Bastidores e Gestão10/08/2026Redação do Futebol Carioca9 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Quem manda hoje na Vasco SAF? O mapa de poder entre Pedrinho, Conselho, executivos, Justiça e 777

Pedrinho voltou ao Conselho da Vasco SAF, mas o poder é dividido: executivos tocam o dia a dia, Athos Neves fiscaliza e a 777 segue na disputa societária.

Mapa editorial da governança da Vasco SAF, com Conselho de Administração, executivos, monitor independente e controles judiciais

Dizer simplesmente que Pedrinho “manda na Vasco SAF” ajuda pouco a entender a estrutura que existe hoje. Desde a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro de 10 de julho de 2026, ele e os outros conselheiros afastados em junho voltaram aos cargos, e a intervenção judicial que substituía a administração foi suspensa. Mas a Justiça manteve controles de governança, prestação de informações e fiscalização sobre atos economicamente relevantes.

Na prática, o poder está dividido. O Conselho de Administração exerce a governança societária; Fred Luz, Ricardo Abreu e os executivos conduzem a operação; Admar Lopes comanda o departamento de futebol; Athos Neves monitora e reporta sem administrar; a Administração Judicial e o juízo da recuperação fiscalizam determinados atos; e a 777 continua dentro da disputa societária, embora esteja sem o controle da SAF.

Esse é o retrato encontrado na pesquisa realizada em 10 de agosto de 2026. Ele é necessariamente provisório porque há recursos, arbitragem, recuperação judicial e uma operação de venda ainda não concluída.

O mapa de competências da Vasco SAF

Núcleo Quem ocupa hoje O que faz Principal limite
Conselho de Administração Pedrinho, Christiano Campos e Felipe Passos Elias Exerce a governança societária e as deliberações do Conselho Composição temporária e sujeita às decisões judiciais, arbitrais, estatuto e controles da recuperação
Presidência do CRVG / Pedrinho Pedrinho Representa politicamente o clube associativo e integra o Conselho da SAF Não é o CEO da SAF nem concentra sozinho a administração da companhia
Gestão executiva Fred Luz, CEO; Ricardo Abreu, COO Conduz a gestão e a execução cotidiana da empresa Deve atuar dentro das deliberações societárias, orçamento, governança e controles judiciais aplicáveis
Futebol Admar Lopes, diretor executivo de futebol Conduz o departamento e as negociações esportivas no nível executivo Operações relevantes seguem alçadas internas e, acima do patamar judicial, precisam ser comunicadas
Monitor independente Athos Neves Fiscaliza governança e finanças, recebe documentos e reporta à Justiça Não substitui a administração e não participa da rotina decisória
Recuperação judicial Administração Judicial e juízo recuperacional Fiscalizam cumprimento do plano, transparência e determinados atos relevantes Não administram normalmente o futebol ou a companhia
777 Carioca Acionista em disputa com o Vasco Defende seus direitos e interesses nas ações judiciais e na arbitragem Direitos societários foram suspensos; não exerce hoje o comando operacional da SAF

A composição atual do Conselho aparece no próprio site do Vasco como temporária e reúne três representantes do Club de Regatas Vasco da Gama: Pedro Paulo de Oliveira, o Pedrinho, Christiano Campos e Felipe Passos Elias.

O que significa, de fato, o retorno de Pedrinho

A liminar de 10 de julho suspendeu dois pontos decisivos da intervenção determinada em primeira instância: o afastamento dos integrantes do Conselho e o regime em que a administração judicial substituía os gestores da SAF. A decisão também permitiu ao CRVG recompor regularmente seus órgãos internos, desde que respeite estatuto, decisões judiciais e arbitrais e os deveres de informação à Justiça e à Administração Judicial.

Isso devolveu a Pedrinho influência direta sobre a SAF como integrante de seu Conselho de Administração e presidente do acionista associativo que, por força das decisões judiciais em vigor, permanece no controle. O que não aconteceu foi a transformação de Pedrinho em administrador único ou CEO da empresa.

Há uma diferença relevante entre comandar politicamente e participar da definição estratégica e executar cada contratação, pagamento ou decisão administrativa. A primeira esfera passa pelo Conselho e pela posição do CRVG. A segunda pertence à estrutura executiva da SAF.

Quem executa a administração no dia a dia

Em 22 de junho, ainda antes do afastamento do Conselho, a própria Vasco SAF anunciou uma reorganização executiva: Carlos Amodeo deixou suas funções e Fred Luz assumiu como CEO. Ricardo Abreu passou a ocupar o cargo de COO. Essas mudanças continuam sendo apresentadas pelo clube em seus canais oficiais.

O CEO é o principal executivo da companhia; o COO atua na operação. Isso significa que atos rotineiros de gestão não dependem de Pedrinho pessoalmente tocar cada processo. O Conselho define e fiscaliza a direção da empresa, enquanto a equipe executiva transforma essas orientações em administração concreta.

A área financeira merece uma ressalva. A decisão de 10 de julho determinou que a SAF esclarecesse formalmente a situação do diretor financeiro, além de apresentar cronograma para assembleia e regularização de demonstrações financeiras e disponibilizar documentos pendentes. Como as fontes públicas consultadas não permitem atribuir com segurança a uma pessoa específica o atual cargo e todas as alçadas de CFO, não é adequado preencher essa lacuna por inferência.

O Vasco mantém publicadas em sua área de transparência as demonstrações contábeis da SAF de 2024 e 2025. A existência desses documentos, porém, não elimina os deveres adicionais de regularização societária determinados no processo.

Quem negocia jogadores e toma decisões de futebol

O nome executivo central do futebol é Admar Lopes. O Vasco o lista atualmente como diretor executivo de futebol e mantém Felipe como diretor técnico.

Essa distinção ficou especialmente clara durante a própria intervenção. Em 9 de julho, quando Athos Neves ainda estava na posição de interventor, foi informado que ele não participaria das questões esportivas e que os executivos da SAF continuariam à frente das negociações por treinador e jogadores.

Com o fim da administração substitutiva, essa lógica ficou ainda mais nítida: o departamento de futebol conduz o trabalho operacional, submetido às políticas, limites financeiros e alçadas da companhia.

Existe, porém, um controle adicional. A decisão de segunda instância determinou comunicação prévia ao juízo e à Administração Judicial de atos de especial relevância econômica, incluindo operações com atletas acima de um patamar a ser fixado em primeira instância. Na implementação do monitoramento, foi estabelecida a comunicação de negociações acima de R$ 5 milhões.

Isso não transforma Athos Neves em diretor de futebol nem lhe dá a função de escolher reforços. O dever é de fiscalização e comunicação.

Athos Neves fiscaliza, mas não governa a SAF

A mudança de função de Athos é uma das maiores fontes de confusão nesse desenho.

Ele chegou a ser nomeado interventor durante o período em que o Conselho estava afastado. Depois que o TJRJ suspendeu a intervenção, passou a exercer a função de watchdog, ou monitor independente.

A própria decisão de 10 de julho define a finalidade: monitorar governança, receber documentos, fiscalizar o cumprimento das medidas determinadas e apresentar relatórios periódicos, sem substituir a administração.

Portanto, Athos não ocupa uma espécie de “superpresidência judicial” da SAF. Ele funciona como uma camada externa de controle. Segundo o detalhamento publicado após sua indicação, deve comunicar ao juízo negociações acima de R$ 5 milhões e acompanhar questões de governança e finanças, mas sem participar dos processos cotidianos da empresa.

Também não se deve confundir o watchdog com a Administração Judicial da recuperação. São funções diferentes. A Administração Judicial acompanha o processo recuperacional e fiscaliza obrigações relacionadas a ele; o monitor foi criado como mecanismo adicional de governança depois que o Tribunal considerou desproporcional manter uma intervenção que substituía os administradores.

Onde a 777 ainda entra

A 777 deixou de controlar a rotina da Vasco SAF em maio de 2024, quando uma decisão judicial suspendeu os efeitos do contrato com a investidora, inclusive seus direitos societários políticos e patrimoniais, e retirou do Conselho os representantes indicados pelo grupo.

Em maio de 2025, a 20ª Câmara de Direito Privado do TJRJ manteve, por unanimidade, a liminar que deixava o controle da SAF com o clube associativo enquanto o mérito do conflito prosseguia. A disputa societária continuou vinculada também à arbitragem prevista entre as partes.

Isso cria uma situação que parece contraditória à primeira vista: a 777 não controla a SAF hoje, mas também não desapareceu juridicamente da sociedade.

A própria decisão de primeira instância que provocou a intervenção em junho destacou que a suspensão dos direitos da 777 não apagava sua condição de acionista e relacionou uma eventual alienação das ações à concordância da empresa ou a uma autorização arbitral.

A decisão de 10 de julho, ao suspender a intervenção, adotou uma formulação mais ampla: qualquer alienação relevante de ativos, ações ou estruturas previstas no plano de recuperação continua submetida aos controles internos, à Administração Judicial, ao juízo recuperacional e, quando aplicável, ao juízo arbitral.

Por isso, dizer que a 777 “manda” hoje é incorreto. Dizer que ela “não tem mais nada a ver com o Vasco” também é. Seu peso atual é principalmente societário e litigioso, não de gestão cotidiana.

Então quem pode vender a Vasco SAF?

Aqui o mapa de poder fica mais complexo, porque vender o controle é muito diferente de contratar um jogador ou administrar o caixa.

Pedrinho tem papel central na negociação política e empresarial, mas não dispõe de poder unilateral para concluir a venda.

Em 11 de julho, o desenho divulgado para uma nova operação previa apreciação pelos órgãos estatutários do CRVG — Conselho de Beneméritos, Conselho Deliberativo e Assembleia Geral — além da aprovação ligada à recuperação judicial. A mesma reportagem registrava que a participação discutida com a 777 continuava dependente da solução da disputa societária.

Poucos dias depois, o processo avançou para outra etapa. Em 15 de julho, foi iniciado o procedimento de alienação judicial da unidade que representa 90% das ações da nova SAF. A Almirante Participações e Empreendimentos, de Marcos Lamacchia, entrou como stalking horse bidder: sua oferta serve de referência no processo competitivo, e a empresa tem preferência para igualar proposta superior nas condições previstas no edital. O prazo divulgado para a conclusão dessa etapa é 30 de setembro de 2026.

Há ainda uma camada regulatória que ganhou relevância em agosto. Desde 2026, a CBF mantém em funcionamento a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a ANRESF, responsável pelo Sistema de Sustentabilidade Financeira e por regras que incluem a proibição de um mesmo proprietário exercer controle ou influência significativa sobre mais de um clube na mesma competição.

Em 5 de agosto, o Vasco enviou documentos à ANRESF defendendo a legalidade da operação com Lamacchia. Segundo a informação pública mais recente localizada nesta pesquisa, o negócio ainda não estava concluído e passaria pela análise da agência.

Ou seja: mesmo que Pedrinho e os negociadores cheguem a um acordo comercial, o fechamento depende de uma sequência de controles societários, recuperacionais, judiciais, eventualmente arbitrais e agora também regulatórios.

O que está valendo e o que continua pendente

O quadro vigente é mais simples quando se separa gestão de disputa.

Está valendo hoje: Pedrinho, Christiano Campos e Felipe Elias estão de volta ao Conselho; Fred Luz é o CEO; Ricardo Abreu é o COO; Admar Lopes dirige o futebol; Athos Neves atua como monitor independente; e não há intervenção judicial substituindo a administração.

Continua pendente: o julgamento colegiado do recurso que deu origem à liminar de 10 de julho, o conflito societário com a 777, a arbitragem, as obrigações de regularização de governança e o fechamento da operação que pode transferir 90% da nova SAF.

É por isso que a pergunta “quem manda?” não tem um único nome como resposta.

Pedrinho e o Conselho concentram hoje o comando societário e estratégico ligado ao CRVG. Os executivos administram e negociam no cotidiano. A Justiça não substitui essa gestão, mas criou mecanismos fortes de fiscalização. A 777 não comanda a empresa, porém continua parte da disputa que afeta sua estrutura acionária. E uma venda da SAF depende de um rito que ultrapassa a decisão de qualquer dirigente isolado.

Esse é o mapa que melhor descreve o poder na Vasco SAF em 10 de agosto de 2026 — e também explica por que uma nova decisão judicial, arbitral ou regulatória pode obrigar a atualizar o mapa novamente.

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