Resposta curta: The Scandal não apenas troca a França aristocrática de Ligações Perigosas pela Coreia da era Joseon. A adaptação preserva o motor central da obra de Pierre Choderlos de Laclos — sedução usada como estratégia, reputação em risco e um jogo entre pessoas que tratam sentimentos como peças —, mas reorganiza esse conflito dentro das regras sociais da elite de Joseon. A Netflix confirmou estreia global em 18 de setembro de 2026, com Son Ye-jin como Lady Cho, Ji Chang-wook como Cho Won e NANA como Hui-yeon.
O ponto mais útil para quem quer assistir sem spoilers pesados é este: Lady Cho, Cho Won e Hui-yeon ocupam funções narrativas reconhecíveis para quem conhece a Marquesa de Merteuil, o Visconde de Valmont e Madame de Tourvel, mas a série não foi apresentada como uma transposição cena a cena. A divulgação oficial fala em uma “reimaginação” do romance de 1782, com sensibilidade moderna e ambientação coreana própria.
O que The Scandal adapta de Ligações Perigosas
Publicado em 1782, Les Liaisons dangereuses é um romance epistolar: a história avança por cartas trocadas entre personagens da aristocracia francesa. No centro estão Merteuil e Valmont, dois manipuladores que usam sedução, informação e reputação para controlar outras pessoas. Entre os alvos mais importantes estão Madame de Tourvel e Cécile de Volanges.
A Netflix mantém esse princípio de um “jogo perigoso”, mas desloca a ação para Joseon e para Bukchon, área associada à elite. Nos materiais de divulgação, Lady Cho propõe uma aposta a Cho Won; ele, conhecido como o maior sedutor de Joseon, entra no jogo, e Hui-yeon, uma jovem viúva descrita como virtuosa, torna-se o centro da disputa. O trailer principal ainda introduz So-ok, uma jovem destinada a se tornar concubina na casa de Lady Cho.
Obra-base x série: os paralelos mais seguros
| Eixo | Ligações Perigosas | The Scandal | O que muda na leitura |
|---|---|---|---|
| Dupla que conduz o jogo | Marquesa de Merteuil e Visconde de Valmont | Lady Cho e Cho Won | A dinâmica de manipulação e desafio permanece, mas passa a operar dentro das convenções sociais de Joseon. |
| Figura moral colocada à prova | Madame de Tourvel | Hui-yeon | Hui-yeon é apresentada como uma jovem viúva, o que muda o peso social e moral do escândalo em relação à personagem francesa. |
| Alvo jovem ligado ao plano inicial | Cécile de Volanges | So-ok | Há semelhança funcional no ponto de partida, mas a Netflix não confirmou uma equivalência individual completa entre So-ok e Cécile. |
| Ambiente de elite | Aristocracia francesa do século XVIII | Alta sociedade de Joseon, com Bukchon como cenário central | Reputação, casamento, gênero e posição familiar passam a ser filtrados por um código social coreano distinto. |
| Forma de contar | Romance construído por cartas | Série audiovisual | As cartas continuam como motivo dramático — o trailer principal começa com uma mensagem confidencial de Lady Cho —, mas não há confirmação de que a série reproduza a estrutura epistolar do livro. |
A maior mudança é o contexto social, não apenas o figurino
Transportar a trama para Joseon altera o significado de quase todas as ações. Em Ligações Perigosas, Merteuil e Valmont manipulam relações dentro de uma aristocracia francesa obcecada por aparência, casamento e reputação. Em The Scandal, a Netflix destaca desde a apresentação de Lady Cho que ela é uma mulher de inteligência e ambição grandes demais para os limites que sua posição lhe impõe.
Esse detalhe aproxima a série de um dos conflitos centrais do original — a tentativa de exercer poder num sistema social desigual —, mas não o replica do mesmo modo. A própria organização doméstica e os papéis de gênero de Joseon eram profundamente marcados por normas neoconfucianas. Fontes culturais coreanas descrevem a separação entre espaços masculinos e femininos em residências tradicionais e o peso crescente de regras patriarcais sobre casamento e vida familiar. Por isso, a adaptação tem condições de transformar o jogo de sedução em disputa também sobre mobilidade, dever familiar e visibilidade pública.
Há um cuidado importante aqui: os materiais divulgados até agora confirmam o cenário e a caracterização geral, mas não explicam até onde a série seguirá a crítica social do romance nem como resolverá os conflitos. Essa parte só pode ser avaliada depois da estreia.
Lady Cho, Cho Won e Hui-yeon: quem corresponde a quem
Lady Cho e a função de Merteuil
Lady Cho é o paralelo mais claro da Marquesa de Merteuil. A Netflix a apresenta como a mente que propõe a aposta e observa o jogo se desenvolver. A semelhança principal está no uso de inteligência, autocontrole e leitura social como instrumentos de poder. A diferença mais visível é que a comunicação da série torna explícita a tensão entre as capacidades de Lady Cho e os limites impostos às mulheres de sua época.
Cho Won e a função de Valmont
Cho Won corresponde ao arquétipo de Valmont: um sedutor experiente, confiante na própria capacidade de conquistar quem parece inacessível. No trailer, ele não apenas aceita o desafio como o eleva ao propor Hui-yeon como alvo. Essa mudança na mecânica da aposta é importante porque sugere que a série redistribui a iniciativa entre os dois jogadores em vez de simplesmente copiar a ordem dos planos do romance.
Hui-yeon e a função de Tourvel
Hui-yeon é o equivalente funcional mais evidente de Madame de Tourvel, mas com uma diferença decisiva já confirmada: ela é uma jovem viúva. O original trabalha a tensão em torno de uma mulher casada e virtuosa; a série desloca essa posição para uma personagem cuja reputação e autonomia são condicionadas por outro conjunto de expectativas. Isso preserva o conflito entre desejo e norma social, mas altera sua base histórica.
So-ok e o eco de Cécile
O trailer apresenta So-ok como jovem prestes a se tornar concubina na casa de Lady Cho e como alvo da proposta inicial feita a Cho Won. Essa função lembra a posição de Cécile como jovem envolvida nos planos de Merteuil e Valmont. Ainda assim, tratar So-ok como “a Cécile da série” sem ressalva seria ir além do que a Netflix confirmou. O mais seguro é falar em correspondência parcial de função.
O que a série parece preservar do romance
- Sedução como ferramenta de poder: o interesse amoroso não aparece apenas como romance, mas como meio de vencer uma disputa.
- Reputação como moeda social: o risco não é só emocional; envolve posição, honra e como cada personagem é visto pela comunidade.
- Competição entre estrategistas: Lady Cho e Cho Won não são apresentados como peças passivas, mas como pessoas que testam os limites um do outro.
- Desejo contra convenção: a Netflix define a série como um jogo amoroso perigoso numa época em que a sedução era proibida ou socialmente condenada.
- Cartas e segredos: embora a estrutura epistolar não esteja confirmada, a carta confidencial que abre o trailer principal indica que mensagens privadas continuam importantes para a intriga.
O que já está claramente diferente
- França do século XVIII → Joseon: a mudança de sociedade altera o significado de casamento, reputação, gênero e escândalo.
- Tourvel casada → Hui-yeon viúva: a série troca a posição social da figura virtuosa central.
- Cécile → So-ok não é equivalência confirmada: há paralelos, mas o papel doméstico de So-ok e sua ligação com a concubinagem criam outra configuração.
- Romance de cartas → narrativa audiovisual: o livro depende da diferença entre o que cada personagem escreve, pensa e esconde; a série precisa traduzir isso em atuação, montagem, mise-en-scène e diálogos.
- Aposta reorganizada: no material divulgado, Lady Cho propõe So-ok e Cho Won contrapõe Hui-yeon, sinal de que a adaptação remodela o mecanismo do desafio.
O que ainda não dá para afirmar sem estragar ou especular
A campanha da Netflix deliberadamente deixa em aberto os motivos completos de Lady Cho, a evolução dos sentimentos de Cho Won, o quanto Hui-yeon percebe do jogo e quais consequências a aposta terá. Também não há, nos materiais oficiais consultados, um mapa completo de equivalências para todos os personagens do romance. Qualquer lista que force correspondências exatas além do trio principal e de So-ok corre o risco de misturar inferência com fato.
Para manter a comparação sem spoilers pesados, o melhor limite é ficar na premissa, nas funções iniciais e nas mudanças de contexto já confirmadas.
Precisa conhecer Ligações Perigosas antes de assistir?
Não. A divulgação apresenta The Scandal como uma nova reimaginação do romance, e não como continuação de outra adaptação. Dá para entrar pela série entendendo apenas a premissa: duas figuras da elite transformam sedução em jogo, e uma terceira pessoa é puxada para esse conflito.
Conhecer o livro, porém, acrescenta uma camada interessante. Quem já leu pode observar quais funções foram preservadas, como o poder de Merteuil foi retrabalhado em Lady Cho e como a série substitui o ponto de vista fragmentado das cartas por linguagem visual. Quem preferir assistir primeiro pode ler Laclos depois e comparar sem precisar antecipar o desfecho.
Quando estreia e onde conferir as informações oficiais
The Scandal estreia globalmente em 18 de setembro de 2026 na Netflix. A série é dirigida por Jung Ji-woo e tem Son Ye-jin, Ji Chang-wook e NANA no trio central.
Para acompanhar apenas informações confirmadas, as referências mais úteis são o anúncio oficial da Netflix sobre a estreia e os personagens, o material do trailer principal e o texto integral de Les Liaisons dangereuses no Project Gutenberg. Para o pano de fundo histórico de Bukchon e da vida da elite coreana, materiais oficiais de turismo e estudos culturais coreanos ajudam a separar ambientação real de liberdade dramática.





