Patrimônio e Memória15/09/2026Núcleo de Fé e Cultura Sergipana8 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Divina Pastora: de Sevilha em 1703 à tradição religiosa de Sergipe

A devoção ganhou forma pública em Sevilha em 1703 e, por caminhos missionários e locais ainda parcialmente debatidos, tornou-se um dos símbolos religiosos mais fortes de Sergipe.

Nossa Senhora representada como Divina Pastora com cajado e cordeiros entre uma paisagem inspirada em Sevilha e uma igreja sergipana, simbolizando a trajetória da devoção.

A história de Nossa Senhora Divina Pastora conecta dois lugares separados pelo Atlântico: Sevilha, onde a devoção ganhou forma pública no início do século XVIII, e Sergipe, onde a invocação mariana passou a dar nome a uma cidade, a um santuário e a uma das manifestações religiosas mais marcantes do estado. Em 2026, a Arquidiocese de Aracaju assinalou os 323 anos do marco de 8 de setembro de 1703, quando Frei Isidoro de Sevilha apresentou publicamente uma imagem da Divina Pastora em um rosário realizado na cidade espanhola.

O ponto mais importante para compreender essa trajetória é separar o que está bem documentado do que pertence à tradição devocional ou a hipóteses históricas. A origem sevilhana e a atuação de Frei Isidoro são amplamente reconhecidas. Já a forma exata pela qual a devoção chegou ao povoado sergipano da Ladeira — depois chamado Divina Pastora — não está fechada em uma única cadeia documental. Fontes eclesiásticas e memórias locais associam a chegada aos missionários capuchinhos no fim do século XVIII, sobretudo ao ano de 1782; estudos acadêmicos, porém, recomendam tratar esse episódio com cautela.

O que aconteceu em Sevilha em 1703

A devoção nasceu no ambiente capuchinho de Sevilha. A tradição religiosa atribui a Frei Isidoro de Sevilha uma experiência espiritual na qual Maria teria sido contemplada com aparência de pastora, cercada por ovelhas. Relatos posteriores divergem sobre a data exata dessa inspiração ou visão, por isso é mais seguro tomar como marco público o acontecimento de 8 de setembro de 1703.

Nessa data, segundo a Arquidiocese de Aracaju e fontes ligadas à tradição capuchinha, Frei Isidoro organizou um rosário público em Sevilha e apresentou aos fiéis uma representação de Maria como Divina Pastora. A iconografia mostrava a Virgem em linguagem campestre: vestes de pastora, cajado ou elementos pastorais, ovelhas e referências a Jesus como Bom Pastor. A imagem transformava uma ideia teológica — Maria como mãe de Cristo, o Bom Pastor — em uma cena visual simples e facilmente reconhecível.

A força dessa representação ajudou a devoção a se espalhar. Confrarias e pregadores capuchinhos foram decisivos para sua circulação na Península Ibérica e, posteriormente, em outros territórios. A própria Ordem dos Frades Menores Capuchinhos registra o papel de Isidoro de Sevilha e de outros pregadores na difusão da invocação ao longo do século XVIII.

Como uma devoção espanhola pôde chegar a Sergipe

A expansão da Divina Pastora ocorreu em uma época em que ordens religiosas, missões populares, confrarias, imagens impressas, esculturas e devoções viajavam entre Europa e América portuguesa. Nesse contexto, a presença capuchinha oferece uma explicação plausível para a chegada da invocação a Sergipe.

A tradição preservada no Santuário de Nossa Senhora Divina Pastora afirma que a devoção chegou às terras sergipanas no fim do século XVIII e associa o ano de 1782 a esse processo. A memória local costuma atribuir aos missionários capuchinhos a introdução da Virgem Pastora na antiga povoação da Ladeira.

Mas a historiografia acrescenta uma ressalva importante: a presença de capuchinhos em Sergipe no século XVIII é conhecida, porém a documentação disponível não permite afirmar com absoluta segurança que uma missão específica tenha levado a imagem à Ladeira exatamente em outubro de 1782. Um estudo histórico publicado nos periódicos da UFPB chama atenção para essa lacuna. Outro trabalho sobre a igreja considera duas possibilidades: a difusão por missionários capuchinhos ou a presença de uma devoção familiar ligada ao patrocinador do templo, o coronel José Bernardino de Sá Souto Maior.

Assim, a formulação mais precisa é: a devoção já estava consolidando raízes locais no fim do século XVIII, e a tradição sergipana associa esse avanço às missões capuchinhas e ao marco de 1782, mas o mecanismo exato de chegada continua sujeito a investigação histórica.

1782: por que essa data é tão importante

O ano de 1782 aparece repetidamente na memória da devoção em Sergipe e também na própria paisagem urbana. A fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora Divina Pastora traz essa data. O inventário patrimonial do Património de Influência Portuguesa observa que a inscrição está ligada à construção do templo e descreve a igreja como um conjunto singular, com altar-mor, talha, pinturas e iconografia dedicada à invocação pastoril.

É importante não usar a inscrição como prova isolada de que a imagem chegou naquele mesmo ano. Ela funciona melhor como um marco material de uma fase em que o culto, o templo e a identidade da povoação começaram a se entrelaçar. Ao longo do século XIX, esse vínculo ficou cada vez mais explícito.

A criação da paróquia é datada de 1817 por fontes eclesiásticas. Em 1833, a localidade passou à condição de distrito com o nome de Nossa Senhora da Divina Pastora e, em 1836, tornou-se vila. O nome religioso deixou de ser apenas o título de uma devoção e passou a identificar institucionalmente o lugar.

Do templo local a um patrimônio religioso sergipano

A igreja tornou-se um dos principais suportes materiais dessa memória. Em 1943, a Igreja Matriz de Nossa Senhora Divina Pastora e seu acervo foram tombados em âmbito federal pelo IPHAN. O tombamento preservou não apenas a edificação, mas também um conjunto artístico que ajuda a contar como a devoção foi visualmente incorporada à vida local.

O templo reúne elementos que reforçam essa identidade, entre eles a representação da Divina Pastora no altar e a pintura do forro associada ao artista baiano José Teófilo de Jesus. Nesse espaço, devoção, arte sacra e memória urbana passaram a funcionar juntas: a igreja não é somente um cenário para o culto, mas um documento material da consolidação histórica da invocação em Sergipe.

1958: a peregrinação muda a escala da devoção

Se o século XVIII e o XIX explicam a implantação local da devoção, o século XX explica por que ela se tornou uma referência estadual. Em 24 de agosto de 1958, o então padre Luciano Cabral Duarte organizou, com jovens ligados à Juventude Universitária Católica, a primeira peregrinação de Riachuelo a Divina Pastora. O Santuário registra que o grupo inicial tinha menos de cinquenta estudantes e que a iniciativa foi inspirada por experiências de peregrinação conhecidas por Luciano Duarte na França.

Esse movimento mudou a escala da tradição. A devoção deixou de ser percebida apenas como patrimônio religioso de uma paróquia ou de uma cidade e passou a mobilizar fiéis de várias partes de Sergipe. Pesquisas acadêmicas descrevem a peregrinação como uma das maiores manifestações do catolicismo local e destacam seu papel na transformação de Divina Pastora em centro devocional.

Em 2014, o Estado de Sergipe reconheceu a Peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora Divina Pastora como Patrimônio Cultural de natureza imaterial. O reconhecimento oficial, registrado pela Arquidiocese de Aracaju e analisado em estudo da Universidade Católica de Pernambuco, mostra como a caminhada já ultrapassava a dimensão estritamente litúrgica: ela havia se tornado também uma referência de memória coletiva, pertencimento e cultura.

2017: de devoção popular a símbolo religioso do estado

Em outubro de 2017, os bispos das três dioceses da Província Eclesiástica de Aracaju proclamaram Nossa Senhora Divina Pastora como Padroeira do Estado de Sergipe. O anúncio foi feito diante de peregrinos no santuário e foi apresentado pela CNBB Regional Nordeste 3 como reconhecimento de uma devoção já profundamente enraizada na história religiosa sergipana.

No mesmo ano, a Lei estadual nº 8.302 incluiu o Dia de Nossa Senhora Divina Pastora no Calendário Cultural do Estado. Esses atos não criaram a tradição; eles formalizaram uma posição que havia sido construída ao longo de gerações por paróquias, famílias, peregrinos, promessas, festas e deslocamentos até o santuário.

Linha do tempo: de Sevilha a Sergipe

Data Marco O que ele representa
1703 Frei Isidoro difunde a Divina Pastora em Sevilha; em 8 de setembro ocorre a apresentação pública da imagem Marco público da devoção moderna
Fim do século XVIII / 1782 A tradição sergipana liga a chegada da invocação às missões capuchinhas e ao ano inscrito na fachada da matriz Implantação local, com detalhes ainda debatidos pela historiografia
1817 Criação da paróquia de Divina Pastora Consolidação eclesiástica da devoção no território
1833–1836 O lugar passa a usar oficialmente o nome Nossa Senhora da Divina Pastora e torna-se vila A devoção passa a identificar também a comunidade civil
1943 Tombamento federal da Igreja Matriz e de seu acervo Reconhecimento do valor histórico e artístico do templo
1958 Primeira peregrinação organizada por Luciano Cabral Duarte e jovens universitários Ampliação da devoção para uma escala estadual
2014 Peregrinação reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Sergipe Reconhecimento da prática como memória e cultura coletiva
2017 Bispos da Província Eclesiástica proclamam a Divina Pastora Padroeira de Sergipe Formalização eclesiástica de uma identidade devocional já consolidada
2026 323 anos do marco público de 1703 Atualização de uma tradição que continua sendo reinterpretada e transmitida

Por que a Divina Pastora se tornou parte da identidade sergipana

A força da devoção em Sergipe não se explica por um único momento de “chegada”. Ela resulta de camadas históricas. Primeiro, uma invocação mariana criada no ambiente capuchinho europeu encontrou espaço em uma sociedade católica conectada às redes religiosas do mundo luso-americano. Depois, a devoção foi fixada em um templo, em imagens e no próprio nome da cidade. Por fim, peregrinações do século XX transformaram essa memória local em experiência compartilhada por fiéis de todo o estado.

É essa combinação que ajuda a entender a passagem de uma devoção nascida em Sevilha para uma tradição sergipana. O elo não é apenas geográfico. Ele foi construído por circulação religiosa, patrimônio material, organização eclesial, memória familiar e peregrinação. A história documentada e a tradição oral nem sempre coincidem em todos os detalhes, mas juntas mostram como a Divina Pastora deixou de ser uma invocação importada para se tornar uma referência própria da cultura religiosa de Sergipe.

Fontes para aprofundar

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