Gramática e Estrutura13/09/2026Núcleo de Língua e Redação5 min de leituraAtualizado em 26/09/2026

Faz dois anos ou fazem dois anos? Por que “fazer” fica no singular ao indicar tempo

Entenda por que a norma-padrão recomenda “faz dois anos”, como reconhecer o uso impessoal de fazer e quando o verbo pode ir ao plural.

Mulher em uma mesa de estudos entre dois calendários e uma ampulheta, pensando nas formas “Faz?” e “Fazem?”.

A forma recomendada pela norma-padrão é “faz dois anos” quando fazer indica tempo decorrido. Nesse uso, o verbo é impessoal: a oração não tem sujeito com o qual ele deva concordar. Por isso, a duração pode estar no plural — “dois anos”, “três meses”, “dez dias” — e o verbo continua na 3ª pessoa do singular.

Resposta curta: é “faz dois anos”

Compare:

Construção Na norma-padrão Por quê?
Faz dois anos que moro aqui. Recomendada Fazer indica tempo decorrido e é impessoal.
Fazem dois anos que moro aqui. Não recomendada nesse sentido “Dois anos” não é sujeito do verbo; é a duração transcorrida.
Dois anos fazem diferença na aprendizagem. Recomendada Aqui “dois anos” é sujeito e fazer tem outro sentido: produzir/causar um efeito.

A diferença, portanto, não está simplesmente em haver uma expressão plural depois do verbo. O ponto decisivo é o sentido e a estrutura da oração.

Por que “dois anos” não leva o verbo ao plural?

Na concordância verbal comum, o verbo varia para concordar com o sujeito: “o aluno fez o exercício”; “os alunos fizeram o exercício”. Em “faz dois anos que...”, porém, não há um sujeito “dois anos” praticando a ação de fazer. A expressão mede o intervalo de tempo transcorrido.

É por isso que gramáticas e manuais tratam esse fazer como verbo impessoal. A orientação é mantê-lo na 3ª pessoa do singular. O Manual de Redação da Secretaria de Vigilância em Saúde, ao reproduzir a orientação do Manual de Redação da Presidência da República, registra o uso de fazer no sentido de tempo transcorrido sempre no singular. A Escola Fazendária do Paraná apresenta a mesma regra e exemplifica que “fazem cinco anos” não é a concordância esperada quando se fala de tempo decorrido.

Um teste prático: troque “faz” por “há”

Quando a frase indica um intervalo já transcorrido em relação ao presente, um teste útil é verificar se faz pode ser trocado por há sem mudar a ideia central:

  • Faz dois anos que moro aqui. → Há dois anos moro aqui.
  • Faz muito tempo que não nos vemos. → Há muito tempo não nos vemos.
  • Faz três semanas que o curso começou. → Há três semanas o curso começou.

Se a substituição funciona, há um forte sinal de que fazer está marcando tempo decorrido e, portanto, deve ficar no singular. O teste ajuda, mas não deve ser usado mecanicamente em qualquer frase: o valor temporal precisa ser realmente o de duração transcorrida.

O tempo verbal pode mudar; o singular permanece

“Impessoal” não quer dizer que o verbo tenha de ficar sempre no presente. Ele pode aparecer em outros tempos, desde que continue na 3ª pessoa do singular.

Ponto de referência Exemplo Leitura
Presente Faz dois anos que trabalho aqui. O intervalo chega até o presente.
Passado Naquela época, fazia dois anos que trabalhávamos ali. O intervalo é calculado a partir de um ponto no passado.
Evento concluído Ontem fez dois anos que a loja abriu. O marco de dois anos foi completado ontem.
Futuro Em dezembro, fará dois anos que o projeto começou. O intervalo será completado no futuro.

O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa mostra justamente que o ponto de referência temporal pode mudar: em um contexto passado, fazia pode ser a forma adequada. O que não muda é a ausência de concordância com a expressão de duração.

E nas locuções verbais? O auxiliar também fica no singular

Quando o fazer impessoal aparece em uma locução verbal, a impessoalidade se estende ao auxiliar. Por isso, na norma-padrão, prefira:

  • Deve fazer dois anos que ele se mudou.
  • Vai fazer três meses que começamos.
  • Pode fazer dez dias que o sistema está fora do ar.
  • Devia fazer muitas semanas que ninguém entrava na casa.

Formas como “devem fazer dois anos” ou “vão fazer três meses”, quando a locução apenas indica tempo decorrido, tratam indevidamente a expressão de duração como se fosse sujeito.

Quando “fazer” pode ir ao plural?

O verbo fazer é extremamente comum e, na maioria de seus outros sentidos, é pessoal. Se existe um sujeito, ele concorda normalmente com esse sujeito.

Exemplo Por que o plural é possível?
Os alunos fizeram dois exercícios. “Os alunos” é sujeito; fazer significa executar/produzir.
As crianças fizeram dois anos ontem. “As crianças” é sujeito; a frase fala da idade que elas completaram, não de uma oração impessoal de tempo decorrido.
Dois anos fazem diferença na formação. “Dois anos” é o sujeito; fazer diferença significa produzir efeito.
Essas medidas fazem sentido. “Essas medidas” é sujeito e determina a concordância.

Esse contraste evita uma regra simplista como “o verbo fazer fica sempre no singular”. Não fica. Ele permanece no singular especificamente quando é impessoal, como na indicação de tempo decorrido.

Três erros frequentes e como corrigi-los

  • “Fazem dois anos que não viajo.” Para tempo decorrido, use “Faz dois anos que não viajo”.
  • “Devem fazer dois meses que ele saiu.” Se a locução indica apenas tempo decorrido, use “Deve fazer dois meses que ele saiu”.
  • Aplicar a regra a qualquer frase com “anos”. Em “Dois anos fazem diferença”, há sujeito; por isso o plural é normal.

Em textos monitorados, também vale evitar acumular duas marcas equivalentes de passado. Em vez de “faz dois anos atrás”, prefira “faz dois anos” ou “dois anos atrás”, conforme a construção que melhor se encaixa na frase.

Roteiro de decisão sem decorar exemplos

  1. Pergunte qual é o sentido de fazer. A frase está medindo quanto tempo transcorreu desde um fato?
  2. Procure um sujeito real. Se ninguém “faz” algo e a expressão só mede duração, o uso tende a ser impessoal.
  3. Teste a troca por há quando a referência é o presente: “faz dois anos” ↔ “há dois anos”.
  4. Mantenha a 3ª pessoa do singular, mesmo se a duração estiver no plural: faz dois anos, fazia três meses, fará quatro semanas.
  5. Em locução verbal, deixe o auxiliar no singular: deve fazer, vai fazer, pode fazer.
  6. Se houver sujeito e outro sentido de fazer, concorde normalmente: “os alunos fizeram”, “dois anos fazem diferença”.

Em uma frase

Use “faz dois anos” quando estiver falando de tempo decorrido, porque nesse emprego fazer é impessoal e fica na 3ª pessoa do singular. Use formas plurais de fazer somente quando a construção tiver sujeito e o verbo estiver empregado em sentido pessoal.

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