As “gerações” do K-pop não são definidas por uma autoridade oficial, nem por um calendário único aceito por toda a indústria. Elas funcionam como uma convenção usada por imprensa, empresas, programas de TV, críticos, pesquisadores e fandoms para agrupar artistas que estrearam em contextos parecidos. Por isso, a pergunta mais útil não é “qual é a data correta de cada geração?”, mas “quais mudanças fizeram muita gente perceber uma nova fase?”.
Quem define as gerações do K-pop?
Ninguém sozinho. Não existe um órgão da indústria musical sul-coreana que publique uma tabela oficial dizendo onde começam e terminam a 1ª, a 2ª, a 3ª, a 4ª ou a 5ª geração. A revista Koreana, da Korea Foundation, resume essa lógica ao observar que não há regras ou padrões formais para proclamar uma nova geração. O rótulo tende a ganhar força quando aparece um conjunto de grupos com diferenças perceptíveis em composição, mercado, conceito, mensagem e forma de atuação.
Na prática, a classificação surge de uma negociação informal entre vários atores. Empresas e emissoras podem lançar um rótulo novo como ferramenta de posicionamento. A imprensa passa a adotá-lo se ele fizer sentido para descrever uma leva de estreias. Fãs testam, rejeitam ou consolidam o uso no cotidiano. Críticos e pesquisadores, depois, tentam explicar quais mudanças realmente distinguem uma fase da anterior.
Isso ajuda a entender por que duas fontes sérias podem usar fronteiras diferentes sem que uma delas esteja necessariamente “errada”. A geração é um modelo de leitura histórica, não uma categoria jurídica ou técnica.
Uma linha do tempo útil da 1ª à 5ª geração
A tabela abaixo mostra uma convenção prática bastante usada. As datas são aproximadas e servem como orientação, não como regra rígida.
| Geração | Faixa de referência | O que costuma marcar a fase | Exemplos representativos |
|---|---|---|---|
| 1ª | Anos 1990 ao início dos anos 2000 | Formação do modelo moderno de idol, fandoms organizados, rivalidades de grupos e expansão inicial da cultura jovem pop coreana. | Seo Taiji and Boys como precursor decisivo; H.O.T., Sechs Kies, S.E.S. e Fin.K.L como marcos do sistema idol. |
| 2ª | Meados dos anos 2000 ao início dos anos 2010 | Hallyu asiática mais forte, presença intensa em programas de variedades, expansão para Japão e outros mercados e crescimento das turnês. | TVXQ, Super Junior, BIGBANG, Girls' Generation, Wonder Girls, SHINee e 2NE1. |
| 3ª | Início dos anos 2010 até cerca de 2017/2018 | Crescimento simultâneo dentro e fora da Coreia, YouTube e redes sociais ganhando peso, fandom global em escala muito maior e aumento da competitividade internacional. | EXO, BTS, Red Velvet, MAMAMOO, TWICE e BLACKPINK. |
| 4ª | Cerca de 2018/2019 a 2022 | Estreias já pensadas para públicos globais, forte cultura de performance, plataformas digitais, short-form, fan platforms, conceitos muito definidos e adaptação ao período da pandemia. | Stray Kids, ATEEZ, TOMORROW X TOGETHER, ITZY, aespa, IVE, LE SSERAFIM e NewJeans são frequentemente associados a essa fase por diferentes fontes. |
| 5ª | Rótulo difundido a partir de 2023 | Nova leva de rookies promovida como geração própria, retomada e hibridização das experiências presenciais, estratégias globais desde o debut e maior diversificação de formatos, mercados e propriedades de fandom. | ZeroBaseOne tornou-se um caso central na popularização do rótulo; outros rookies de 2023 em diante passaram a ser apresentados pela mídia e pelas próprias empresas como 5ª geração. |
O ponto mais sensível da tabela é o início. Korea.net destaca Seo Taiji and Boys, que estreou em 1992, como um nome fundamental para a transformação da música pop coreana e para o caminho que levaria ao sistema idol moderno. Já a Koreana usa H.O.T., de 1996, como referência do primeiro grupo idol de K-pop. Essa diferença mostra que “origem do K-pop moderno” e “início da primeira geração idol” podem ser tratados como perguntas próximas, mas não idênticas.
O que realmente muda de uma geração para outra?
O ano de estreia é apenas o indicador mais fácil de enxergar. As mudanças que sustentam uma geração normalmente aparecem em várias camadas ao mesmo tempo.
1. Tecnologia e canais de descoberta
A 1ª e a 2ª gerações dependiam muito mais de televisão, rádio, CDs, fan clubs e programas de variedades. A 3ª cresceu com YouTube, Twitter e distribuição digital global. A 4ª nasceu em um ambiente em que redes sociais, vídeos curtos, transmissões ao vivo e plataformas de fandom já faziam parte do plano de lançamento. A 5ª herda tudo isso como infraestrutura básica e tenta diferenciar a experiência por formatos de comunidade, eventos híbridos, conteúdo contínuo e estratégias de alcance global desde o começo.
2. Mercado-alvo
Nas primeiras fases, a expansão internacional costumava acontecer depois de consolidar presença na Coreia. Com o tempo, Japão, China, Sudeste Asiático, Américas e Europa deixaram de ser apenas mercados de expansão e passaram a influenciar casting, idioma, promoção e calendário desde a estreia. A própria Koreana usa a expansão internacional como uma das chaves para diferenciar 2ª, 3ª e 4ª gerações.
3. Conceito, narrativa e identidade de grupo
As gerações também refletem mudanças em como os grupos constroem identidade. Isso inclui styling, videoclipes, lore, mensagens, relação entre álbuns e modo de apresentar os membros. Essas mudanças não ocorrem no mesmo dia, por isso um grupo no limite entre duas eras pode compartilhar características das duas.
4. Relação com o fandom e modelo de negócio
O fandom deixou de ser apenas audiência para se tornar parte de um ecossistema de pré-venda, votação, streaming, eventos, memberships, aplicativos, merchandising e conteúdo próprio. Um estudo acadêmico sul-coreano de 2026, dedicado justamente à distinção entre 4ª e 5ª geração, propõe analisar três dimensões: contexto sociocultural, estratégia de conceito e narrativa, e estratégia de marketing e globalização.
Por que a fronteira entre 4ª e 5ª geração é tão discutida?
Porque o rótulo “5ª geração” começou a circular antes de existir uma concordância ampla sobre uma ruptura histórica. Em julho de 2023, o Korea JoongAng Daily observou que não havia uma demarcação sólida e destacou que o programa Boys Planet, da Mnet, havia promovido ZeroBaseOne como um “grupo masculino de K-pop de 5ª geração”. O próprio jornal tratou a pergunta como um debate aberto.
O uso continuou se espalhando. Em 2024, por exemplo, a The Korea Times noticiou o debut do UNIS em uma matéria que já usava “5th-generation K-pop” no título e registrava o desejo do grupo de se tornar um nome representativo dessa geração. Isso mostra como um termo pode sair de uma campanha de posicionamento e, com repetição, virar vocabulário normal da cobertura musical.
Ao mesmo tempo, o debate acadêmico ainda reconhece a ambiguidade. O estudo de 2026 citado acima afirma que fãs altamente envolvidos percebem mistura de discursos e fronteiras pouco nítidas entre marketing geracional e mudanças estruturais. Na análise dos autores, porém, há diferenças relevantes: eles associam a 4ª geração a um ambiente mais marcado por comunicação sem contato, tecnologias avançadas, narrativas de fantasia e forte foco em vendas iniciais de álbuns; para a 5ª, identificam maior ênfase em comunicação híbrida com retorno do presencial, narrativas de crescimento mais realistas, lançamentos localizados para diferentes mercados e diversificação de merchandising e licenciamento. Essa é uma proposta analítica de pesquisadores, não uma definição obrigatória para toda a indústria.
Então 2023 é o começo oficial da 5ª geração?
Não. É melhor dizer que 2023 virou um marco prático porque foi quando o rótulo ganhou grande visibilidade com ZeroBaseOne e começou a ser repetido por empresas e imprensa. Isso é diferente de dizer que existe uma data oficial.
Algumas classificações colocam grupos de 2022 no fim da 4ª geração. Outras enxergam nesses mesmos debuts sinais antecipados da fase seguinte. O inverso também ocorre: artistas lançados já em 2023 podem ser tratados como continuação estética e comercial da 4ª. Quando a mudança é gradual, a borda nunca funciona como uma virada de calendário à meia-noite.
Por que aparecem rótulos como “1.5 geração”?
Porque a própria comunidade sente que as grandes caixas não explicam todas as transições. A Koreana, por exemplo, descreve artistas como Shinhwa, Jewelry e BoA em uma fase “1.5” entre a primeira e a segunda geração. Esse tipo de subdivisão tenta reconhecer artistas que estrearam num período de passagem e ajudaram a experimentar práticas que só se tornariam dominantes depois.
Esses rótulos intermediários são úteis para discussão histórica, mas também reforçam o ponto central: se as fronteiras fossem oficiais e objetivas, não seria necessário criar tantas categorias de transição.
Como interpretar uma classificação de geração sem cair em falsas certezas
- Veja a fonte. Uma empresa pode usar “nova geração” como posicionamento promocional. Um pesquisador pode usar critérios socioculturais. Um fã pode usar apenas o ano de debut.
- Procure o critério, não só o número. A classificação fica mais útil quando explica tecnologia, mercado, fandom, estética e modelo de negócio.
- Aceite sobreposição. Grupos de fronteira podem carregar práticas de duas eras ao mesmo tempo.
- Não transforme exemplos em lista oficial. Dizer que um grupo “representa” uma geração não significa que todos concordam com a classificação.
- Use as gerações como mapa. Elas ajudam a organizar a história do K-pop, mas não substituem a análise do grupo, da empresa ou do período.
Qual é a convenção mais segura para usar?
Para uma leitura geral, é razoável tratar a 1ª geração como a formação do K-pop idol nos anos 1990 e início dos 2000; a 2ª como a expansão asiática e o auge dos idols multifuncionais nos anos 2000; a 3ª como a fase de internacionalização simultânea e explosão digital dos anos 2010; a 4ª como a geração global e digital consolidada que emerge por volta de 2018/2019 e atravessa a pandemia; e a 5ª como o rótulo que ganha força a partir de 2023.
Essa linha do tempo é útil justamente porque vem com uma ressalva: as datas são aproximações. O que dá sentido às gerações são as mudanças de contexto, tecnologia, estratégia e cultura de fandom. As fronteiras permanecem discutidas porque essas mudanças não acontecem todas ao mesmo tempo.





