Monster: The Lizzie Borden Story estreia na Netflix em 17 de setembro de 2026 com uma escolha narrativa que já aparece no material oficial: a plataforma descreve Lizzie Borden como a autora dos assassinatos de Andrew e Abby Borden. Historicamente, porém, esse ponto nunca foi estabelecido por uma condenação. Lizzie foi julgada em 1893 e absolvida. Por isso, a forma mais segura de acompanhar a série é separar três camadas: o que está documentado nos autos e depoimentos, o que permanece controverso e o que a adaptação assume ou inventa para construir uma história.
O que o registro histórico confirma
Em 4 de agosto de 1892, Andrew J. Borden e sua esposa, Abby Durfee Borden, foram mortos dentro da casa da família na Second Street, em Fall River, Massachusetts. Os registros do processo situam Abby morta no quarto de hóspedes e Andrew no sofá da sala. O médico legista William Dolan declarou no julgamento que Abby morreu antes de Andrew e que os ferimentos eram compatíveis com um instrumento cortante como uma machadinha.
Lizzie, filha de Andrew e enteada de Abby, estava na casa durante parte da manhã. A empregada doméstica Bridget Sullivan também estava na residência e prestou um dos depoimentos mais importantes do caso. Sullivan contou que Lizzie e a irmã Emma a chamavam de “Maggie”, embora seu nome fosse Bridget, e descreveu a rotina daquela manhã, incluindo a lavagem das janelas, o retorno de Andrew para casa e o momento em que Lizzie a chamou dizendo que o pai estava morto.
A investigação passou a concentrar suspeitas em Lizzie. Ela foi interrogada no inquérito, presa em agosto de 1892 e levada a julgamento no ano seguinte. O julgamento começou em 5 de junho de 1893 e terminou em 20 de junho com o veredicto de não culpada. Esse resultado é um fato jurídico central: o júri não considerou que a acusação tivesse provado a culpa além de dúvida razoável.
O que as provas não conseguiram fechar
O caso ficou famoso justamente porque havia circunstâncias suspeitas, mas faltava uma ligação física conclusiva entre Lizzie e os homicídios. A acusação trabalhou com oportunidade, tensões familiares, declarações de Lizzie e episódios como a queima de um vestido alguns dias depois dos crimes. A defesa respondeu que essas peças não formavam uma prova direta de autoria.
O problema da arma é um bom exemplo. Dolan disse que uma machadinha seria compatível com os ferimentos. Já o químico Edward Wood examinou machadinhas e machados recolhidos na casa e relatou resultados negativos para sangue nas peças testadas. Em outras palavras, o tipo de instrumento podia ser inferido pelos ferimentos, mas o processo não estabeleceu de forma conclusiva qual objeto específico foi usado nem o conectou fisicamente a Lizzie.
Também houve controvérsia em torno de relatos sobre uma tentativa de compra de ácido prússico e sobre conflitos dentro da família. Esses elementos entraram na narrativa da acusação, mas não resolveram a questão principal. Mais de um século depois, historiadores e autores continuam discutindo hipóteses diferentes porque o conjunto documental permite interpretações, não uma reconstrução indiscutível de cada passo dos crimes.
Onde a série já deixa de ser apenas reconstituição
O material oficial da Netflix é explícito ao tratar a nova temporada como dramatização. A própria descrição da série afirma que Lizzie mata os pais, enquanto o registro judicial termina em absolvição. Isso não torna a série “errada” como obra de ficção histórica, mas significa que o espectador não deve confundir a premissa dramática com uma conclusão produzida pelo tribunal.
Outro exemplo aparece na relação entre Lizzie e a empregada. A Netflix apresenta Vicky Krieps como Bridget “Maggie” Sullivan e descreve uma relação amorosa ilícita entre as duas, além de sugerir que Maggie influencia Lizzie em direção ao crime. O depoimento histórico de Sullivan confirma que ela trabalhava na casa e era chamada de Maggie por Lizzie e Emma. No mesmo depoimento, porém, Sullivan disse que não tivera problemas com a família e que não presenciara brigas. O romance e o papel de instigadora pertencem, portanto, à construção ficcional anunciada pela série, não a um fato estabelecido pelos registros judiciais citados.
A atriz Ella Beatty também descreveu publicamente seu trabalho como a criação de uma versão “muito ficcionalizada” da mulher real. Isso é uma pista útil de leitura: figurinos, locais, personagens e episódios podem nascer de documentação histórica, mas diálogos privados, relações íntimas, motivações psicológicas e a autoria do crime são áreas em que a série pode escolher uma interpretação.
Documentado, controverso ou criação da série?
| Ponto | Status | Como ler |
|---|---|---|
| Andrew e Abby Borden foram mortos em Fall River em 4 de agosto de 1892 | Documentado | É a base factual do caso e aparece nos registros do processo. |
| Abby morreu antes de Andrew | Documentado no testemunho médico | O legista William Dolan declarou essa conclusão com base no estado dos corpos e outros elementos examinados. |
| Bridget Sullivan era a empregada e era chamada de “Maggie” por Lizzie e Emma | Documentado | A própria Sullivan afirmou isso sob juramento no julgamento. |
| Lizzie matou Andrew e Abby | Controverso historicamente; assumido pela série | Lizzie foi acusada, julgada e absolvida. A Netflix escolhe uma resposta narrativa que o julgamento não estabeleceu. |
| Lizzie e Maggie mantinham um romance | Criação/dramatização anunciada | A relação aparece na premissa promocional da série, não como fato demonstrado pelo depoimento de Sullivan citado no processo. |
| Maggie incentivou Lizzie a cometer os crimes | Criação/dramatização anunciada | É um mecanismo dramático mostrado no material promocional da Netflix. |
| Uma machadinha específica encontrada na casa foi a arma do crime | Não demonstrado de forma conclusiva | Os ferimentos eram compatíveis com machadinha, mas os objetos examinados não forneceram a ligação física decisiva. |
| Tensões familiares explicam o motivo dos assassinatos | Controverso | Conflitos e questões patrimoniais foram discutidos, mas transformar isso em motivo comprovado vai além do que o veredicto estabeleceu. |
Por que a absolvição não encerra o debate histórico
É importante evitar dois atalhos opostos. O primeiro é dizer que a absolvição “provou” que Lizzie era inocente; um veredicto de não culpada significa que a acusação não atingiu o padrão necessário para condenar. O segundo é tratar a fama posterior do caso como se ela substituísse a decisão judicial e tornasse a culpa um fato. Historicamente, a autoria continua disputada.
O material preservado ajuda a entender por que. Há depoimentos detalhados sobre quem estava na casa, portas e horários; há evidência médica sobre a ordem provável das mortes; há discussões sobre um vestido queimado, uma suposta mensagem que teria chamado Abby para fora e a possível compra de veneno. Ao mesmo tempo, não houve testemunha ocular do ataque, não se estabeleceu uma arma do crime ligada de maneira conclusiva a Lizzie e o júri a absolveu.
Como assistir à série sem transformar ficção em evidência
- Trate cenas privadas como reconstrução dramática. Conversas sem testemunhas, pensamentos, relações íntimas e motivações geralmente exigem criação do roteiro.
- Separe “aconteceu no caso” de “a série mostra que aconteceu”. Uma adaptação pode escolher uma hipótese para dar fechamento narrativo.
- Use o veredicto como marco jurídico. Lizzie Borden foi absolvida em 20 de junho de 1893.
- Desconfie de detalhes famosos que vieram da cultura popular. A cantiga sobre “40 golpes” e “41 golpes”, por exemplo, não corresponde literalmente ao registro médico do caso.
- Compare personagens com os depoimentos. Bridget Sullivan existiu e foi chamada de Maggie, mas isso não transforma automaticamente as relações e ações atribuídas a ela pela série em fatos históricos.
O que já está confirmado sobre Monster: The Lizzie Borden Story
Até 2 de setembro de 2026, a Netflix confirma estreia em 17 de setembro de 2026. Ella Beatty interpreta Lizzie Borden; Vicky Krieps interpreta Bridget “Maggie” Sullivan; Charlie Hunnam e Rebecca Hall interpretam Andrew e Abby Borden. A página oficial classifica a produção como drama de época e crime, e o trailer já sinaliza uma leitura deliberadamente ficcionalizada dos acontecimentos.
Como a temporada ainda não estreou nesta data, qualquer comparação cena a cena deve esperar os episódios. A atualização mais útil depois da estreia será verificar quais passagens reproduzem depoimentos ou documentos conhecidos, quais combinam fatos separados e quais criam diálogos, relações ou causas sem apoio direto no registro. Isso permite discutir a adaptação sem usar spoilers gratuitos como substituto de análise.
Fontes para conferir o caso e a adaptação
- Netflix Tudum: data, elenco e apresentação oficial da temporada
- Netflix Tudum: trailer e declarações sobre a versão ficcionalizada
- Netflix: página oficial de Monster: The Lizzie Borden Story
- Famous Trials/UMKC: relato do processo de Lizzie Borden
- Famous Trials: depoimento de Bridget Sullivan
- Famous Trials: depoimento do médico William Dolan
- Famous Trials: depoimento do químico Edward Wood





