Quando o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas começa, o Brasil ocupa tradicionalmente o primeiro lugar entre os Estados-membros a discursar. Em 2026, essa prática volta a valer na 81ª sessão, cujo Debate Geral ocorrerá de 22 a 26 de setembro e será concluído em 28 de setembro. A posição brasileira, porém, não decorre de ordem alfabética, de tamanho do país, de poder de voto nem de uma regra escrita que dê ao Brasil um privilégio permanente.
A explicação oficial da ONU é histórica: nos primeiros anos da Organização, havia relutância entre os países em inaugurar o Debate Geral, e o Brasil se ofereceu para falar primeiro em várias ocasiões. A prática acabou virando tradição e, segundo a própria ONU, está consolidada desde 1955. Depois do Brasil, os Estados Unidos costumam falar em segundo lugar por serem o país anfitrião da sede das Nações Unidas.
O que significa dizer que o Brasil “fala primeiro”
O Brasil é o primeiro país a tomar a palavra no Debate Geral, mas não necessariamente a primeira voz ouvida na sessão. Na abertura, o secretário-geral das Nações Unidas apresenta uma declaração e o presidente da Assembleia Geral também se pronuncia. Só depois começa a sequência de intervenções nacionais.
Para 2026, a ONU informa que a 81ª sessão é presidida por Khalilur Rahman, de Bangladesh, e que o tema do Debate Geral é “Restoring trust, managing transformation: a United Nations that delivers for all”. A programação oficial fixa o debate de terça-feira, 22 de setembro, a sábado, 26 de setembro, com conclusão na segunda-feira, 28 de setembro.
De onde vem a tradição brasileira — e onde entra Oswaldo Aranha
Oswaldo Aranha ocupa um lugar importante na história da diplomacia brasileira na ONU. Ele presidiu a primeira sessão especial e a segunda sessão regular da Assembleia Geral, ambas em 1947, e presidiu a reunião de 29 de novembro daquele ano em que foi aprovada a Resolução 181 sobre a partilha da Palestina.
Esse papel, entretanto, não deve ser usado como explicação automática para a posição do Brasil no Debate Geral. A justificativa institucional dada pelo Serviço de Protocolo e Ligação da ONU é outra: nos primeiros anos, quando nenhum Estado queria inaugurar as falas, o Brasil se dispôs a fazê-lo em diversas ocasiões. A ONU registra que o país passou a abrir o Debate Geral de forma tradicional e que essa prática está estabelecida pelo menos desde a 10ª sessão, em setembro de 1955.
Em outras palavras, Aranha ajuda a explicar a visibilidade precoce do Brasil na história da Assembleia Geral, mas a origem da tradição de falar primeiro é apresentada pela ONU como resultado de prática diplomática repetida, não como uma homenagem formal a ele.
Por que os Estados Unidos falam em segundo lugar
Depois do Brasil, a segunda posição é reservada, por tradição, aos Estados Unidos. A razão é simples: a sede principal das Nações Unidas fica em Nova York, e os EUA são o país anfitrião. Assim, a abertura entre os Estados-membros segue o padrão Brasil em primeiro e Estados Unidos em segundo.
Isso também significa que a ordem não funciona como uma lista alfabética de 193 países. A partir do terceiro orador, entra em cena uma combinação de critérios operacionais e diplomáticos.
Como é definida a ordem dos demais países
A ONU descreve a montagem da lista como um processo que leva em conta vários fatores ao mesmo tempo. Entre os principais estão:
- Nível de representação: a condição de quem fará o discurso — por exemplo, chefe de Estado, chefe de governo ou outro representante de alto nível — influencia a organização da agenda.
- Equilíbrio geográfico: a Secretaria busca distribuir as intervenções de modo a evitar uma sequência excessivamente concentrada em uma única região.
- Preferência e disponibilidade: delegações indicam preferências de dia ou sessão, especialmente porque a presença física do principal representante pode depender de outros compromissos em Nova York.
- Momento do pedido de fala: a ordem em que a solicitação é registrada também entra na composição da lista.
Esses fatores não formam uma fórmula pública simples do tipo “primeiro chefes de Estado, depois chefes de governo e então ordem alfabética”. Eles são combinados para construir uma programação viável ao longo dos seis dias do Debate Geral. A própria prática das sessões recentes prevê uma lista de oradores atualizada, porque ajustes podem ocorrer à medida que delegações confirmam presença, representação e disponibilidade.
A regra geral e a prática específica do Debate Geral
O Regimento da Assembleia Geral fornece a base procedimental. A Regra 68 estabelece que nenhum representante pode discursar sem autorização do presidente da Assembleia e que, em princípio, o presidente chama os oradores na ordem em que manifestam o desejo de falar. No Debate Geral, porém, essa regra é operacionalizada por uma lista previamente coordenada, construída com as práticas e os critérios descritos pela ONU.
Por isso, a posição de um país não deve ser interpretada como ranking diplomático. Falar cedo ou tarde pode refletir nível de representação, logística, preferência, equilíbrio regional e o momento em que a delegação confirmou sua participação.
O que muda — e o que não muda — em 2026
Para a 81ª sessão, o ponto fixo continua sendo o início da sequência nacional com Brasil e Estados Unidos. Para os demais países, a ordem concreta depende da lista operacional do Debate Geral e pode receber atualizações até a semana de alto nível.
Há ainda uma confusão comum com a disposição física do plenário. A ONU sorteia a cada sessão qual Estado ocupará o primeiro assento no Salão da Assembleia Geral; a partir dele, os demais são posicionados em ordem alfabética em inglês. Na 81ª sessão, Marrocos ocupa o primeiro assento. Isso não significa que Marrocos será o primeiro país a discursar: assentos e ordem de fala são sistemas diferentes.
Como acompanhar a ordem real dos discursos
Para saber exatamente em que momento cada país falará, o mais seguro é acompanhar a programação e a lista de oradores publicadas pela ONU durante a semana de alto nível. A página oficial da 81ª sessão reúne as datas e modalidades dos encontros; a página do trabalho da Assembleia Geral concentra links para a agenda e as transmissões; e o material explicativo da ONU sobre o Debate Geral resume os critérios usados para organizar as falas.
Para a origem da tradição brasileira, a explicação em português da ONU Brasil confirma que o Brasil abre o Debate Geral desde 1955. Já a lista de presidentes anteriores da Assembleia Geral confirma o papel de Oswaldo Aranha em 1947, permitindo separar esse fato histórico da explicação institucional para a ordem de fala.
Assim, a resposta curta é: o Brasil fala primeiro por tradição diplomática consolidada; os Estados Unidos vêm em seguida como país anfitrião; e os demais lugares são montados por uma combinação de representação, geografia, preferência, disponibilidade e registro do pedido de fala. Em 2026, o mecanismo continua valendo, enquanto a sequência detalhada é tratada como uma agenda operacional sujeita a atualização.





