Diplomacia e Ordem Internacional10/09/2026Núcleo de Geopolítica6 min de leituraAtualizado em 24/09/2026

Por que o Brasil fala primeiro na Assembleia Geral da ONU — e como é definida a ordem dos demais países em 2026

A primazia brasileira no Debate Geral é uma tradição consolidada desde 1955, não uma regra de ordem alfabética. Entenda o papel histórico de Oswaldo Aranha, por que os EUA vêm em seguida e quais critérios organizam os demais discursos em 2026.

Bandeira do Brasil em primeiro plano diante da sede da ONU em Nova York, com o emblema das Nações Unidas e uma fileira de bandeiras nacionais.

Quando o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas começa, o Brasil ocupa tradicionalmente o primeiro lugar entre os Estados-membros a discursar. Em 2026, essa prática volta a valer na 81ª sessão, cujo Debate Geral ocorrerá de 22 a 26 de setembro e será concluído em 28 de setembro. A posição brasileira, porém, não decorre de ordem alfabética, de tamanho do país, de poder de voto nem de uma regra escrita que dê ao Brasil um privilégio permanente.

A explicação oficial da ONU é histórica: nos primeiros anos da Organização, havia relutância entre os países em inaugurar o Debate Geral, e o Brasil se ofereceu para falar primeiro em várias ocasiões. A prática acabou virando tradição e, segundo a própria ONU, está consolidada desde 1955. Depois do Brasil, os Estados Unidos costumam falar em segundo lugar por serem o país anfitrião da sede das Nações Unidas.

O que significa dizer que o Brasil “fala primeiro”

O Brasil é o primeiro país a tomar a palavra no Debate Geral, mas não necessariamente a primeira voz ouvida na sessão. Na abertura, o secretário-geral das Nações Unidas apresenta uma declaração e o presidente da Assembleia Geral também se pronuncia. Só depois começa a sequência de intervenções nacionais.

Para 2026, a ONU informa que a 81ª sessão é presidida por Khalilur Rahman, de Bangladesh, e que o tema do Debate Geral é “Restoring trust, managing transformation: a United Nations that delivers for all”. A programação oficial fixa o debate de terça-feira, 22 de setembro, a sábado, 26 de setembro, com conclusão na segunda-feira, 28 de setembro.

De onde vem a tradição brasileira — e onde entra Oswaldo Aranha

Oswaldo Aranha ocupa um lugar importante na história da diplomacia brasileira na ONU. Ele presidiu a primeira sessão especial e a segunda sessão regular da Assembleia Geral, ambas em 1947, e presidiu a reunião de 29 de novembro daquele ano em que foi aprovada a Resolução 181 sobre a partilha da Palestina.

Esse papel, entretanto, não deve ser usado como explicação automática para a posição do Brasil no Debate Geral. A justificativa institucional dada pelo Serviço de Protocolo e Ligação da ONU é outra: nos primeiros anos, quando nenhum Estado queria inaugurar as falas, o Brasil se dispôs a fazê-lo em diversas ocasiões. A ONU registra que o país passou a abrir o Debate Geral de forma tradicional e que essa prática está estabelecida pelo menos desde a 10ª sessão, em setembro de 1955.

Em outras palavras, Aranha ajuda a explicar a visibilidade precoce do Brasil na história da Assembleia Geral, mas a origem da tradição de falar primeiro é apresentada pela ONU como resultado de prática diplomática repetida, não como uma homenagem formal a ele.

Por que os Estados Unidos falam em segundo lugar

Depois do Brasil, a segunda posição é reservada, por tradição, aos Estados Unidos. A razão é simples: a sede principal das Nações Unidas fica em Nova York, e os EUA são o país anfitrião. Assim, a abertura entre os Estados-membros segue o padrão Brasil em primeiro e Estados Unidos em segundo.

Isso também significa que a ordem não funciona como uma lista alfabética de 193 países. A partir do terceiro orador, entra em cena uma combinação de critérios operacionais e diplomáticos.

Como é definida a ordem dos demais países

A ONU descreve a montagem da lista como um processo que leva em conta vários fatores ao mesmo tempo. Entre os principais estão:

  • Nível de representação: a condição de quem fará o discurso — por exemplo, chefe de Estado, chefe de governo ou outro representante de alto nível — influencia a organização da agenda.
  • Equilíbrio geográfico: a Secretaria busca distribuir as intervenções de modo a evitar uma sequência excessivamente concentrada em uma única região.
  • Preferência e disponibilidade: delegações indicam preferências de dia ou sessão, especialmente porque a presença física do principal representante pode depender de outros compromissos em Nova York.
  • Momento do pedido de fala: a ordem em que a solicitação é registrada também entra na composição da lista.

Esses fatores não formam uma fórmula pública simples do tipo “primeiro chefes de Estado, depois chefes de governo e então ordem alfabética”. Eles são combinados para construir uma programação viável ao longo dos seis dias do Debate Geral. A própria prática das sessões recentes prevê uma lista de oradores atualizada, porque ajustes podem ocorrer à medida que delegações confirmam presença, representação e disponibilidade.

A regra geral e a prática específica do Debate Geral

O Regimento da Assembleia Geral fornece a base procedimental. A Regra 68 estabelece que nenhum representante pode discursar sem autorização do presidente da Assembleia e que, em princípio, o presidente chama os oradores na ordem em que manifestam o desejo de falar. No Debate Geral, porém, essa regra é operacionalizada por uma lista previamente coordenada, construída com as práticas e os critérios descritos pela ONU.

Por isso, a posição de um país não deve ser interpretada como ranking diplomático. Falar cedo ou tarde pode refletir nível de representação, logística, preferência, equilíbrio regional e o momento em que a delegação confirmou sua participação.

O que muda — e o que não muda — em 2026

Para a 81ª sessão, o ponto fixo continua sendo o início da sequência nacional com Brasil e Estados Unidos. Para os demais países, a ordem concreta depende da lista operacional do Debate Geral e pode receber atualizações até a semana de alto nível.

Há ainda uma confusão comum com a disposição física do plenário. A ONU sorteia a cada sessão qual Estado ocupará o primeiro assento no Salão da Assembleia Geral; a partir dele, os demais são posicionados em ordem alfabética em inglês. Na 81ª sessão, Marrocos ocupa o primeiro assento. Isso não significa que Marrocos será o primeiro país a discursar: assentos e ordem de fala são sistemas diferentes.

Como acompanhar a ordem real dos discursos

Para saber exatamente em que momento cada país falará, o mais seguro é acompanhar a programação e a lista de oradores publicadas pela ONU durante a semana de alto nível. A página oficial da 81ª sessão reúne as datas e modalidades dos encontros; a página do trabalho da Assembleia Geral concentra links para a agenda e as transmissões; e o material explicativo da ONU sobre o Debate Geral resume os critérios usados para organizar as falas.

Para a origem da tradição brasileira, a explicação em português da ONU Brasil confirma que o Brasil abre o Debate Geral desde 1955. Já a lista de presidentes anteriores da Assembleia Geral confirma o papel de Oswaldo Aranha em 1947, permitindo separar esse fato histórico da explicação institucional para a ordem de fala.

Assim, a resposta curta é: o Brasil fala primeiro por tradição diplomática consolidada; os Estados Unidos vêm em seguida como país anfitrião; e os demais lugares são montados por uma combinação de representação, geografia, preferência, disponibilidade e registro do pedido de fala. Em 2026, o mecanismo continua valendo, enquanto a sequência detalhada é tratada como uma agenda operacional sujeita a atualização.

Tópicos deste artigoAssembleia Geral da ONUBrasil na ONUdebate geraldiplomaciaordem de discursosUNGA 2026Brasil fala primeiro na Assembleia Geral da ONUordem de fala UNGA 2026Debate Geral da ONUBrasil primeiro discurso ONUOswaldo Aranha ONUAssembleia Geral 2026