Competência 3 e Competência 4 se encontram na construção da argumentação, mas não medem a mesma coisa. A diferença mais útil para a revisão é esta: a Competência 3 observa a arquitetura do raciocínio — o que você escolhe defender, quais argumentos seleciona, em que ordem os desenvolve e como eles sustentam a tese —, enquanto a Competência 4 observa o encadeamento linguístico que liga frases, períodos e parágrafos.
Essa distinção aparece de forma explícita na Cartilha do Participante – A redação do Enem 2025, do Inep: a Competência 3 é associada ao planejamento e ao “projeto de texto”, enquanto a Competência 4 trata dos mecanismos linguísticos que promovem a coesão. Em julho de 2026, o Inep também publicou a página atualizada das Matrizes de Referência do Enem.
A diferença central: projeto de texto x coesão
| Na revisão, pergunte | Competência 3 | Competência 4 |
|---|---|---|
| Qual é o foco? | Estratégia argumentativa e coerência global. | Articulação linguística entre as partes. |
| O que o corretor percebe? | Tese, seleção de argumentos, ordem, progressão e desenvolvimento. | Conectivos, referências, retomadas, substituições e relações entre frases e parágrafos. |
| Problema típico | Ideias soltas, repetidas, contraditórias ou pouco desenvolvidas. | Trechos justapostos, conectivos inadequados, repetições e retomadas ambíguas. |
| Pergunta-chave | “Meu raciocínio forma um caminho claro até a defesa do ponto de vista?” | “O leitor entende como uma parte se liga linguisticamente à seguinte?” |
O que a Competência 3 realmente avalia
A formulação oficial da Competência 3 envolve selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Na prática, isso exige mais do que “ter bons argumentos”: é preciso que eles componham uma estratégia reconhecível.
O projeto de texto não precisa aparecer como um roteiro escrito antes da redação. Ele se torna visível no texto final quando o leitor consegue perceber uma escolha: a tese foi delimitada; os argumentos foram selecionados por uma razão; existe uma ordem de apresentação; cada parágrafo desenvolve uma função; e a conclusão responde ao caminho argumentativo construído.
Por isso, a Competência 3 é uma boa lente para perguntas como:
- meu ponto de vista está definido ou muda durante o texto?
- cada argumento acrescenta algo novo ou apenas repete a tese?
- a ordem dos parágrafos ajuda o leitor a acompanhar o raciocínio?
- os exemplos, dados e referências são explicados e conectados ao argumento?
- há lacunas que obrigam o leitor a completar sozinho a relação entre as ideias?
Um repertório pode ser verdadeiro e pertinente, mas ainda assim render pouco para a Competência 3 se for apenas citado e abandonado. O ganho aparece quando o repertório é interpretado e usado para sustentar o ponto de vista.
O que a Competência 4 realmente avalia
A Competência 4 volta a olhar para a construção da argumentação, só que por outra camada. O foco está nos recursos linguísticos que dão continuidade ao texto e explicitam relações de causa, oposição, consequência, conclusão, exemplificação, retomada e outras conexões necessárias.
Isso inclui operadores argumentativos como “porém”, “portanto” e “além disso”, mas não se resume a uma lista de conectivos. Também entram pronomes, expressões referenciais, substituições lexicais e outras formas de retomar informações sem produzir ambiguidade ou repetição excessiva.
O ponto decisivo é adequação. Um texto com muitos conectivos não é automaticamente mais coeso. Se “portanto” introduz algo que não é consequência, se “por outro lado” não apresenta contraste ou se a referência de “isso” fica vaga, a marca de ligação está presente, mas a relação construída não funciona bem.
Dois parágrafos contrastantes: onde olhar em cada competência
Exemplo A — projeto de texto perceptível, coesão ainda pouco trabalhada:
A escola pode reduzir a circulação de desinformação entre adolescentes ao ensinar verificação de fontes como prática regular. A desinformação se espalha quando o estudante recebe um conteúdo e não verifica a origem. A desinformação também se fortalece quando uma postagem é compartilhada apenas porque confirma uma opinião anterior. Ensinar a comparar autoria, data, evidências e contexto ataca justamente essas duas fragilidades e transforma a checagem em hábito.
Nesse parágrafo, a linha de raciocínio é reconhecível: há uma afirmação central, duas causas e um desdobramento que mostra por que a proposta é pertinente. Isso favorece a leitura pela Competência 3. Ao mesmo tempo, a repetição de “a desinformação” e a ligação pouco variada entre as frases mostram espaço para melhorar a Competência 4.
Exemplo B — muitas marcas de ligação, mas projeto argumentativo fraco:
Além disso, a desinformação é um problema importante. Nesse sentido, muitos jovens usam redes sociais. Por outro lado, a internet também possui informações. Portanto, é necessário discutir a desinformação, pois esse tema merece atenção.
A superfície traz vários conectivos, mas o parágrafo quase não progride: as ideias são genéricas, algumas relações lógicas são frágeis e não há desenvolvimento suficiente de uma causa, consequência ou justificativa. A presença de conectores, sozinha, não cria um bom projeto de texto. E como alguns deles não correspondem bem à relação entre as frases, nem mesmo a Competência 4 fica automaticamente resolvida.
Observação: os exemplos são didáticos e isolados. Na prova, as competências são avaliadas considerando a redação como um todo; um único parágrafo não permite prever uma nota exata.
Checklist separado para revisar a Competência 3
- Tese: consigo resumir em uma frase o ponto de vista que estou defendendo?
- Seleção: os argumentos escolhidos são realmente úteis para provar essa tese?
- Ordem: a sequência dos parágrafos é estratégica, e não apenas uma coleção de ideias?
- Desenvolvimento: explico por que cada exemplo, dado ou repertório sustenta o argumento?
- Progressão: cada parte avança a discussão sem contradições nem repetições vazias?
Checklist separado para revisar a Competência 4
- Entre parágrafos: a passagem de uma etapa do raciocínio para a outra está linguisticamente marcada quando necessário?
- Entre frases: as relações de causa, oposição, conclusão, adição ou exemplificação estão claras?
- Conectivos: cada operador expressa a relação correta, sem ser inserido apenas para “enfeitar”?
- Retomadas: pronomes e expressões como “esse problema”, “essa medida” ou “tal cenário” têm referência inequívoca?
- Variedade e precisão: evito repetição mecânica sem trocar uma palavra clara por um sinônimo artificial?
Três confusões que prejudicam a revisão
1. “Se o texto tem conectivos, a Competência 4 está garantida”
Não. O repertório de recursos coesivos precisa funcionar. A variedade é relevante, mas a relação semântica construída entre as partes também é.
2. “Se os parágrafos estão bem ligados, a Competência 3 também está resolvida”
Não necessariamente. Um texto pode fluir linguisticamente e ainda repetir ideias, desenvolver argumentos superficiais ou não deixar claro por que as informações escolhidas defendem a tese.
3. “Projeto de texto é só fazer um rascunho antes de começar”
O planejamento prévio ajuda, mas o que interessa à avaliação é o projeto que se deixa perceber na redação final: seleção, organização, progressão e desenvolvimento coerente dos argumentos.
Como as duas competências se complementam
A própria cartilha do Inep separa as duas camadas de forma útil: a Competência 3 observa a estrutura mais profunda do texto; a Competência 4, as marcas linguísticas da superfície que ajudam o leitor a acompanhar essa estrutura. Isso explica por que coerência e coesão trabalham juntas, mas não são sinônimos.
Na prática, uma boa revisão pode ser feita em duas passagens. Na primeira, ignore por alguns minutos os conectivos e verifique o mapa do raciocínio: tese, argumentos, ordem, progressão e conclusão. Na segunda, releia frase por frase e parágrafo por parágrafo para checar as ligações linguísticas. Separar as perguntas evita “consertar” um problema de argumento apenas acrescentando “além disso” ou “portanto”.
Pontuação e referência oficial
Cada uma das cinco competências da redação recebe de cada avaliador uma nota de 0 a 200 pontos, e a cartilha apresenta seis faixas possíveis por competência: 0, 40, 80, 120, 160 e 200. Para a Competência 3, os níveis distinguem principalmente a organização, a consistência e a defesa do ponto de vista; para a Competência 4, distinguem a qualidade da articulação e o repertório de recursos coesivos.
Para estudar pelo material institucional, use a Cartilha do Participante – A redação do Enem 2025 e a Matriz de Referência do Enem publicada pelo Inep em 2026. Na página de outros documentos do Enem, atualizada em julho de 2026, o Inep ainda lista a cartilha de redação de 2025 como o guia disponível para essa orientação específica.
Para guardar: a Competência 3 pergunta se a argumentação foi planejada e desenvolvida com lógica; a Competência 4 pergunta se essa argumentação foi linguisticamente encadeada com clareza e precisão. Revisar uma de cada vez torna mais fácil descobrir o que realmente precisa ser corrigido.





