Se os quatro minutos de uma luta terminam sem vantagem técnica para nenhum judoca, ou com pontuações técnicas iguais, a disputa não é decidida pela simples contagem de shidos. Nas regras atuais da International Judo Federation (IJF), a luta segue para o golden score, sem limite de tempo. As pontuações e penalidades do tempo regulamentar continuam no placar, e o combate termina quando surge uma pontuação técnica válida, um hansoku-make ou outra forma regulamentar de vitória.
O que acontece quando o tempo regulamentar termina
Nas competições da IJF para seniores, juniores e cadetes, o tempo regulamentar é de quatro minutos de tempo real de combate. Ao final desse período, há duas situações principais:
- se um judoca está à frente em pontuação técnica, ele vence;
- se não há pontuação técnica ou se as pontuações técnicas estão iguais, a luta vai para o golden score, independentemente da quantidade de shidos de cada atleta.
Esse detalhe é essencial: shido é penalidade, não ponto. A própria IJF determina que uma penalidade não corresponde a uma pontuação para o adversário. Portanto, terminar os quatro minutos com dois shidos contra zero não significa derrota automática se o placar técnico estiver empatado.
Golden score: empate técnico, sem limite de tempo
O golden score começa logo após o encerramento temporário do tempo regulamentar. Não há intervalo de descanso. O árbitro reinicia o combate quando o placar está pronto, e não existe limite de tempo para esse período extra.
Tudo o que já estava registrado permanece válido: yuko, waza-ari e a quantidade de shidos são carregados para o golden score. A partir daí, a luta pode terminar por:
- yuko, waza-ari ou ippon obtido no golden score;
- hansoku-make, inclusive o indireto causado pelo acúmulo de três shidos;
- kiken-gachi, quando ocorre desistência ou impossibilidade de continuar nos termos da regra.
Como qualquer pontuação técnica válida encerra o golden score, até um yuko é suficiente para decidir imediatamente a luta. Esse ponto merece atenção porque explicações antigas do judô internacional podem não refletir a volta do yuko ao sistema atual.
Shido: aviso, não ponto
A IJF trata o shido como penalidade para infrações leves. Os dois primeiros shidos funcionam como advertências. O terceiro se transforma em hansoku-make indireto: o atleta é desclassificado daquela luta e o adversário vence por ippon.
Por isso, a contagem de shidos pesa muito mesmo sem alterar o placar técnico. Um judoca que entra no golden score com dois shidos está a uma nova penalidade da derrota. Já um atleta com zero ou um shido ainda tem maior margem antes de chegar ao hansoku-make por acúmulo.
O ponto mais fácil de confundir é este: a diferença de shidos, por si só, não decide o combate quando o tempo regulamentar acaba. O que encerra a luta por penalidades é chegar ao terceiro shido, ou receber um hansoku-make direto por uma infração grave.
Cenários práticos para entender a decisão
| Cenário ao fim dos 4 minutos | O que acontece | Por quê |
|---|---|---|
| 0 a 0 em pontuação; branco com 0 shido, azul com 2 | Vai para golden score | Dois shidos não equivalem a derrota. Com placar técnico igual, a luta continua. |
| Branco tem 1 yuko e 2 shidos; azul não tem pontuação nem shido | Branco vence no tempo regulamentar | O yuko é vantagem técnica. Os dois shidos não dão pontos ao azul. |
| 1 yuko para cada lado; branco com 2 shidos, azul com 1 | Vai para golden score | As pontuações técnicas estão iguais. Os shidos são carregados para o período extra. |
| No golden score, um atleta que já tinha 2 shidos recebe mais 1 | Perde por hansoku-make indireto | O terceiro shido encerra a luta. |
| No golden score, o placar segue empatado e um atleta marca yuko | Vence imediatamente | Qualquer pontuação técnica válida encerra o golden score. |
Quais ações podem gerar shido nas regras atuais
A lista oficial é extensa e depende do contexto da ação. Entre situações relevantes nas regras atuais estão:
- adotar postura excessivamente defensiva ou negativa sem buscar ataque;
- fazer um ataque falso, isto é, uma ação que aparenta ataque mas não mostra intenção real de projetar o adversário;
- demonstrar falta de combatividade;
- sair intencionalmente da área de combate;
- usar determinadas pegadas de forma negativa, bloqueadora ou sem progressão ofensiva;
- agarrar a perna, segurar a calça ou tocar a perna da parte superior da face interna da coxa para baixo em situação proibida de tachi-waza;
- cometer infrações ligadas a perda de tempo, arrumação indevida do judogi ou do cabelo, quando previstas pela regra.
Essa relação serve para leitura do combate, não como substituto da lista completa. A avaliação de uma ação depende do momento, da posição dos atletas e da continuidade ofensiva, e a IJF publica exemplos técnicos para padronizar a arbitragem.
Três shidos e hansoku-make direto não são a mesma coisa
Quando o terceiro shido gera desclassificação, a regra chama o resultado de hansoku-make indireto. Em geral, o atleta perde aquela luta, mas pode continuar na competição se ainda houver uma fase aplicável.
O hansoku-make direto é diferente: ele pode ser aplicado imediatamente a uma infração grave, sem necessidade de três shidos prévios. Dependendo da natureza da infração, o atleta pode ou não ser autorizado a seguir no evento. A IJF distingue, por exemplo, situações de técnica perigosa de atos contrários ao espírito do judô.
Há ainda uma situação rara: se os dois atletas recebem simultaneamente o terceiro shido em tempo regulamentar ou golden score, ambos recebem hansoku-make indireto e são considerados perdedores daquela luta, com consequências de classificação definidas pela fase da competição.
Como ler o placar sem se perder no golden score
- Olhe primeiro as pontuações técnicas. Yuko, waza-ari e ippon definem a vantagem esportiva; dois waza-ari formam waza-ari-awasete-ippon.
- Depois confira os shidos. Eles não viram pontos, mas mostram quem está mais perto do terceiro shido e do hansoku-make.
- No fim dos quatro minutos, compare o placar técnico. Se estiver igual, haverá golden score mesmo que a contagem de shidos seja diferente.
- No golden score, a primeira pontuação técnica válida encerra a luta. Um novo shido só encerra o combate se produzir hansoku-make, como no caso do terceiro shido.
O yuko atual também tem uma regra própria: ele pode se acumular como yuko, mas não se soma para virar waza-ari. Já dois waza-ari resultam em ippon.
O que mudou em relação a explicações antigas
Quem aprendeu a lógica do golden score por materiais de ciclos anteriores pode encontrar diferenças. O sistema atual voltou a usar o yuko, e a IJF deixa explícito que yuko, waza-ari ou ippon podem encerrar o golden score. Por isso, um guia antigo que diga que apenas waza-ari, ippon ou uma penalidade decisiva podem terminar o período extra está desatualizado para a regra vigente em 2026.
Também é importante não reutilizar automaticamente explicações de ciclos em que a relação entre shidos e desempate funcionava de outra maneira. A regra atual é direta: se as pontuações técnicas estiverem iguais ao fim do tempo regulamentar, a luta continua, independentemente da quantidade de shidos já anotada.
Qual versão da regra este guia usa
Este texto usa como referência principal o Sport and Organisation Rules da IJF, versão de 24 de julho de 2026, especialmente os artigos sobre fim da luta, golden score, pontuações e penalidades. A IJF também informou, ao confirmar as regras para a temporada de 2026, que o quadro de arbitragem seria estabilizado para o período de qualificação olímpica até Los Angeles 2028. A federação, porém, continua podendo publicar documentos explicativos e clarificações; por isso, para competições futuras, vale conferir a comunicação oficial da IJF sobre as regras de 2026 e a versão mais recente do regulamento.





