O nível 2 de Ciências do PISA 2025 marca o ponto em que o estudante começa a usar conhecimentos científicos de forma funcional, e não apenas a reconhecer informações isoladas. Na nota do Brasil, a OCDE resume esse patamar dizendo que o aluno consegue reconhecer explicações corretas para fenômenos científicos familiares e, em casos simples, verificar se uma conclusão é válida com base nos dados fornecidos.
Nos resultados divulgados em 8 de setembro de 2026, 48% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior em Ciências, ante 74% na média da OCDE. Ciências foi o domínio principal do PISA 2025. A seguir, três situações próprias — criadas apenas para estudo e não retiradas de itens do PISA — mostram como esse tipo de raciocínio pode aparecer.
O que o nível 2 de Ciências exige no PISA 2025
Na escala de Ciências do PISA 2025, o nível 2 começa em 410 pontos. A OCDE o trata como um nível de referência de proficiência: é quando o estudante passa de simplesmente reconhecer ideias científicas para usar ciência em tarefas básicas de explicação, interpretação e avaliação.
Entre as capacidades descritas pela OCDE para esse patamar estão:
- distinguir uma explicação científica adequada de uma explicação não científica;
- dar uma explicação simples para um fenômeno cotidiano e familiar;
- interpretar relações simples em dados, inclusive perceber um valor fora do padrão;
- identificar, em gráfico ou tabela, qual evidência apoia uma afirmação;
- avaliar aspectos simples de uma investigação e usar um critério básico para julgar a credibilidade de uma fonte.
Isso não significa dominar conteúdos avançados nem resolver qualquer problema de Ciências. O ponto central é conseguir conectar uma afirmação à evidência disponível e evitar conclusões que vão além do que os dados permitem.
Um método curto para testar uma conclusão
- Leia a pergunta antes dos números. Descubra exatamente o que precisa ser comparado.
- Localize a evidência relevante. Nem todo dado da tabela é necessário para responder.
- Compare a conclusão com o que foi observado. Procure apoio direto nos valores, tendências ou diferenças.
- Cheque se houve exagero. Palavras como “sempre”, “causa”, “prova” ou “em qualquer situação” exigem evidência mais forte.
Nos exemplos abaixo, os dados são hipotéticos e foram construídos para praticar esse procedimento.
Exemplo 1: crescimento de plantas sob três condições de luz
Três grupos de mudas da mesma espécie foram acompanhados por 14 dias. A tabela mostra o crescimento médio observado no período.
| Condição | Crescimento médio |
|---|---|
| Luz solar | 7,2 cm |
| Luz artificial | 5,1 cm |
| Sombra | 2,9 cm |
Conclusão sustentada pelos dados
“Neste experimento, as mudas expostas à luz solar cresceram mais, em média, do que as mantidas na sombra.” A conclusão é compatível com a tabela: 7,2 cm é maior que 2,9 cm, e a frase limita o alcance ao experimento observado.
Conclusão que os dados não sustentam
“A luz solar é sempre a melhor condição para qualquer planta.” A tabela não permite essa generalização. Só há uma espécie, um período curto e três condições específicas. O dado apoia uma comparação local, não uma regra universal.
Exemplo 2: temperatura da água depois de desligar o aquecimento
Um recipiente com água foi retirado de uma fonte de calor, e a temperatura foi medida a cada cinco minutos.
| Tempo após retirar do calor | Temperatura |
|---|---|
| 0 min | 80 °C |
| 5 min | 68 °C |
| 10 min | 59 °C |
| 15 min | 52 °C |
| 20 min | 47 °C |
Conclusão sustentada pelos dados
“A temperatura diminuiu durante os 20 minutos observados.” Todos os registros sucessivos são menores que o anterior. A conclusão descreve uma tendência diretamente visível nos dados.
Conclusão que os dados não sustentam
“A água continuará esfriando no mesmo ritmo indefinidamente.” A tabela mostra apenas 20 minutos e, além disso, as quedas não têm exatamente o mesmo tamanho. Projetar o mesmo comportamento para qualquer tempo futuro exigiria outras evidências e um modelo adequado.
Exemplo 3: teste de um filtro para reduzir turbidez
Em três repetições, uma amostra de água foi medida antes e depois de passar pelo mesmo filtro. Valores menores indicam menor turbidez.
| Repetição | Antes do filtro | Depois do filtro |
|---|---|---|
| 1 | 18 unidades | 8 unidades |
| 2 | 17 unidades | 7 unidades |
| 3 | 19 unidades | 9 unidades |
Conclusão sustentada pelos dados
“Nas três repetições, a turbidez medida foi menor depois da filtragem.” A afirmação pode ser verificada linha a linha: 8 é menor que 18, 7 é menor que 17 e 9 é menor que 19.
Conclusão que os dados não sustentam
“O filtro torna qualquer água própria para beber.” Turbidez é apenas uma medida. A tabela não informa presença de microrganismos, substâncias químicas ou outros critérios de potabilidade. Portanto, essa conclusão acrescenta algo que não foi medido.
O que os três exemplos ensinam sobre o nível 2
Nos três casos, a parte mais importante não é fazer uma conta difícil. É controlar o alcance da conclusão. Uma resposta adequada precisa combinar o que foi perguntado, os dados relevantes e uma frase que não diga mais do que a evidência permite.
- No exemplo das plantas, a comparação é válida para o experimento, mas não para todas as espécies.
- No exemplo da temperatura, a tendência observada é clara, mas não autoriza prever o futuro indefinidamente.
- No exemplo do filtro, o indicador medido melhora, mas não basta para afirmar potabilidade.
Esse cuidado é coerente com a descrição do nível 2 do PISA 2025: interpretar dados simples, identificar evidência que sustenta uma afirmação e usar conhecimentos científicos básicos em situações familiares.
Como interpretar o resultado do Brasil
A nota do Brasil publicada pela OCDE informa que 48% dos estudantes atingiram o nível 2 ou superior em Ciências, enquanto a média da OCDE foi de 74%. O Inep também informou que o Brasil obteve média de 409 pontos em Ciências e que o domínio científico teve maior cobertura de itens em 2025.
A média nacional de pontos e a proporção de estudantes em cada nível respondem a perguntas diferentes. A média resume o desempenho do conjunto; já o percentual no nível 2 ou acima mostra quantos estudantes alcançaram pelo menos esse patamar descritivo. Por isso, não é correto interpretar o nível 2 como uma “nota de aprovação escolar” individual.
Como praticar esse raciocínio sem decorar respostas
- Use tabelas curtas e faça uma pergunta objetiva sobre o que os números mostram.
- Escreva duas conclusões: uma estritamente apoiada pelos dados e outra propositalmente exagerada.
- Sublinhe no conjunto de dados a evidência que justifica a conclusão correta.
- Pergunte o que não foi medido antes de aceitar afirmações sobre causa, segurança, eficácia ou universalidade.
Para consultar os descritores e o contexto oficial, veja o capítulo da OCDE sobre desempenho no PISA 2025, a nota específica do Brasil e a divulgação do Inep. Esses materiais explicam o nível de proficiência; os três exercícios deste artigo são exemplos didáticos originais.





