Bíblia e Traduções11/09/2026Núcleo de Estudos Bíblicos6 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Salmo 51 ou Salmo 50? Por que a numeração muda entre Bíblia hebraica, Septuaginta e Vulgata

Entenda por que o mesmo salmo pode aparecer como 51 ou 50, onde a contagem muda e como conferir referências e versículos entre tradições bíblicas.

Livro antigo aberto sobre uma mesa de estudo, dividido entre Bíblia Hebraica, Septuaginta e Vulgata, com os números 51 e 50 destacados entre notas, livros e uma lupa.

Resposta curta: o Salmo 51 da numeração hebraica é o mesmo texto que aparece como Salmo 50 na numeração grega da Septuaginta e na tradição latina da Vulgata. A diferença não significa que um salmo tenha desaparecido. Ela nasce de decisões antigas sobre onde um salmo termina e o seguinte começa.

A introdução ao Saltério da USCCB resume o mecanismo: o Saltério hebraico tem 150 salmos, mas a Septuaginta divide alguns deles de modo diferente; a Vulgata latina tradicional seguiu, em grande parte, essa numeração grega. Por isso, em boa parte do livro, o número grego/latino fica uma unidade abaixo do hebraico.

Por que Salmo 51 também pode ser chamado de Salmo 50?

A primeira mudança importante acontece logo no início do Saltério. Na tradição hebraica, os atuais Salmos 9 e 10 são dois salmos. Na Septuaginta e na tradição latina antiga, eles foram transmitidos como uma única composição. A própria nota da USCCB para os Salmos 9–10 observa que, embora estejam separados no texto hebraico, formam um único poema acróstico e aparecem unidos nas tradições grega e latina.

Esse agrupamento desloca a contagem: depois desse ponto, o Salmo 11 hebraico corresponde ao Salmo 10 grego/latino; o 12 corresponde ao 11; e assim por diante. Quando se chega ao salmo penitencial que começa com o pedido de misericórdia, a numeração hebraica é 51, enquanto a numeração grega e a Vulgata tradicional usam 50.

A Nova Vulgata publicada pelo Vaticano torna a relação especialmente visível ao apresentar o cabeçalho “PSALMUS 51 (50)”: 51 é a numeração hebraica adotada como principal nessa edição; 50, entre parênteses, preserva a referência tradicional. Documentos do Vaticano também usam fórmulas como “Psalm 50 (51)”, mostrando as duas convenções lado a lado.

Tabela de correspondência: onde a contagem muda

Numeração hebraica Septuaginta / Vulgata tradicional O que aconteceu
1–8 1–8 Sem diferença de numeração.
9–10 9 Dois salmos hebraicos são contados como um na tradição grega/latina.
11–113 10–112 A numeração grega/latina fica uma unidade atrás.
114–115 113 Os dois salmos hebraicos são reunidos sob um único número na tradição antiga.
116:1–9 114 A primeira parte do Salmo 116 hebraico é contada separadamente.
116:10–19 115 A segunda parte do Salmo 116 hebraico recebe outro número.
117–146 116–145 A tradição grega/latina continua uma unidade atrás.
147:1–11 146 A primeira parte do Salmo 147 hebraico forma um salmo separado na contagem antiga.
147:12–20 147 A segunda parte recebe o número seguinte.
148–150 148–150 As duas contagens voltam a coincidir.

Esse quadro explica por que não basta aplicar uma regra simples como “subtraia 1” em todo o livro. Essa aproximação funciona em grandes trechos, mas falha nas zonas em que os salmos são unidos ou divididos. A Nova Vulgata ajuda a conferir esses pontos: ela mostra, por exemplo, Salmo 114 como “113 A”, Salmo 115 como “113 B”, Salmo 116 como correspondente a “114, 1–9; 115” e Salmo 147 como correspondente a “146, 1–11; 147”.

O exemplo do Salmo 51/50

Se uma Bíblia identifica a oração “Miserere” como Salmo 50 e outra como Salmo 51, a primeira pergunta não deve ser “qual delas está errada?”, mas “qual sistema de numeração esta edição está usando?”. O conteúdo pode ser o mesmo, mesmo quando o número no cabeçalho é diferente.

Na numeração hebraica usada por muitas traduções modernas, o salmo é o 51. Na numeração da Septuaginta e da Vulgata tradicional, é o 50. Por isso referências acadêmicas, litúrgicas e históricas às vezes aparecem como Sl 51 (50), Sl 50 (51) ou simplesmente com um dos dois números, dependendo da tradição editorial.

Por que os números dos versículos também podem mudar?

Há uma segunda diferença, independente da numeração do salmo inteiro: algumas edições contam a superscrição — o título antigo colocado antes do corpo do poema — como um versículo numerado, enquanto outras a deixam fora da contagem.

A USCCB observa que a numeração de versículos da New American Bible segue o hebraico e que traduções inglesas tradicionais podem ficar um versículo atrás justamente por não contarem as superscrições como versículo. No Salmo 51, a Nova Vulgata conta as linhas introdutórias sobre Davi e Natã como os versículos 1–2; por isso “Miserere mei, Deus” aparece como versículo 3. Em outra Bíblia, a mesma frase pode aparecer como versículo 1.

Assim, duas referências podem diferir em dois níveis: no número do salmo e no número do versículo. Um exemplo hipotético é uma obra citar “Sl 50,3” segundo uma tradição e outra indicar “Sl 51,1” para o começo do corpo poético. Para conferir, é mais seguro comparar as palavras do trecho e observar a convenção da edição.

Septuaginta, Vulgata e Nova Vulgata não devem ser confundidas

A Septuaginta é a antiga tradução grega das Escrituras hebraicas. Sua divisão dos salmos influenciou profundamente o cristianismo antigo e a tradição latina. A Vulgata histórica manteve a numeração associada à tradição grega em muitos usos, razão pela qual “Salmo 50” se tornou uma referência tradicional para o Miserere.

A Nova Vulgata, porém, não deve ser tratada como se repetisse visualmente a numeração antiga sem ajustes. Na edição do Vaticano, o número hebraico aparece como principal e a correspondência tradicional é indicada entre parênteses. Isso explica por que é possível encontrar “Psalmus 51 (50)” em um texto latino moderno do Vaticano e, ao mesmo tempo, encontrar documentos litúrgicos ou históricos que chamam a mesma composição de Salmo 50.

Como conferir uma referência sem achar que falta um salmo

  1. Veja qual tradição a edição declara seguir. Prefácio, notas editoriais e introdução aos Salmos costumam indicar se a numeração principal é hebraica ou grega/latina.
  2. Procure dupla numeração. Formas como “51 (50)” ou “50 [51]” são um aviso explícito de que há dois sistemas em circulação.
  3. Compare o início do texto. Se o conteúdo é o mesmo, a diferença provavelmente é de divisão e numeração, não de ausência.
  4. Confira as superscrições. Se o salmo coincide, mas o versículo não, veja se o título inicial está sendo contado.
  5. Nas faixas 9–10, 114–116 e 147, use uma tabela de correspondência. São justamente os pontos em que juntar ou separar poemas muda a sequência.

O que a dupla numeração realmente mostra

A dupla numeração dos Salmos é um exemplo de como uma mesma coleção textual pode ser organizada de maneiras distintas ao longo da transmissão manuscrita e das tradições de tradução. O ponto central não é que uma Bíblia “tenha” um salmo a mais ou a menos nesse caso: tanto o Saltério hebraico quanto a sequência principal da Septuaginta/Vulgata trabalham com uma coleção de 150 salmos, mas distribuem alguns limites internos de modo diferente.

Para leitura comparada, a regra mais útil é simples: trate o número como parte da convenção editorial, não como prova automática de que o texto mudou. No caso mais conhecido, Salmo 51 e Salmo 50 são duas referências tradicionais para a mesma composição; a conferência correta depende de identificar o sistema de numeração e, quando necessário, a forma como a edição conta as superscrições.

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