Ciência e Matemática31/08/2026Curadoria de Inovação7 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

A maçã de Newton aconteceu mesmo? O que ele contou e de onde veio a versão da cabeça

Relatos de Stukeley, Conduitt e Voltaire sustentam o núcleo da história da maçã, mas não a pancada na cabeça nem uma descoberta instantânea da gravitação.

Representação artística de Isaac Newton sentado sob uma macieira, olhando para uma maçã acima dele, com livros, anotações e uma pena ao lado.

Resposta curta: a história da maçã de Newton provavelmente tem um núcleo real, mas a versão escolar costuma juntar três afirmações diferentes. Há relatos próximos a Newton dizendo que a queda de uma maçã o levou a pensar sobre o alcance da gravidade. Esses relatos não dizem que a fruta bateu em sua cabeça. E a lei da gravitação universal não apareceu pronta naquele instante: ela foi resultado de um desenvolvimento que se estendeu por anos e culminou no Principia, publicado em 1687.

O que Newton teria contado sobre a maçã

A evidência mais famosa vem de William Stukeley, médico, antiquário e membro da Royal Society. Em suas memórias sobre Newton, Stukeley recordou uma conversa ocorrida em 15 de abril de 1726. Depois do almoço, os dois foram ao jardim e tomaram chá sob macieiras. Segundo Stukeley, Newton disse que aquela situação lhe lembrava o momento em que a ideia da gravitação lhe veio à mente, “ocasionada pela queda de uma maçã”, enquanto ele estava em atitude contemplativa.

O ponto central do relato não é uma pancada, mas uma pergunta: por que a maçã cai sempre em direção ao chão, e não para os lados ou para cima? Na narrativa de Stukeley, Newton teria ligado essa queda à atração exercida pela Terra e, “por graus”, estendido a ideia aos corpos celestes. O manuscrito está preservado e transcrito pelo Newton Project; a Royal Society também apresenta o episódio a partir de seu acervo.

Stukeley não é a única fonte próxima a Newton

John Conduitt, parente por casamento e integrante do círculo de Newton, deixou um rascunho biográfico no qual registra uma versão semelhante. Ele escreveu que, durante o período em que Newton se retirou de Cambridge por causa da peste, o matemático estava refletindo em um jardim quando pensou que a mesma gravidade que fazia uma maçã cair da árvore talvez se estendesse muito além da superfície da Terra — possivelmente até a Lua.

Esse rascunho, disponível no Newton Project, é especialmente útil porque não apresenta a história como uma descoberta instantânea e completa. O próprio texto menciona cálculos que inicialmente não concordavam com a hipótese e que foram retomados depois com uma medida melhor do tamanho da Terra.

Voltaire ajudou a transformar o episódio em uma história famosa

O episódio também entrou cedo na cultura impressa. Em 1727, ano da morte de Newton, Voltaire publicou uma versão breve segundo a qual Newton, caminhando em seu jardim, teve o primeiro pensamento de seu sistema de gravitação ao ver uma maçã cair de uma árvore. A formulação ajudou a tornar o episódio memorável e portátil: um grande sistema científico condensado em uma cena cotidiana.

É importante separar popularização de origem. Voltaire não inventou sozinho todo o episódio. Há material biográfico ligado ao círculo de Newton e, posteriormente, o testemunho de Stukeley de que Newton contou a história diretamente. O que Voltaire fez foi ajudar a colocar a maçã em circulação como uma cena exemplar da descoberta científica.

A maçã caiu na cabeça de Newton?

Não há apoio para isso nos relatos mais próximos de Newton. Stukeley fala da queda de uma maçã enquanto Newton estava sentado em contemplação. Conduitt fala de uma maçã caindo da árvore ao chão. A versão publicada por Voltaire também fala em ver uma maçã cair. Nenhum desses relatos diz que a fruta atingiu Newton.

Uma fonte importante para entender a transformação posterior do episódio é o ensaio “Poets, Philosophers, and Artists, Made by Accident”, de Isaac D’Israeli, incorporado a Curiosities of Literature. Ali surge uma versão muito mais teatral: Newton estaria lendo sob uma macieira quando uma fruta caiu e lhe deu uma forte pancada na cabeça. O texto pode ser consultado no Project Gutenberg.

No século XIX, o matemático e historiador Augustus De Morgan já tratava esse detalhe como um acréscimo à tradição e dizia não saber de onde D’Israeli havia tirado a pancada. Portanto, é mais seguro dizer que a maçã na cabeça é uma elaboração posterior, não um dado sustentado pelos relatos ligados a Newton.

Newton “descobriu a gravidade” naquele momento?

Essa é outra simplificação. Pessoas sabiam muito antes de Newton que objetos caíam. A questão científica decisiva era outra: a força que faz os corpos cair perto da superfície terrestre poderia ser a mesma que governa o movimento da Lua e dos planetas?

Nos relatos da maçã, o salto intelectual atribuído a Newton é justamente essa tentativa de conectar a queda terrestre aos movimentos celestes. Mas a formulação madura exigiu matemática, comparação com dados astronômicos e uma longa sequência de trabalho.

O que aconteceu entre a maçã e o Principia

Newton passou parte dos anos de 1665 e 1666 em Woolsthorpe, sua casa de família, durante o fechamento da Universidade de Cambridge provocado pela peste. O National Trust, responsável por Woolsthorpe Manor, associa esse período às investigações de Newton sobre gravidade, óptica e matemática.

Mesmo aceitando a lembrança da maçã como verdadeira em linhas gerais, ainda existem mais de duas décadas entre esse período e a publicação do Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, em 1687. Nesse intervalo, Newton continuou trabalhando em problemas de dinâmica e astronomia. Sua correspondência com Robert Hooke em 1679–1680 foi importante para o desenvolvimento de ideias sobre movimento e atração centrípeta.

Em 1684, Edmond Halley visitou Newton para discutir o problema das órbitas. O Newton Project registra que Newton enviou a Halley, meses depois, o tratado conhecido como De motu corporum in gyrum, um passo decisivo para o que viria a ser o Principia. A Royal Society destaca o papel de Halley em incentivar, organizar e viabilizar a publicação da obra.

Isso muda a leitura do episódio. A maçã, se ocorreu como Newton contou, pode ter funcionado como uma cena de insight ou como uma lembrança condensada do começo de uma linha de investigação. Ela não substitui o processo científico posterior.

O que cada versão da história permite afirmar

Afirmação O que as fontes permitem dizer
Newton viu uma maçã cair É plausível e apoiado por mais de um relato próximo ao círculo de Newton, incluindo Stukeley e Conduitt. Não existe, porém, um registro feito no próprio momento do suposto episódio em 1665–1666.
A maçã bateu na cabeça dele Não aparece nos relatos próximos de Newton. É uma dramatização posterior.
A queda levou Newton a pensar em gravidade É exatamente o núcleo do relato atribuído ao próprio Newton por Stukeley e aparece também em Conduitt.
A lei da gravitação universal nasceu pronta ali Não. O desenvolvimento foi gradual e prosseguiu por anos, com cálculos, correspondência, astronomia e trabalho matemático.
A maçã “descobriu” que as coisas caem Não. O problema de Newton era conectar a gravidade terrestre à dinâmica dos corpos celestes e formular uma teoria quantitativa.

Por que a versão da cabeça ficou tão forte

Há uma razão narrativa evidente, embora seja uma inferência e não um fato documentado: uma maçã simplesmente observada é menos visual do que uma maçã acertando a cabeça do personagem. A pancada transforma um processo intelectual longo em um instante de “eureca”, fácil de desenhar, ensinar e repetir.

Esse tipo de simplificação também muda o sentido histórico da descoberta. Em vez de mostrar ciência como acumulação de problemas, cálculos, debates e revisões, ela sugere que uma teoria aparece pronta por acidente. No caso de Newton, as próprias fontes usadas para sustentar a anedota apontam para algo mais interessante: a queda da maçã teria provocado uma pergunta, não fornecido uma teoria completa.

Então a história é mito ou fato?

A melhor resposta é: há um episódio historicamente plausível dentro de uma lenda muito ampliada. Newton contou a Stukeley uma história sobre uma maçã em queda e gravitação; Conduitt registrou uma versão semelhante; Voltaire ajudou a popularizá-la. Isso dá ao núcleo da anedota uma base melhor do que a de um mito inventado do nada.

Mas dois elementos populares não resistem ao mesmo teste. Não há boa evidência de que a maçã tenha atingido a cabeça de Newton, e não há base para tratar a cena como o momento em que a gravitação universal surgiu completa. O que as fontes mostram é uma origem mais realista: uma observação cotidiana associada a uma pergunta poderosa, seguida por décadas de trabalho até a construção de uma teoria capaz de ligar a queda de corpos na Terra ao movimento da Lua e dos planetas.

Fontes históricas e institucionais usadas

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