Adaptações e Referências31/08/2026Curadoria de Cinema e Séries6 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Guerreiras do K-Pop: por que Derpy é um tigre e Sussie uma pega? O jakhodo por trás dos personagens

Derpy e Sussie não formam uma dupla aleatória: tigre e pega vêm do jakhodo, um motivo da pintura popular coreana minhwa que o filme transforma em mensageiros sobrenaturais.

Tigre laranja estilizado observa uma pega preta, branca e azul pousada em pinheiro, diante de montanhas coreanas em textura de papel com discretas luzes neon.

Derpy ser um tigre e Sussie ser uma pega não é uma combinação criada ao acaso para Guerreiras do K-Pop. A dupla vem de um motivo tradicional da pintura popular coreana: o jakhodo, também associado às imagens de kkachi horangi, em que um tigre aparece junto de uma pega, muitas vezes sob ou perto de um pinheiro. A própria Korea Tourism Organization explica que os dois mensageiros do filme foram diretamente inspirados nesse gênero de pintura, enquanto a Netflix identifica Derpy como uma releitura do babo horangi, o “tigre tolo” ou cômico recorrente na minhwa.

A chave para entender os personagens, portanto, é separar duas coisas: o que pertence à tradição visual coreana e o que o filme inventa para sua história. O tigre protetor, a pega ligada a boas notícias e o humor da dupla têm raízes reconhecíveis na cultura coreana. Já a função de entregar mensagens entre Rumi e Jinu, a aparência sobrenatural e detalhes como os olhos extras de Sussie são escolhas da adaptação.

O que é jakhodo — e onde entra a minhwa

Minhwa é um termo usado para a pintura popular coreana, associada especialmente ao período Joseon e a imagens que circulavam no cotidiano com funções decorativas, auspiciosas e simbólicas. Entre seus motivos mais reconhecíveis está a combinação de tigre e pega.

Em material do Centro Cultural Coreano, o nome jakhodo é apresentado literalmente como “pintura da pega e do tigre”. A mesma fonte descreve a pega como símbolo de boas notícias e de visitantes bem-vindos e o tigre como uma figura guardiã capaz de afastar espíritos malignos. A VisitKorea usa essa mesma tradição para explicar Derpy e Sussie.

Há variações de nomenclatura em textos sobre o tema — inclusive hojakdo e kkachi horangi —, mas o ponto visual é estável: a dupla tigre + pega é um motivo reconhecível da arte popular coreana. Não é necessário tratar todos esses nomes como categorias absolutamente idênticas em qualquer contexto histórico; para o leitor do filme, o essencial é reconhecer a tradição compartilhada que coloca os dois animais em diálogo.

Por que o tigre é forte e, ao mesmo tempo, engraçado

O tigre tem uma posição muito maior na cultura coreana do que a de simples predador. Ele aparece em narrativas, imagens religiosas e pinturas populares como símbolo de força e, em vários contextos, como protetor contra o mal. A Korea.net registra que pinturas de tigres eram usadas para afastar influências negativas e que imagens de tigre e pega também eram penduradas no início do ano lunar.

O detalhe decisivo para Derpy é que o tigre da minhwa frequentemente não parece majestoso no sentido convencional. Ele pode ter olhos desalinhados, expressão curiosa, corpo desajeitado e um ar quase doméstico. A Netflix chama Derpy de uma versão do babo horangi, figura recorrente dessas pinturas. Em entrevista sobre o processo de criação, a diretora Maggie Kang explicou que justamente o aspecto “goofy” desses tigres ajudou a determinar a personalidade visual do personagem.

Isso ajuda a responder por que Derpy funciona tão bem como um tigre enorme e, ao mesmo tempo, trapalhão. O contraste não quebra a referência: ele faz parte dela. O filme leva para a animação uma tradição em que a fera pode continuar poderosa sem ser desenhada como um animal ameaçador o tempo inteiro.

E por que Sussie é uma pega

Na iconografia ligada ao jakhodo, a pega costuma ocupar uma posição elevada, muitas vezes pousada em um galho, enquanto o tigre está abaixo. Culturalmente, ela é associada a boas notícias, visitantes desejados e sinais auspiciosos. Por isso, sua presença ao lado do tigre não é um acessório aleatório: ela completa o significado da composição.

Essa associação encontra uma adaptação bastante direta no filme. Derpy e Sussie tornam-se mensageiros entre Jinu e Rumi. A tradição não diz que uma pega deve literalmente carregar bilhetes entre duas pessoas; essa é a solução narrativa da obra. Mas transformar a ave ligada a boas notícias em parte de um sistema de comunicação é uma releitura coerente do símbolo original.

O lado satírico do tigre e da pega

Existe ainda uma leitura histórica bastante difundida segundo a qual algumas pinturas de tigre e pega funcionam como sátira social. Nessa interpretação, o tigre desajeitado representa figuras de autoridade ou a elite yangban, enquanto a pequena pega, segura de si e colocada acima dele, representa a voz do povo. A graça está em inverter visualmente a hierarquia: o animal grande e poderoso vira alvo de humor, e o pássaro pequeno parece ter a vantagem na conversa.

A imprensa cultural coreana também destaca essa camada, mas é melhor não reduzi-la a uma tradução única e obrigatória para toda obra do gênero. Jakhodo pode combinar proteção, sorte, humor e comentário social. Essa multiplicidade é justamente parte do que torna a referência mais rica do que um simples “tigre significa X, pega significa Y”.

O que o filme preserva e o que ele inventa

Elemento Na tradição jakhodo/minhwa Em Guerreiras do K-Pop
Tigre Força, proteção e, em muitas imagens, aparência deliberadamente cômica Derpy mantém a figura grande e desajeitada, mas ganha personalidade e papel próprios
Pega Boas notícias, visitante bem-vindo, presságio favorável; pode contracenar com o tigre de modo satírico Sussie acompanha Derpy e participa da comunicação entre Jinu e Rumi
Dupla tigre + pega Motivo tradicional recorrente da pintura popular coreana Vira uma dupla de personagens sobrenaturais inserida na trama
Aparência sobrenatural Não é uma exigência histórica do motivo Cor, olhos extras e outros detalhes reforçam que não são animais comuns
Entrega de mensagens Não é uma função literal prescrita pela tradição É uma invenção narrativa que conversa com a ideia da pega como portadora de boas notícias

A entrevista de criação publicada pela Salon torna essa separação especialmente clara. Kang conta que o design do tigre partiu da minhwa e de sua associação visual com a pega. O artista Radford Sechrist descreveu o resultado como fortemente baseado na arte tradicional, mas também influenciado por um gato doméstico da equipe. Quando a história precisou de uma forma de Jinu se comunicar com Rumi, o tigre foi incorporado como entregador de mensagens e a pega “veio junto”.

Ou seja: o filme não adapta uma lenda em que Derpy e Sussie já existiam como personagens. Ele pega uma dupla visual antiga e cria personagens novos a partir dela.

Então qual é a referência cultural por trás de Derpy e Sussie?

A resposta curta é: jakhodo/minhwa. Derpy herda o tigre coreano que pode ser guardião, poderoso e propositalmente engraçado. Sussie herda a pega ligada a boas notícias e à interação tradicional com o tigre. Juntos, eles reproduzem uma combinação que espectadores coreanos podem reconhecer de imediato, mas o filme a transforma em algo funcional para sua própria narrativa.

É justamente por isso que “por que um tigre e uma pega?” tem uma resposta mais interessante do que “porque combinam visualmente”. O design funciona em duas camadas ao mesmo tempo: como dupla cômica e sobrenatural dentro de Guerreiras do K-Pop e como uma porta de entrada para uma tradição visual coreana de séculos.

Fontes para aprofundar

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