Ciência e Matemática04/08/2026Curadoria de Inovação11 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Fleming não fez a penicilina sozinho: da placa mofada ao remédio que mudou a medicina

A placa mofada foi o começo. Transformar a penicilina em tratamento exigiu Oxford, testes clínicos, engenharia industrial e uma ampla rede de colaboradores.

Linha do tempo da penicilina, da placa observada por Fleming em 1928 aos testes de Oxford, à produção industrial e ao Nobel de 1945.

Em setembro de 1928, Alexander Fleming examinava culturas de estafilococos em seu laboratório no Hospital St. Mary’s, em Londres, quando notou algo incomum. Uma das placas havia sido contaminada por um fungo e, ao redor dele, as colônias bacterianas tinham desaparecido ou deixado de crescer. Fleming não havia criado um medicamento naquele momento. Ele havia identificado um fenômeno que merecia ser investigado.

A cena da placa mofada tornou-se uma das histórias mais conhecidas da ciência. O problema é que sua versão popular costuma saltar diretamente da observação de Fleming para a penicilina pronta para salvar pacientes. Entre esses dois momentos houve mais de uma década de química, microbiologia, experimentação animal, pesquisa clínica, improvisação laboratorial, financiamento público e engenharia industrial.

Fleming nasceu em 6 de agosto de 1881, na Escócia. Em 6 de agosto de 2026, completam-se 145 anos de seu nascimento. A data oferece uma oportunidade não para diminuir sua contribuição, mas para contá-la com maior precisão: Fleming descobriu o efeito antibacteriano e deu nome à penicilina; transformá-la em tratamento exigiu o trabalho de muitas outras pessoas.

A placa mofada foi o começo, não o produto final

Fleming estudava bactérias do gênero Staphylococcus quando percebeu uma área clara ao redor do fungo contaminante. Ele cultivou o microrganismo separadamente e concluiu que o fungo liberava uma substância capaz de inibir ou destruir determinadas bactérias. Chamou essa substância de penicilina.

Em 1929, publicou o artigo “On the Antibacterial Action of Cultures of a Penicillium, with Special Reference to Their Use in the Isolation of B. influenzae”. O trabalho descrevia a ação contra diferentes bactérias e apresentava a penicilina como uma ferramenta útil para o laboratório. Também mencionava uma possível aplicação no tratamento de infecções causadas por microrganismos sensíveis. Portanto, é impreciso afirmar que Fleming não percebeu qualquer potencial médico. O que ele não conseguiu foi produzir uma preparação estável, purificada e em quantidade suficiente para demonstrar seu valor como tratamento sistêmico.

Seus assistentes Stuart Craddock e Frederick Ridley tentaram isolar o princípio ativo. Obtiveram apenas soluções brutas e instáveis. Outros pesquisadores, entre eles o bioquímico Harold Raistrick, também enfrentaram dificuldades. A substância perdia atividade durante os procedimentos de extração e não parecia adequada a uma produção regular. Aos poucos, a penicilina passou a ser vista principalmente como uma curiosidade útil aos bacteriologistas.

A contribuição de Fleming foi, ainda assim, decisiva. Uma contaminação não se transforma automaticamente em descoberta científica. Foi necessário reconhecer que o padrão ao redor do fungo era significativo, cultivar o microrganismo, comparar seus efeitos, testar diferentes bactérias, nomear a substância e publicar os resultados.

Mito versus evidência

 
Versão simplificada O que as evidências mostram
Fleming inventou sozinho a penicilina como medicamento. Fleming identificou e descreveu a substância. A transformação em medicamento ocorreu posteriormente, com a equipe de Oxford, pesquisadores clínicos, laboratórios públicos e empresas.
Foi apenas uma descoberta acidental. A contaminação foi acidental, mas perceber sua importância e investigá-la exigiu conhecimento bacteriológico e trabalho experimental.
Fleming não enxergou nenhum uso médico. Seu artigo mencionou uma possível aplicação terapêutica, embora o foco prático estivesse no uso laboratorial e ele não tenha produzido um tratamento viável.
Depois que a penicilina funcionou em animais, bastava fabricá-la. O aumento de escala exigiu novas cepas do fungo, meios de cultura melhores, tanques de fermentação, técnicas de extração e coordenação entre governo, universidades e indústria.

Da descoberta ao remédio: linha do tempo de 1928 a 1945

 
Ano Etapa O que aconteceu
1928 Descoberta Fleming observou que um fungo contaminante impedia o crescimento de bactérias em uma placa de cultura.
1929 Publicação O bacteriologista descreveu a ação da penicilina, suas limitações e possíveis usos em artigo científico.
1939 Retomada em Oxford Ernst Chain, Howard Florey e colegas iniciaram um programa experimental para extrair, estabilizar e testar a substância.
1940 Teste em animais Preparações de penicilina protegeram camundongos expostos a uma infecção bacteriana letal, oferecendo a primeira demonstração decisiva de ação no organismo.
1941 Tratamento de pacientes A equipe iniciou tratamentos sistemáticos em Oxford e publicou os resultados clínicos, mas continuava limitada pela escassez da substância.
1941–1944 Produção em escala Pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e empresas farmacêuticas desenvolveram meios de cultura, cepas e processos industriais mais produtivos.
1944 Disponibilidade militar A produção aumentou o suficiente para abastecer as forças aliadas em grandes operações da Segunda Guerra Mundial.
1945 Reconhecimento Fleming, Chain e Florey dividiram o Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da penicilina e por seu efeito curativo.

Oxford resolveu o problema que a placa não resolvia

Chain e Florey retomaram uma pesquisa quase parada

No fim da década de 1930, o bioquímico Ernst Boris Chain e o patologista Howard Walter Florey estudavam substâncias produzidas por microrganismos. A penicilina chamou a atenção justamente por sua ação contra estafilococos e pelas dificuldades químicas que haviam impedido seu desenvolvimento.

O programa começou de forma estruturada em 1939, na Escola de Patologia Sir William Dunn, da Universidade de Oxford. Não se tratava apenas de repetir o experimento de Fleming. A equipe precisava descobrir como cultivar o fungo de modo previsível, medir a potência da substância, separá-la do líquido de cultura, reduzir as impurezas, verificar sua toxicidade e testar se funcionaria dentro de um organismo vivo.

Norman Heatley construiu a ponte entre a bancada e os testes

Norman Heatley foi um dos integrantes mais importantes e menos lembrados do projeto. Ele desenvolveu um método sensível para medir a atividade da penicilina e ajudou a criar procedimentos de extração nos quais a substância passava entre solventes e água sem perder toda a sua atividade. Também projetou equipamentos e recipientes que permitiram cultivar mais fungo no espaço disponível.

Edward Abraham trabalhou na purificação e, posteriormente, na determinação da estrutura química. Arthur Gordon Sanders operou equipamentos de extração. Margaret Jennings participou das avaliações de toxicidade. A equipe reunia competências diferentes porque nenhum método isolado resolveria o problema inteiro.

A produção ainda era extremamente ineficiente. O laboratório utilizou recipientes improvisados e depois vasos cerâmicos especialmente projetados. Seis mulheres foram contratadas para cuidar das culturas e da produção contínua. Conhecidas como “Penicillin Girls”, elas eram Ruth Callow, Claire Inayat, Betty Cooke, Peggy Gardner, Megan Lancaster e Patricia McKegney.

Os camundongos mostraram que a substância podia tratar uma infecção

Em 1940, a equipe finalmente acumulou penicilina suficiente para um teste de proteção em animais. Na experiência mais conhecida, oito camundongos receberam uma dose letal de estreptococos. Os quatro tratados com penicilina sobreviveram; os quatro não tratados morreram. O resultado indicava que a substância não apenas agia em uma placa: ela podia combater uma infecção dentro do organismo.

O estudo foi publicado no periódico The Lancet em 24 de agosto de 1940. A autoria incluía Chain, Florey, Heatley, Jennings, Sanders e outros integrantes, refletindo a natureza coletiva do trabalho.

O teste humano revelou tanto o poder quanto a escassez

Em janeiro de 1941, a equipe realizou uma injeção de teste para avaliar a segurança da preparação. O tratamento sistemático de Albert Alexander, um policial de 43 anos com uma infecção grave, começou em 12 de fevereiro. Seu estado melhorou, mas o pequeno estoque de penicilina acabou antes que a infecção fosse eliminada. Mesmo recuperando parte da substância excretada na urina, a equipe não conseguiu manter o tratamento, e Alexander morreu semanas depois.

O caso é frequentemente chamado de “primeiro tratamento com penicilina”, mas a formulação mais precisa é primeiro tratamento sistêmico e sistemático do programa de Oxford. Experimentos e aplicações locais anteriores não haviam fornecido a mesma demonstração clínica.

Outros pacientes foram tratados à medida que novas quantidades se tornavam disponíveis. Charles Fletcher conduziu os tratamentos na Radcliffe Infirmary sob a supervisão de Florey. Mary Ethel Florey coordenou parte dos ensaios clínicos realizados em hospitais civis e militares. Os resultados publicados em 1941 estabeleceram a eficácia da penicilina contra infecções que, até então, podiam ser fatais.

O problema científico havia mudado. Já não era necessário perguntar apenas se a penicilina funcionava. Era preciso descobrir como produzir milhares e, depois, milhões de doses.

Produzir em escala foi outra descoberta

A indústria britânica estava mobilizada pela Segunda Guerra Mundial e não dispunha de capacidade imediata para criar um novo processo produtivo. Em 1941, Florey e Heatley viajaram aos Estados Unidos em busca de apoio. Chegaram ao Northern Regional Research Laboratory, laboratório do Departamento de Agricultura em Peoria, Illinois, que tinha experiência com fermentação e aproveitamento de subprodutos agrícolas.

Em Peoria, Andrew Moyer e outros pesquisadores aumentaram o rendimento utilizando lactose e corn steep liquor, um líquido rico em nutrientes proveniente do processamento do milho. O laboratório também procurou cepas do fungo que produzissem mais penicilina. Uma das melhores foi encontrada em um melão deteriorado comprado em um mercado local — episódio associado à funcionária Mary Hunt.

A contribuição norte-americana não veio de uma única pessoa ou empresa. O trabalho reuniu o laboratório do Departamento de Agricultura, órgãos de coordenação do governo e companhias como Merck, Squibb, Lilly, Pfizer, Abbott e Lederle. Parte do conhecimento era compartilhada para acelerar a produção durante a guerra, enquanto cada instituição também desenvolvia seus próprios equipamentos e procedimentos.

A fermentação em tanques profundos tornou possível cultivar o fungo em volumes muito maiores, mas criou dificuldades de aeração, temperatura, espuma, esterilidade e extração. Em 1º de março de 1944, a Pfizer abriu em Brooklyn uma fábrica com 14 tanques de aproximadamente 7.500 galões cada. A instalação tornou-se uma das principais fornecedoras do medicamento, mas fazia parte de uma rede industrial mais ampla.

Até 1944, a produção havia crescido o suficiente para que a penicilina acompanhasse as tropas aliadas na campanha europeia. A passagem do laboratório para a fábrica não foi uma etapa automática: foi um avanço de microbiologia industrial e engenharia química tão indispensável quanto os testes realizados em Oxford.

Os colaboradores que não cabem na versão do “gênio solitário”

A narrativa completa inclui pessoas que executaram trabalhos diferentes e igualmente necessários:

  • Alexander Fleming observou o fenômeno, identificou sua ação antibacteriana, deu nome à penicilina e publicou os primeiros resultados.
  • Stuart Craddock e Frederick Ridley participaram das tentativas iniciais de isolamento.
  • Ernst Chain e Howard Florey organizaram e dirigiram o programa que demonstrou o potencial terapêutico.
  • Norman Heatley desenvolveu ensaios, técnicas de extração e equipamentos fundamentais.
  • Edward Abraham, Margaret Jennings e Arthur Gordon Sanders trabalharam na purificação, toxicidade e operação do processo.
  • Charles Fletcher e Mary Ethel Florey participaram da passagem para os testes clínicos.
  • As “Penicillin Girls” mantiveram a produção experimental funcionando em Oxford.
  • Andrew Moyer, Kenneth Raper, Mary Hunt e colegas de Peoria ajudaram a aumentar o rendimento e encontrar cepas mais produtivas.
  • Cientistas, engenheiros e trabalhadores de diferentes empresas transformaram o processo experimental em produção industrial.

Dorothy Crowfoot Hodgkin também integra essa história. Em 1945, sua análise por cristalografia de raios X confirmou a estrutura molecular da penicilina, solucionando uma disputa química importante e abrindo caminho para pesquisas posteriores sobre antibióticos.

Por que o Nobel ficou com Fleming, Chain e Florey

O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1945 foi dividido entre Alexander Fleming, Ernst Boris Chain e Howard Walter Florey “pela descoberta da penicilina e seu efeito curativo em várias doenças infecciosas”. A própria apresentação do prêmio descreveu a história como um exemplo de diferentes métodos científicos trabalhando para um propósito comum.

O prêmio reconheceu três figuras centrais, mas não constitui uma lista completa de quem tornou o medicamento possível. Heatley, Abraham, Jennings, Fletcher, Ethel Florey, os trabalhadores de Oxford, os pesquisadores de Peoria e os engenheiros industriais ficaram fora da premiação formal.

Isso não significa que o crédito dado a Fleming seja indevido. Sem sua observação, seus experimentos e sua publicação, a equipe de Oxford talvez não tivesse encontrado aquele ponto de partida. O erro está em transformar um ponto de partida em toda a viagem.

Afinal, quem “fez” a penicilina?

A resposta depende do verbo usado.

Fleming descobriu que o fungo produzia uma substância antibacteriana e estabeleceu os primeiros conhecimentos sobre ela.

A equipe de Oxford desenvolveu métodos para extrair, concentrar, avaliar e testar a penicilina como tratamento.

Médicos e pesquisadores clínicos demonstraram seus efeitos em pacientes e identificaram limitações práticas.

Laboratórios públicos e empresas produziram em escala, criando meios de cultura, cepas, tanques e processos de purificação capazes de fornecer o medicamento em grandes quantidades.

O Nobel reconheceu três protagonistas, enquanto a história documentada revela uma rede muito maior.

A formulação mais fiel, portanto, não é que Fleming “não teve importância” nem que “inventou tudo sozinho”. É esta: Fleming viu e investigou o fenômeno; transformar sua observação em remédio exigiu anos, uma equipe internacional e produção industrial.

O legado mais útil dessa história

A história da penicilina costuma ser usada para celebrar o acaso. Sua lição mais profunda, porém, está na colaboração.

Uma placa contaminada produziu uma pista. A bacteriologia transformou a pista em uma descoberta. A bioquímica produziu preparações testáveis. A experimentação mostrou que elas agiam em organismos vivos. A medicina clínica demonstrou que poderiam tratar pacientes. A microbiologia industrial e a engenharia criaram um produto disponível em escala.

Grandes avanços científicos podem ter momentos de percepção individual, mas raramente terminam neles. São necessários métodos para confirmar a observação, equipes para resolver problemas diferentes, instituições dispostas a financiar o trabalho e sistemas produtivos capazes de levar o resultado até as pessoas.

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