A forma recomendada pela norma-padrão é “faz dois anos” quando fazer indica tempo decorrido. Nesse uso, o verbo é impessoal: a oração não tem sujeito com o qual ele deva concordar. Por isso, a duração pode estar no plural — “dois anos”, “três meses”, “dez dias” — e o verbo continua na 3ª pessoa do singular.
Resposta curta: é “faz dois anos”
Compare:
| Construção | Na norma-padrão | Por quê? |
|---|---|---|
| Faz dois anos que moro aqui. | Recomendada | Fazer indica tempo decorrido e é impessoal. |
| Fazem dois anos que moro aqui. | Não recomendada nesse sentido | “Dois anos” não é sujeito do verbo; é a duração transcorrida. |
| Dois anos fazem diferença na aprendizagem. | Recomendada | Aqui “dois anos” é sujeito e fazer tem outro sentido: produzir/causar um efeito. |
A diferença, portanto, não está simplesmente em haver uma expressão plural depois do verbo. O ponto decisivo é o sentido e a estrutura da oração.
Por que “dois anos” não leva o verbo ao plural?
Na concordância verbal comum, o verbo varia para concordar com o sujeito: “o aluno fez o exercício”; “os alunos fizeram o exercício”. Em “faz dois anos que...”, porém, não há um sujeito “dois anos” praticando a ação de fazer. A expressão mede o intervalo de tempo transcorrido.
É por isso que gramáticas e manuais tratam esse fazer como verbo impessoal. A orientação é mantê-lo na 3ª pessoa do singular. O Manual de Redação da Secretaria de Vigilância em Saúde, ao reproduzir a orientação do Manual de Redação da Presidência da República, registra o uso de fazer no sentido de tempo transcorrido sempre no singular. A Escola Fazendária do Paraná apresenta a mesma regra e exemplifica que “fazem cinco anos” não é a concordância esperada quando se fala de tempo decorrido.
Um teste prático: troque “faz” por “há”
Quando a frase indica um intervalo já transcorrido em relação ao presente, um teste útil é verificar se faz pode ser trocado por há sem mudar a ideia central:
- Faz dois anos que moro aqui. → Há dois anos moro aqui.
- Faz muito tempo que não nos vemos. → Há muito tempo não nos vemos.
- Faz três semanas que o curso começou. → Há três semanas o curso começou.
Se a substituição funciona, há um forte sinal de que fazer está marcando tempo decorrido e, portanto, deve ficar no singular. O teste ajuda, mas não deve ser usado mecanicamente em qualquer frase: o valor temporal precisa ser realmente o de duração transcorrida.
O tempo verbal pode mudar; o singular permanece
“Impessoal” não quer dizer que o verbo tenha de ficar sempre no presente. Ele pode aparecer em outros tempos, desde que continue na 3ª pessoa do singular.
| Ponto de referência | Exemplo | Leitura |
|---|---|---|
| Presente | Faz dois anos que trabalho aqui. | O intervalo chega até o presente. |
| Passado | Naquela época, fazia dois anos que trabalhávamos ali. | O intervalo é calculado a partir de um ponto no passado. |
| Evento concluído | Ontem fez dois anos que a loja abriu. | O marco de dois anos foi completado ontem. |
| Futuro | Em dezembro, fará dois anos que o projeto começou. | O intervalo será completado no futuro. |
O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa mostra justamente que o ponto de referência temporal pode mudar: em um contexto passado, fazia pode ser a forma adequada. O que não muda é a ausência de concordância com a expressão de duração.
E nas locuções verbais? O auxiliar também fica no singular
Quando o fazer impessoal aparece em uma locução verbal, a impessoalidade se estende ao auxiliar. Por isso, na norma-padrão, prefira:
- Deve fazer dois anos que ele se mudou.
- Vai fazer três meses que começamos.
- Pode fazer dez dias que o sistema está fora do ar.
- Devia fazer muitas semanas que ninguém entrava na casa.
Formas como “devem fazer dois anos” ou “vão fazer três meses”, quando a locução apenas indica tempo decorrido, tratam indevidamente a expressão de duração como se fosse sujeito.
Quando “fazer” pode ir ao plural?
O verbo fazer é extremamente comum e, na maioria de seus outros sentidos, é pessoal. Se existe um sujeito, ele concorda normalmente com esse sujeito.
| Exemplo | Por que o plural é possível? |
|---|---|
| Os alunos fizeram dois exercícios. | “Os alunos” é sujeito; fazer significa executar/produzir. |
| As crianças fizeram dois anos ontem. | “As crianças” é sujeito; a frase fala da idade que elas completaram, não de uma oração impessoal de tempo decorrido. |
| Dois anos fazem diferença na formação. | “Dois anos” é o sujeito; fazer diferença significa produzir efeito. |
| Essas medidas fazem sentido. | “Essas medidas” é sujeito e determina a concordância. |
Esse contraste evita uma regra simplista como “o verbo fazer fica sempre no singular”. Não fica. Ele permanece no singular especificamente quando é impessoal, como na indicação de tempo decorrido.
Três erros frequentes e como corrigi-los
- “Fazem dois anos que não viajo.” Para tempo decorrido, use “Faz dois anos que não viajo”.
- “Devem fazer dois meses que ele saiu.” Se a locução indica apenas tempo decorrido, use “Deve fazer dois meses que ele saiu”.
- Aplicar a regra a qualquer frase com “anos”. Em “Dois anos fazem diferença”, há sujeito; por isso o plural é normal.
Em textos monitorados, também vale evitar acumular duas marcas equivalentes de passado. Em vez de “faz dois anos atrás”, prefira “faz dois anos” ou “dois anos atrás”, conforme a construção que melhor se encaixa na frase.
Roteiro de decisão sem decorar exemplos
- Pergunte qual é o sentido de fazer. A frase está medindo quanto tempo transcorreu desde um fato?
- Procure um sujeito real. Se ninguém “faz” algo e a expressão só mede duração, o uso tende a ser impessoal.
- Teste a troca por há quando a referência é o presente: “faz dois anos” ↔ “há dois anos”.
- Mantenha a 3ª pessoa do singular, mesmo se a duração estiver no plural: faz dois anos, fazia três meses, fará quatro semanas.
- Em locução verbal, deixe o auxiliar no singular: deve fazer, vai fazer, pode fazer.
- Se houver sujeito e outro sentido de fazer, concorde normalmente: “os alunos fizeram”, “dois anos fazem diferença”.
Em uma frase
Use “faz dois anos” quando estiver falando de tempo decorrido, porque nesse emprego fazer é impessoal e fica na 3ª pessoa do singular. Use formas plurais de fazer somente quando a construção tiver sujeito e o verbo estiver empregado em sentido pessoal.





