Vida e Ambiente15/08/2026Núcleo de Ciência no Cotidiano8 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Por que mosquitos picam mais algumas pessoas? O que cheiro, CO₂, calor, espécie e tipo sanguíneo realmente explicam

A atração por mosquitos depende de pistas combinadas. O odor da pele pesa muito, mas CO₂, calor, visão e a própria espécie mudam quem parece mais atraente.

Duas pessoas ao ar livre ao entardecer; muitos mosquitos se concentram ao redor de um homem, enquanto uma mulher ao lado atrai poucos, com efeitos visuais sugerindo calor, respiração e compostos da pele.

Duas pessoas podem passar a mesma noite no mesmo quintal e terminar com experiências muito diferentes: uma quase não percebe os insetos; a outra acumula picadas. A explicação não é uma característica única, como "sangue doce" ou apenas o tipo sanguíneo. Mosquitos procuram hospedeiros combinando sinais químicos e físicos, e a importância de cada pista muda conforme a espécie e o momento da aproximação.

A evidência mais consistente para explicar por que uma pessoa atrai mais mosquitos do que outra aponta para o odor corporal, especialmente a mistura de compostos voláteis liberados pela pele. CO₂, calor e pistas visuais ajudam o mosquito a entrar em modo de busca, localizar um possível hospedeiro e se aproximar. O tipo sanguíneo tem alguma evidência experimental, mas muito mais limitada e específica do que a fama de "tipo O atrai mosquito" sugere.

CO₂ ajuda a encontrar um hospedeiro, mas não conta a história inteira

Quando respiramos, liberamos dióxido de carbono. Para várias espécies de mosquito, encontrar uma pluma de CO₂ muda o comportamento: o inseto aumenta a atividade de busca e passa a responder com mais força a outras pistas associadas a um hospedeiro.

Experimentos com Aedes aegypti mostram bem essa integração. Em um estudo publicado na Nature Communications em 2022, a presença de CO₂ foi decisiva para ativar a atração a alvos visuais; sem esse sinal, os mosquitos praticamente não investigavam os objetos da mesma forma. Em trabalho publicado na Nature em 2024, Aedes aegypti também combinou CO₂ e odor humano com radiação infravermelha associada ao calor corporal durante a busca.

Isso coloca o CO₂ numa posição importante, mas diferente da ideia de que ele sozinho define quem será mais picado. O gás indica que há um animal respirando nas proximidades e ajuda a organizar a procura. Para distinguir entre duas pessoas próximas, porém, a assinatura química da pele pode oferecer informação muito mais específica.

O cheiro da pele é uma das pistas mais fortes para explicar diferenças entre pessoas

"Cheiro" aqui não significa apenas o que o nariz humano percebe como suor ou perfume. A pele libera uma mistura complexa de moléculas voláteis, em proporções que variam de pessoa para pessoa. Mosquitos possuem sistemas olfativos capazes de detectar parte dessa mistura.

Um estudo publicado na Cell em 2022 acompanhou voluntários com diferenças persistentes de atração para Aedes aegypti. Os participantes mais atraentes apresentavam maiores níveis de determinados ácidos carboxílicos nas emanações da pele. A associação foi estável ao longo do tempo, embora o próprio estudo não tenha demonstrado que uma única molécula, sozinha, explique a preferência.

Esse detalhe é importante. A ideia de um "composto mágico" que transforma alguém em ímã de mosquito é tentadora, mas os dados apontam para combinações. Outro estudo de 2026, publicado na iScience, analisou odor corporal de 42 mulheres e identificou 27 compostos orgânicos voláteis potencialmente relacionados à atratividade. Nos testes comportamentais, tanto a presença de 1-octen-3-ol em determinados perfis quanto a proporção entre compostos da mistura alteraram a preferência dos mosquitos.

Em outras palavras, o mosquito não parece ler uma etiqueta química simples. Ele responde a um perfil.

O microbioma da pele participa porque também muda o odor

Parte do que chamamos de odor corporal surge da interação entre secreções da pele e microrganismos que vivem nela. Por isso, duas pessoas podem ter perfis químicos diferentes mesmo estando no mesmo ambiente e sem usar perfumes.

Em 2011, um estudo com Anopheles gambiae mostrou que a composição da microbiota da pele se relacionava à atratividade dos voluntários para essa espécie. Pessoas classificadas como altamente atraentes apresentavam, naquele experimento, maior abundância e menor diversidade de bactérias em comparação com participantes pouco atraentes.

A conclusão não deve ser transformada em uma regra do tipo "mais bactérias = mais picadas". O resultado foi obtido com uma espécie e dentro de um desenho experimental específico. O que permanece relevante é o mecanismo geral: o microbioma ajuda a formar a nuvem de odor da pele, e essa nuvem pode alterar a resposta do mosquito.

A pesquisa mais recente reforça justamente a necessidade de pensar em combinações específicas. Em 2026, pesquisadores mediram a atração de 119 participantes para Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus. As três espécies, em geral, não preferiram as mesmas pessoas, e os padrões de atração se associaram a assinaturas diferentes de odores e bactérias da pele.

A espécie do mosquito muda quem parece mais atraente

Esse é um dos pontos que mais desmontam a noção de "pessoa que sempre atrai mosquito". No estudo de 2026 com 119 participantes, a mesma pessoa podia ser relativamente atraente para uma espécie e pouco atraente para outra.

Os pesquisadores encontraram relações diferentes entre compostos do odor e atração. Aedes aegypti e Culex quinquefasciatus se associaram, por exemplo, à ausência de certos odores

potencialmente repelentes, enquanto Aedes albopictus mostrou associação com a presença de outros compostos, como cetonas. As assinaturas bacterianas também variaram entre as espécies.

Isso significa que a pergunta "por que os mosquitos me escolhem?" precisa de uma correção: quais mosquitos? Aedes aegypti, Aedes albopictus, Culex e Anopheles não são cópias sensoriais uns dos outros. Compartilham pistas importantes, mas podem dar pesos diferentes a elas.

A consequência prática é que não existe, com base nas evidências atuais, um perfil humano universalmente irresistível a todos os mosquitos.

Calor e infravermelho ajudam na aproximação

Mosquitos também exploram informação térmica. O corpo humano cria gradientes de calor e emite radiação infravermelha. Em 2024, pesquisadores mostraram que Aedes aegypti usa infravermelho térmico como uma pista direcional quando esse sinal aparece junto de CO₂ e odor humano.

O ponto não é que o inseto "enxerga calor" como uma câmera térmica. O estudo propõe um mecanismo sensorial no qual a radiação aquece estruturas na extremidade da antena e ativa receptores ligados à temperatura. Isso ajuda a explicar como o mosquito melhora a navegação quando já está procurando um hospedeiro.

Por isso, calor faz mais sentido como parte de um sistema de aproximação do que como explicação isolada para diferenças entre pessoas. Uma pessoa mais quente em determinado momento pode oferecer uma pista física mais forte, mas o mosquito continua integrando essa informação a odor, CO₂ e outros sinais.

A visão também entra na conta, mas depende do contexto

A imagem clássica de que "mosquito gosta de roupa escura" contém uma parte da história, mas é simplificada. Mosquitos usam visão para localizar objetos e contrastes, e a resposta visual pode ser ativada ou modulada por cheiro.

No estudo de 2022 com Aedes aegypti, o CO₂ aumentou fortemente a atração a certos comprimentos de onda, incluindo faixas que correspondem ao laranja e ao vermelho presentes no espectro refletido pela pele humana. Os pesquisadores também observaram que preferências visuais podem variar entre espécies.

Isso não significa que vestir uma cor específica determine quem será picado entre duas pessoas. A pista visual ajuda o inseto a localizar um alvo em um cenário real; a escolha final depende do conjunto de sinais.

E o tipo sanguíneo O?

A relação entre mosquitos e sistema ABO existe na literatura, mas é bem menos sólida do que costuma aparecer em listas de curiosidades.

Um estudo de 2004 avaliou 64 voluntários e contou pousos de Aedes albopictus nos antebraços. Pessoas do tipo O receberam mais pousos, em média, do que participantes dos outros grupos, mas a diferença estatisticamente significativa ocorreu apenas na comparação entre O e A. O próprio trabalho não conseguiu explicar a preferência apenas pelos antígenos ABO testados.

Há dois problemas em transformar esse resultado em uma regra. Primeiro, o experimento estudou uma espécie específica. Segundo, pouso e atração são comportamentos influenciados por

muitas outras pistas presentes na pele do voluntário. O sistema ABO pode contribuir em determinadas condições, mas não ocupa o mesmo nível de evidência que odor corporal e integração sensorial.

Por isso, "mosquitos preferem sangue tipo O" é uma frase forte demais. O mais defensável é dizer que existe evidência limitada de associação entre tipo sanguíneo e atração em alguns experimentos, sem demonstração de que o tipo O torne alguém um alvo universal.

Por que duas pessoas lado a lado podem ter resultados tão diferentes

Imagine duas pessoas no mesmo ambiente. Ambas respiram e fornecem CO₂, ambas emitem calor e ambas são visualmente detectáveis. O que começa a separá-las é a combinação fina de sinais: quais compostos saem da pele, em que proporção, quais microrganismos participam dessa química e como a espécie presente interpreta esse conjunto.

A diferença observada depois ainda pode ser ampliada por fatores de exposição: área de pele descoberta, movimento, posição em relação ao vento, horário de atividade da espécie e presença de barreiras ou repelentes. Por isso, contar picadas no fim da noite não é um teste puro de "atratividade biológica".

Os estudos de laboratório tentam separar algumas dessas variáveis usando olfatômetros, mangas de nylon com odor, túneis de vento e arenas controladas. Mesmo assim, medir atração não é exatamente a mesma coisa que medir picadas reais. O estudo de 2026 com 119 pessoas, por exemplo, comparou respostas de atração a odores humanos; ele não demonstrou que cada participante receberia a mesma ordem de picadas numa situação cotidiana.

O que a hierarquia da evidência permite afirmar

Se a dúvida é qual fator merece mais peso, o odor da pele e sua composição química estão entre as explicações mais fortes para diferenças persistentes entre pessoas. O microbioma importa porque participa da produção dessa assinatura. A espécie do mosquito é decisiva porque espécies diferentes podem classificar a mesma pessoa de formas diferentes.

CO₂ é uma pista central para iniciar e orientar a busca, enquanto calor, infravermelho e visão refinam a aproximação e a localização do alvo. Todos funcionam melhor como partes de um sistema integrado do que como causas independentes.

O tipo sanguíneo fica mais abaixo nessa hierarquia. Ele pode ter efeito em determinadas espécies e condições, mas não explica de forma robusta por que uma pessoa sempre parece "mais doce" para mosquitos.

A resposta mais fiel à evidência, portanto, é menos intuitiva e mais interessante: algumas pessoas realmente são mais atraentes para certos mosquitos, mas essa preferência nasce de uma combinação de cheiro, microbioma e pistas físicas interpretada por uma espécie específica. Não existe um único fator que transforme alguém em ímã universal.

Tópicos deste artigoAedes aegyptiCO₂microbioma da pelemosquitosodor corporalpicadaspor que mosquitos picam mais algumas pessoasatração de mosquitoscheiro corporal e mosquitosCO₂ e mosquitostipo sanguíneo e mosquitos