 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Por que Freud e Jung romperam? Das cartas e divergências sobre libido ao fim da parceria em 1913

A ruptura entre Freud e Jung não nasceu de um único episódio: cartas, disputas sobre libido e diferenças sobre o alcance da psicanálise mostram um afastamento progressivo até 1913.

Ilustração editorial em tons sépia de Freud e Jung sentados de costas um para o outro, separados por um rasgo central, com cartas e livros sobre a mesa.

Freud e Jung romperam porque uma divergência teórica que parecia administrável se transformou, entre 1911 e 1913, numa incompatibilidade sobre o que ainda podia ser chamado de psicanálise. A libido foi o ponto mais visível: Freud defendia a centralidade da sexualidade e de seus destinos na explicação das neuroses, enquanto Jung passou a ampliar libido para uma energia psíquica mais geral. Ao redor dessa diferença cresceram desacordos sobre incesto, simbolismo, mito, religião, repressão e o modo de interpretar o inconsciente. As cartas mostram que a discussão científica também se tornou uma crise de confiança e autoridade. A relação pessoal foi praticamente rompida em janeiro de 1913; a separação editorial avançou no fim daquele ano e a saída institucional de Jung da Associação Psicanalítica Internacional só se completou em 1914.

Antes da ruptura, havia uma aliança muito forte

A história costuma ser resumida como um duelo entre dois sistemas rivais, mas esse enquadramento esconde quanto Freud e Jung trabalharam juntos antes de se tornarem adversários. Eles começaram a trocar publicações e correspondência em 1906. Em 3 de março de 1907, encontraram-se pessoalmente em Viena. O primeiro encontro ficou famoso pela longa conversa, de cerca de treze horas, no gabinete de Freud.

Jung não era apenas mais um leitor entusiasmado. Trabalhava no Burghölzli, o importante hospital psiquiátrico de Zurique dirigido por Eugen Bleuler, e vinha aplicando métodos de associação e interpretação a pacientes com dementia praecox, diagnóstico que em breve seria reformulado no campo da esquizofrenia. Para Freud, a aproximação com o grupo suíço significava uma oportunidade de levar a psicanálise para além do pequeno círculo vienense e aproximá-la da psiquiatria universitária.

Freud reconheceu publicamente esse papel. Em seu relato de 1914 sobre a história do movimento psicanalítico, escrito já depois da ruptura, ele lembrou que a cooperação entre

Viena e Zurique se expressou no Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, periódico lançado em 1909 e editado por Jung. Mesmo num texto fortemente polêmico contra o antigo colaborador, Freud ainda admitia a importância de Jung e de Bleuler para a expansão inicial da psicanálise.

A parceria também ganhou uma vitrine internacional em 1909, quando Freud e Jung viajaram aos Estados Unidos para as comemorações da Clark University, em Worcester, acompanhados por Sándor Ferenczi. A viagem consolidou a imagem de um movimento em expansão e de Jung como um de seus nomes centrais.

1910 elevou Jung de colaborador a herdeiro institucional

A fundação oficial da International Psychoanalytical Association, a IPA, em Nuremberg, em 1910, aumentou o peso da relação. Jung foi eleito o primeiro presidente da nova associação. A escolha tinha valor científico, político e simbólico: ele representava uma vertente suíça com inserção psiquiátrica e ajudava a projetar o movimento para além de Viena.

Esse lugar de liderança também tornou mais difícil tratar divergências futuras como simples discordâncias entre colegas. Quando o primeiro presidente da organização internacional começou a reformular conceitos que Freud considerava fundamentais, a discussão passou a envolver a própria identidade da psicanálise.

Por isso, a pergunta "por que Freud e Jung romperam?" não se resolve apenas olhando para temperamentos. O conflito teórico teve consequências institucionais porque Jung não era um discípulo periférico. Ele ocupava um cargo central, editava uma das principais publicações do movimento e era visto como alguém capaz de conduzir a psicanálise a uma geração seguinte.

A divergência decisiva: o que a palavra libido deveria significar

Para Freud, sexualidade não era um detalhe substituível

Na teoria freudiana daquele período, libido estava ligada à energia das pulsões sexuais e aos caminhos que essa energia percorria, encontrando satisfação, repressão, fixação, deslocamento ou sublimação. Freud podia rever aspectos de sua própria teoria, e de fato o fez muitas vezes, mas não tratava a sexualidade infantil e a libido sexual como peças opcionais que pudessem ser retiradas sem alterar o edifício inteiro.

Seu texto de 1914 deixa isso muito claro. Ao explicar por que já não reconhecia a escola de Zurique como continuidade legítima da psicanálise, Freud acusou Jung de substituir a libido sexual por uma noção abstrata. Também relacionou a divergência a temas como repressão, interpretação dos sonhos, complexos familiares e o modo de compreender o inconsciente. É importante ler esse documento como a posição de Freud depois do rompimento, não como uma descrição neutra compartilhada pelos dois lados. Ainda assim, ele mostra com precisão o que Freud julgava estar em jogo.

Para Jung, libido precisava ser mais ampla

Jung caminhava em outra direção. Em Transformações e símbolos da libido, publicado em partes em 1911 e 1912 e mais tarde profundamente revisto, ele ampliou o alcance da libido para além da energia sexual. A formulação passava a se aproximar de uma energia psíquica geral, capaz de aparecer em diferentes interesses, imagens, símbolos e formas de adaptação.

Essa mudança não era uma simples troca de vocabulário. Se a energia psíquica pudesse assumir desde a origem um significado mais amplo, o papel explicativo da sexualidade seria rebaixado. Freud via nisso uma renúncia a um dos achados que distinguiam a psicanálise de outras psicologias. Jung via a ampliação como necessária para explicar fenômenos que, em sua avaliação, não cabiam adequadamente numa leitura centrada no sexual.

As cartas mostram que os dois sabiam que o assunto era explosivo. Em junho de 1912, Freud escreveu a Jung especificamente sobre a "questão da libido", sinalizando que a natureza da mudança ainda precisava ser esclarecida. Em agosto, Jung registrou por carta que não concordava com a posição teórica relacionada ao problema do incesto e voltou à ideia de regressão da libido. A divergência já não estava escondida em notas laterais: era um tema explícito da correspondência.

Incesto, mito e religião ampliaram a distância

O conflito sobre libido se conectava a outra diferença: como interpretar imagens e narrativas que parecem sexuais, familiares ou incestuosas. Freud insistia que complexos sexuais e familiares tinham realidade psíquica e função causal no conflito neurótico, ainda quando aparecessem transformados por símbolos. Jung passou a explorar com mais autonomia a dimensão mitológica e simbólica dessas imagens.

Em Transformações e símbolos da libido, mitos, figuras heroicas, imagens religiosas e materiais culturais não aparecem apenas como ornamentos. Eles participam de uma tentativa de compreender padrões mais amplos de transformação da vida psíquica. A Library of Congress resume uma das intenções do livro como o esforço de ampliar libido para expressões de energia psíquica que não se limitassem à pulsão sexual.

Freud interpretou essa expansão de forma crítica. Em 1914, argumentou que a escola de Jung afastava o conteúdo sexual dos complexos familiares para torná-lo compatível com interesses éticos e religiosos. A formulação é claramente combativa e deve ser atribuída a Freud, mas ajuda a entender por que ele considerava a mudança mais grave do que uma disputa terminológica.

Reduzir a ruptura à frase "Freud pensava em sexo e Jung em espiritualidade", porém, empobrece o debate. A diferença real era metodológica e teórica: que peso dar à sexualidade, como explicar a energia psíquica, como relacionar presente e infância, e que estatuto conceder a símbolos e mitos na interpretação do inconsciente.

As cartas mostram quando o conflito deixou de ser apenas teórico

Dezembro de 1912: a confiança já estava quebrada

Em 18 de dezembro de 1912, Jung escreveu uma carta dura a Freud. O documento, preservado e exibido pela Library of Congress, é tratado pela instituição como evidência de que a relação havia chegado a um ponto em que a separação era iminente. Jung criticava o modo como Freud lidava com pacientes e discípulos, e a discussão deixava de ser apenas sobre conceitos.

Esse momento é importante porque impede duas simplificações opostas. A primeira seria dizer que tudo terminou por causa de uma teoria abstrata da libido. A segunda seria explicar o rompimento apenas por ressentimentos pessoais. As cartas mostram as duas camadas interagindo: desacordo doutrinário, autoridade intelectual e deterioração da confiança.

Janeiro de 1913: Freud encerra a relação pessoal

A virada mais nítida veio em janeiro. Uma carta de Freud datada de 3 de janeiro de 1913 efetivamente rompeu a amizade. Em 6 de janeiro, Jung respondeu aceitando o desejo de abandonar as relações pessoais. A partir daí, ainda existiam questões editoriais e institucionais a resolver, mas o vínculo de amizade e colaboração íntima estava quebrado.

É por isso que 1913 é a data mais adequada para marcar o fim da parceria intelectual. Não porque todos os cargos tenham sido abandonados naquele instante, e sim porque a correspondência deixou claro que a confiança pessoal que sustentava a colaboração já não existia.

Outubro de 1913: o rompimento chega ao Jahrbuch

A separação continuou a produzir efeitos ao longo do ano. Em setembro de 1913, Jung ainda presidiu o congresso internacional de Munique e foi reeleito presidente da IPA. A aparência institucional de continuidade, no entanto, escondia um movimento profundamente dividido.

Em 27 de outubro, Jung escreveu a Freud depois de saber que sua boa-fé estava sendo questionada e anunciou que deixaria a editoria do Jahrbuch. O gesto atingia justamente uma das estruturas que, desde 1909, tinham simbolizado a colaboração entre Viena e Zurique. A parceria editorial se encerrava depois da amizade.

1913 foi a ruptura; 1914 completou a separação institucional

Dizer que Freud e Jung "romperam em 1913" é correto se estivermos falando da relação pessoal e da parceria intelectual. Mas o desligamento institucional foi mais lento. Jung permaneceu por alguns meses na presidência da IPA, cargo para o qual havia sido reeleito no congresso de Munique.

Em abril de 1914, ele renunciou à presidência da associação. Em agosto, deixou também a condição de membro. Assim, a ruptura ocorreu em etapas: primeiro a confiança e a colaboração pessoal, depois o vínculo editorial e, por fim, a posição formal dentro da organização psicanalítica internacional.

Essa cronologia também explica por que fontes diferentes parecem dar datas diferentes para o "fim". Elas podem estar falando de eventos distintos. Janeiro de 1913 marca o corte pessoal; outubro de 1913, a quebra editorial; abril e agosto de 1914, o desligamento institucional.

O que realmente os separou

A libido deixou de ter o mesmo significado

Este é o eixo mais documentável. Freud considerava a sexualidade e a libido sexual fundamentais para explicar neuroses e conflitos inconscientes. Jung passou a trabalhar com uma concepção energética mais ampla. A disputa aparece nas obras e nas cartas de 1912.

A sexualidade infantil e os complexos familiares perderam o mesmo peso para Jung

Jung não simplesmente apagou sexualidade ou incesto de suas análises, mas recusou que eles funcionassem da mesma maneira e com a mesma centralidade teórica defendida por Freud. Para Freud, essa reformulação diminuía justamente o núcleo que tornava a psicanálise uma teoria específica.

Símbolos e mitos ganharam autonomia explicativa

Jung passou a tratar materiais mitológicos e religiosos como componentes importantes para compreender transformações da psique. Freud também trabalhava com mito, cultura e religião, mas continuava vinculando esses materiais ao seu modelo pulsional e aos complexos sexuais e familiares. A discordância, portanto, não era sobre usar ou não mitos, e sim sobre o papel que eles deveriam cumprir na teoria.

A autoridade para definir "psicanálise" virou parte do conflito

A disputa também era institucional. Freud havia criado o campo e entendia que algumas teses eram constitutivas da psicanálise. Jung, ao modificá-las, ainda pretendia dialogar com o movimento e ocupava cargos centrais. Freud acabou traçando uma fronteira: as reformulações de Jung podiam ser uma nova psicologia, mas não deveriam continuar sendo apresentadas como a mesma psicanálise.

Esse ponto ajuda a compreender por que o rompimento foi tão duro. Eles não estavam apenas discordando sobre uma hipótese. Estavam disputando a continuidade, o nome e a direção de um movimento científico em formação.

O que não deve ser projetado para trás

Hoje, Jung é lembrado por conceitos como arquétipos, inconsciente coletivo, individuação e tipos psicológicos. É tentador imaginar que Freud e Jung já discutiam em 1912 com todos esses sistemas maduros perfeitamente delineados. A cronologia não sustenta essa imagem.

A própria Library of Congress observa que Jung mais tarde relacionou Transformações e símbolos da libido à descoberta do inconsciente coletivo, mas que o termo veio depois. Isso significa que o rompimento abriu espaço para o desenvolvimento posterior da psicologia analítica; não significa que toda a teoria junguiana madura já estivesse pronta e tenha sido a causa direta da separação.

O mesmo cuidado vale para explicações biográficas que diagnosticam a relação à distância. A dupla foi descrita inúmeras vezes em termos de pai e filho, sucessor rebelde, complexo paterno, rivalidade ou transferência. Essas leituras podem ser úteis como interpretações, sobretudo num campo que levou a dinâmica relacional a sério. Mas não substituem os documentos. Quando a pergunta é por que eles romperam, cartas, livros, editorias e cargos oferecem uma base mais verificável do que transformar cada episódio pessoal numa prova psicológica definitiva.

O texto de Freud de 1914 é fonte e também parte da disputa

Pouco depois da separação institucional, Freud publicou A história do movimento psicanalítico. O ensaio é indispensável porque registra sua própria versão do crescimento da psicanálise e de suas rupturas com Alfred Adler e Carl Jung. Ao mesmo tempo, ele não é uma ata neutra: Freud o escreveu para demarcar fronteiras teóricas e defender o que considerava a identidade legítima da psicanálise.

Por isso, esse texto é mais valioso quando lido em conjunto com a correspondência e com as publicações de Jung. Freud mostra o que julgava inegociável; Jung mostra, em seus próprios textos, a direção que estava tomando; as cartas mostram quando a diferença teórica se converteu em ruptura pessoal.

Essa combinação evita um erro frequente: escolher a memória posterior de apenas um dos dois e transformá-la em explicação completa.

Depois de Freud, Jung não voltou simplesmente ao ponto anterior

A separação permitiu que Jung desenvolvesse uma escola própria, a psicologia analítica. Nos anos seguintes, ele aprofundaria conceitos que hoje são associados ao seu nome e se afastaria ainda mais do enquadramento freudiano. Freud, por sua vez, continuaria a revisar sua teoria da libido, do narcisismo, das pulsões e da estrutura psíquica sem abandonar a importância constitutiva da sexualidade e do conflito inconsciente.

Isso também corrige outra caricatura: a de que Freud ficou imóvel enquanto Jung inovava. Os dois continuaram mudando. O que se rompeu foi a possibilidade de realizar essas mudanças dentro de uma mesma linguagem teórica e de uma mesma estrutura institucional.

Então, por que Freud e Jung romperam?

A resposta mais sólida é que a ruptura resultou da convergência de três processos. Primeiro, Jung reformulou a libido de modo que Freud julgou incompatível com a centralidade da sexualidade na psicanálise. Segundo, essa mudança veio acompanhada de diferenças sobre incesto, repressão, simbolismo, mito, religião e a função dos complexos familiares. Terceiro, a discussão teórica se misturou a uma crise de confiança e autoridade, visível nas cartas de dezembro de 1912 e janeiro de 1913.

Não há necessidade de escolher entre "foi pessoal" e "foi teórico". A documentação mostra que foi ambos, em níveis diferentes. A teoria explica por que a discordância importava tanto; a relação pessoal explica por que ela deixou de ser negociável; os cargos e publicações

mostram como o conflito se transformou numa divisão institucional.

Em 1913, a parceria que ajudara a internacionalizar a psicanálise terminou. Em 1914, a separação administrativa se completou. Depois disso, Freud e Jung continuaram a influenciar a psicologia por caminhos distintos, e a própria ruptura passou a ser parte da história das duas tradições.

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