Geografia10/09/2026Núcleo de Humanidades8 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Equal Earth x Mercator: o que a resolução da ONU muda nos mapas — e o que não muda

Entenda por que a ONU passou a incentivar mapas de área equivalente, como Equal Earth, e por que Mercator continua útil em navegação e mapas digitais.

Dois mapas-múndi lado a lado, um oval com áreas continentais mais equilibradas e outro retangular com regiões polares ampliadas, diante de um ambiente de assembleia e instrumentos de navegação.

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução A/RES/80/307, originada do projeto A/80/L.104, sobre representação cartográfica global. O texto foi adotado por 164 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções. O efeito prático não é a criação de um “mapa oficial obrigatório” nem a proibição da projeção de Mercator: a resolução incentiva representações que preservem melhor o tamanho relativo das regiões, incluindo a Equal Earth e outras projeções equivalentes em área, especialmente quando comparar superfícies é importante.

A diferença essencial é esta: Equal Earth prioriza área; Mercator prioriza ângulos e rumos. Como não existe forma de transformar a superfície curva da Terra em um plano sem distorcer alguma propriedade, a escolha correta depende do que o mapa precisa fazer. A resolução da ONU muda sobretudo a discussão sobre mapas-múndi de uso geral, educação e comunicação pública; ela não torna inúteis mapas de Mercator usados para finalidades em que suas propriedades geométricas continuam relevantes.

O que a resolução da ONU realmente muda

O texto aprovado, intitulado “Correct the map: rebalancing global cartographic representation and promoting equitable representation of the world’s regions, particularly Africa”, dá peso político e institucional a uma mudança que cartógrafos discutem há décadas: evitar a projeção de Mercator como se ela fosse uma representação neutra do tamanho dos continentes.

A decisão é não vinculante. Em outras palavras, ela não cria uma obrigação jurídica para governos, escolas, empresas de tecnologia ou organizações internacionais adotarem um único desenho do planeta. O que faz é recomendar maior atenção às distorções de área e incentivar o uso de projeções de área equivalente quando a comparação de tamanhos for relevante. A votação e o alcance da medida foram registrados pela Reuters e pela própria ONU em seus registros da 114ª reunião plenária da 80ª sessão.

Há ainda um ponto que evita uma interpretação simplista: a própria discussão reconhece que projeções diferentes servem a objetivos diferentes. Portanto, “corrigir o mapa” não significa escolher uma projeção perfeita — ela não existe —, mas explicitar qual propriedade foi preservada e qual foi sacrificada.

Equal Earth x Mercator: área, forma, direção e uso

Critério Equal Earth Mercator Consequência prática
Área É uma projeção equivalente em área: mantém as proporções relativas das superfícies. A área se amplia progressivamente à medida que a latitude aumenta, produzindo forte exagero perto dos polos. Equal Earth é mais adequada quando o leitor precisa comparar o tamanho de países, continentes ou fenômenos distribuídos por área.
Forma Não preserva perfeitamente os ângulos nem todas as formas locais; aceita deformações para manter a área. É conforme: preserva ângulos locais e, em escalas pequenas, formas locais melhor do que uma projeção equivalente em área. Um mapa “melhor” para área não é automaticamente melhor para forma.
Direção Não transforma, de modo geral, rumos constantes em linhas retas. Linhas de rumo constante podem aparecer como retas, uma propriedade historicamente útil à navegação. A vantagem de Mercator não é mostrar o tamanho real dos continentes, mas facilitar certos problemas de direção e rumo.
Uso típico Planisférios, educação, mapas temáticos globais e comparações em que a área relativa importa. Cartas e aplicações em que conformidade angular e rumos têm valor; sua variante Web Mercator também é amplamente usada em mapas digitais. As duas projeções podem continuar existindo porque respondem a necessidades diferentes.

A documentação do projeto PROJ sobre Equal Earth define a projeção como pseudocilíndrica e equivalente em área, criada para mapas-múndi. Já a documentação de Mercator a classifica como cilíndrica e conforme e destaca que linhas de rumo constante são representadas como retas.

Por que África e Groenlândia viraram o exemplo mais citado

O contraste mais intuitivo está na comparação entre África e Groenlândia. A África tem aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia, mas, em um planisfério de Mercator, as duas podem parecer de tamanho semelhante. Isso acontece porque a escala da projeção cresce com a latitude: regiões mais próximas dos polos são ampliadas muito mais do que regiões próximas ao Equador.

Equal Earth corrige especificamente esse problema de proporção de área. Ao comparar continentes no mesmo mapa, a superfície desenhada mantém a relação real entre eles. Isso não significa que cada contorno fica “sem distorção”. A forma de algumas regiões muda, porque preservar área exige sacrificar outras propriedades.

Esse é também o cuidado adotado por análises recentes, como a reportagem da Nature: mapas planos inevitavelmente alteram área, forma, distância ou direção em alguma medida. A questão é saber qual distorção é aceitável para o uso pretendido.

Equal Earth não é “a Terra verdadeira” em duas dimensões

É comum resumir o debate dizendo que Equal Earth é “mais precisa”. Isso só é correto com uma qualificação: ela é mais fiel às áreas relativas. Não existe um planisfério que preserve ao mesmo tempo, em toda a superfície terrestre, área, forma, distância e direção.

Por isso, a mudança defendida pela ONU é mais bem entendida como uma melhoria de adequação cartográfica. Para um mapa escolar que convida o aluno a comparar o tamanho de África, Europa, América do Sul e Groenlândia, uma projeção equivalente em área evita uma distorção muito relevante. Para um problema em que ângulos ou rumos constantes são essenciais, uma projeção conforme pode ser mais apropriada.

A própria Equal Earth foi apresentada em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny como uma projeção equivalente em área inspirada visualmente na Robinson. Seu objetivo não foi eliminar todas as deformações, mas combinar proporção de área correta com uma aparência de planisfério considerada mais familiar e equilibrada. O trabalho original pode ser consultado pelo DOI do artigo técnico.

O que pode mudar em mapas escolares e materiais de divulgação

É nesse campo que a resolução tem maior potencial de efeito visível. Um atlas escolar, infográfico, mapa de livro didático ou visualização global que usa Mercator sem necessidade técnica pode induzir o leitor a superestimar as dimensões de Canadá, Rússia, Groenlândia e outras áreas de altas latitudes e, por comparação, subestimar regiões próximas ao Equador.

Adotar Equal Earth — ou outra projeção de área equivalente — torna mais direta a comparação de superfícies. Isso é especialmente útil em aulas sobre população, cobertura vegetal, clima, uso da terra, produção agrícola, biodiversidade ou qualquer tema em que a extensão territorial faça parte do raciocínio.

Mas a melhor prática pedagógica não é apenas trocar uma imagem por outra. É mostrar por que o mapa mudou: qual propriedade cada projeção preserva, que deformações permanecem e por que a finalidade do mapa deve orientar a escolha. Essa leitura crítica evita transformar Equal Earth em um novo padrão “neutro” apresentado sem explicação.

O que não muda na navegação

A resolução não elimina a utilidade histórica e técnica de Mercator em navegação. A projeção permite representar linhas de rumo constante como retas, o que explica sua importância em cartas náuticas e em problemas de direção. A Reuters registrou explicitamente que a resolução não desafia o uso de Mercator para navegação marítima e aérea.

Isso ajuda a separar duas perguntas que muitas vezes são misturadas:

  • Qual mapa é melhor para comparar o tamanho dos continentes? Uma projeção equivalente em área, como Equal Earth, é a escolha mais coerente.
  • Qual projeção é útil quando ângulos e rumos constantes precisam ser preservados? Mercator mantém propriedades que podem ser valiosas nesse contexto.

Logo, a resolução não declara que Mercator está “errada”. Ela contesta o uso de Mercator como planisfério geral quando o leitor interpreta visualmente o tamanho das regiões.

E os mapas de celular e da web?

Também é importante distinguir a projeção Mercator clássica da Web Mercator ou Pseudo-Mercator, uma variante que se tornou padrão de fato para renderização de muitos mapas online. A documentação do PROJ sobre Web Mercator descreve essa variante e seu uso difundido em aplicações de mapas na web.

Em um mapa digital com zoom, o usuário normalmente observa uma região pequena de cada vez. Nessa situação, o objetivo técnico do sistema — renderização rápida em mosaicos, continuidade visual e navegação interativa — é diferente do de um mapa-múndi escolar exibido inteiro. Portanto, a adoção de Equal Earth em planisférios não implica que todos os serviços digitais devam trocar imediatamente a projeção de suas bases cartográficas.

O efeito mais provável da resolução é estimular escolhas mais conscientes: projeções equivalentes em área para visões globais em que o tamanho relativo importa e outras projeções para tarefas técnicas específicas.

O que a resolução não altera

  • Não muda fronteiras internacionais. Projeção e delimitação política são questões diferentes.
  • Não cria um único mapa mundial obrigatório. O texto é uma resolução da Assembleia Geral e não uma regra técnica compulsória.
  • Não torna Equal Earth perfeita. Ela preserva área, mas continua distorcendo outras propriedades.
  • Não proíbe Mercator. Seu uso continua justificável onde suas características geométricas atendem ao objetivo do mapa.
  • Não significa que todo mapa online será redesenhado. Sistemas digitais podem usar projeções diferentes conforme escala, função e infraestrutura.

Como comparar mapas sem cair na ideia de “certo x errado”

Ao olhar um planisfério, quatro perguntas ajudam mais do que perguntar qual mapa é “verdadeiro”:

  1. Qual propriedade importa aqui? Área, forma, distância, direção ou equilíbrio visual?
  2. Qual projeção foi usada? Se ela não estiver identificada, vale procurar a fonte ou a legenda técnica.
  3. O uso combina com a projeção? Um mapa escolar de comparação territorial pede escolhas diferentes de uma carta de navegação.
  4. O que pertence à projeção e o que pertence aos dados? Fronteiras, nomes, cores, categorias e datas são decisões separadas da transformação geométrica.

A resolução de setembro de 2026 é relevante justamente por deslocar o debate do hábito para a finalidade. Equal Earth oferece uma resposta melhor quando a pergunta é “quanto espaço cada região realmente ocupa em relação às outras?”. Mercator continua oferecendo vantagens quando a pergunta envolve propriedades para as quais foi desenhada. A mudança mais importante não é substituir um mapa por outro em todos os lugares, mas deixar de tratar qualquer projeção como se não tivesse escolhas e distorções embutidas.

Fontes e referências

Tópicos deste artigocartografiaEqual Earthmapas-múndiMercatorprojeções cartográficasresolução da ONUEqual Earth x Mercatorprojeção Equal Earthprojeção de Mercatorresolução da ONU sobre mapasmapas de área equivalentedistorção de mapas