Ninguém contou 20 milhões de espécies de insetos. O que os cientistas fizeram foi construir uma cadeia de inferências: capturar uma amostra excepcionalmente grande, separar os exemplares em unidades genéticas, estimar quantas espécies escaparam da coleta, corrigir a subamostragem local e, por fim, extrapolar o resultado para o planeta.
Essa distinção é essencial para entender a estimativa de 14 a 20 milhões de espécies de insetos publicada online pela PNAS em 29 de junho de 2026. O intervalo é apresentado pelos autores como um conjunto de estimativas de limite inferior, obtidas com diferentes grupos usados na extrapolação. Não é uma contagem observada nem um único intervalo de confiança que garanta que o total verdadeiro esteja necessariamente entre esses dois números.
O estudo ganhou um contraponto oportuno em 4 de agosto de 2026, quando a Nature destacou um grande inventário de insetos na Amazônia, realizado do solo ao dossel em centenas de pontos. A manchete da revista afirma que uma pequena área da floresta provavelmente abriga cerca de 40 mil espécies. Esse trabalho amazônico e o estudo da PNAS ajudam a responder à mesma pergunta — quantas espécies de insetos existem? —, mas operam em escalas e com objetivos diferentes. Inventário local e estimativa global não são a mesma pesquisa
O projeto noticiado pela Nature busca documentar a diversidade de uma região da Amazônia. Ele mede como as espécies se distribuem entre o solo, os estratos intermediários e as copas das árvores, ambientes que podem abrigar conjuntos muito diferentes de insetos.
O estudo da PNAS, por sua vez, parte de dados coletados na Área de Conservação Guanacaste, no noroeste da Costa Rica, para produzir uma estimativa global. Sua pergunta principal não é quais espécies vivem na Amazônia, mas quantas espécies de insetos podem existir no mundo quando se consideram as espécies que as armadilhas não detectaram.
| Aspecto | Inventário amazônico | Estudo da PNAS |
|---|---|---|
| Escala | Uma região da Amazônia, em centenas de pontos | Área de Conservação Guanacaste e extrapolação mundial |
| Objetivo | Descobrir quais e quantas espécies ocorrem localmente | Estimar um limite inferior para a riqueza global |
| Coleta | Diferentes alturas, do solo ao dossel | Armadilhas Malaise no nível do solo e criação de lagartas |
| Resultado | Inventário e estimativa da diversidade regional | Aproximadamente 14,2 a 20,3 milhões de espécies no mundo |
| Principal risco interpretativo | Confundir uma área estudada com toda a Amazônia | Tratar extrapolação como contagem direta |
No Brasil, o INCT-BioDossel integra esse esforço de investigação da fauna das copas. O projeto reúne taxonomia, biologia molecular e armadilhas instaladas a diferentes alturas, incluindo 8, 16, 24 e 32 metros, para descobrir quais espécies aparecem exclusivamente em determinadas camadas da floresta. Sua rede envolve dezenas de instituições e centenas de pesquisadores, estudantes e especialistas em grupos taxonômicos. Infográfico: as cinco etapas da estimativa global
1. Amostrar intensamente uma região diversa
A base da estimativa da PNAS foi formada por 1.633.855 espécimes de insetos, recolhidos por 15 armadilhas Malaise consideradas centrais. Somadas, elas operaram pelo equivalente a 69 anos de funcionamento contínuo de uma armadilha.
Os equipamentos foram distribuídos ao longo de aproximadamente 100 quilômetros, atravessando floresta seca de baixa altitude, floresta nublada de montanha e floresta tropical úmida na Área de Conservação Guanacaste.
Depois do sequenciamento, os espécimes foram distribuídos em 53.945 BINs, unidades genéticas usadas no artigo como aproximações de espécies. Esse é o número diretamente observado na amostra central — não os 14 ou 20 milhões da conclusão.
2. Transformar sequências de DNA em unidades comparáveis
O DNA barcoding funciona como um sistema de identificação molecular. Para animais, geralmente é sequenciado um pequeno trecho do gene mitocondrial COI, cuja variação permite comparar indivíduos e agrupá-los.
No sistema BOLD, sequências semelhantes podem ser reunidas em um Barcode Index Number, ou BIN. Cada BIN funciona como uma unidade taxonômica operacional: ele permite organizar a diversidade mesmo quando os organismos ainda não receberam nome científico ou não foram formalmente descritos.
Isso não significa que cada BIN seja obrigatoriamente uma espécie. Um agrupamento pode reunir espécies biologicamente distintas ou dividir uma única espécie em mais de um BIN. O próprio sistema BOLD define os BINs como unidades que “frequentemente” ou “geralmente” correspondem a espécies, e não como equivalentes perfeitos. autores da PNAS citam testes anteriores nos quais BINs e espécies delimitadas pela morfologia coincidiram em 89,2% dos casos. Ainda assim, registraram-se tanto agrupamentos que juntavam espécies quanto casos em que uma espécie foi dividida em vários BINs. Por isso, o resultado deve ser lido como uma estimativa de riqueza baseada em proxies genéticos. # 3. Estimar as espécies que não apareceram
Mesmo uma amostra de 1,6 milhão de indivíduos continua incompleta. Em levantamentos de biodiversidade, um grande número de espécies representadas por apenas um ou poucos exemplares costuma indicar que outras espécies permanecem sem detecção.
Para medir esse déficit, os pesquisadores escolheram as Microgastrinae, uma subfamília extremamente diversa de pequenas vespas parasitoides. Elas foram estudadas por três fontes independentes:
- 3.781 exemplares e 388 BINs nas 15 armadilhas centrais;
- 6.515 exemplares e 576 BINs em 15 armadilhas periféricas;
- 11.373 vespas, distribuídas em 889 BINs, obtidas pela criação de lagartas parasitadas.
As três fontes totalizaram 21.669 exemplares e 1.414 BINs observados. Desses, 403 apareceram uma única vez. Aplicando um estimador estatístico de cobertura desenvolvido por Anne Chao e colaboradores, a equipe calculou um limite inferior de 2.394 espécies de Microgastrinae na área, com intervalo de confiança de 95% entre 2.221 e 2.604. lógica é semelhante à de procurar pessoas em várias listas: quando muitos registros aparecem somente em uma fonte e poucos se repetem entre as fontes, há sinais de que uma parcela relevante da população não foi registrada.
4. Calcular a razão de subamostragem
Das 2.394 espécies de Microgastrinae estimadas para Guanacaste, apenas 388 haviam aparecido nas armadilhas centrais. A razão usada pelo estudo foi:
388 ÷ 2.394 ≈ 0,162
Em outras palavras, a amostra central teria detectado aproximadamente 16,2% da riqueza mínima estimada para aquele grupo. O inverso desse valor produz um fator de correção de cerca de 6,17.
Os autores aplicaram o mesmo grau de subamostragem aos 53.945 BINs de todos os insetos capturados pelas armadilhas centrais:
53.945 ÷ 0,162 ≈ 332.846 espécies
Assim, a riqueza de insetos da Área de Conservação Guanacaste foi estimada em aproximadamente 332.846 espécies, com intervalo de confiança de 306.847 a 364.963.
Essa etapa contém uma das premissas mais importantes do trabalho: supõe-se que a proporção de espécies não detectadas entre as Microgastrinae seja uma aproximação adequada da subamostragem do conjunto dos insetos. A premissa é plausível para os autores porque essas vespas são muito diversas e foram intensamente estudadas, mas não pode ser verificada para todos os grupos.
5. Extrapolar da Costa Rica para o planeta
Para chegar à escala mundial, a equipe comparou quantas espécies de determinados grupos existem em Guanacaste com quantas são estimadas para todo o planeta.
As árvores foram o principal grupo de referência. Guanacaste teria entre 1.200 e 1.500 espécies de árvores, enquanto estimativas globais consideradas pelo estudo variavam de cerca de 60 mil espécies descritas a mais de 89 mil espécies estimadas. A razão entre o total global e o total local foi aplicada às aproximadamente 333 mil espécies de insetos estimadas para Guanacaste.
O estudo repetiu o procedimento com outros grupos para testar a sensibilidade do resultado. Depois de considerar diferenças no tamanho das áreas de distribuição e na substituição de espécies entre regiões, os autores mantiveram como referências árvores, anfíbios, mamíferos e mariposas da família Saturniidae.
Esses quatro caminhos produziram estimativas entre 14,2 e 20,3 milhões de espécies, com média de 17,3 milhões. O valor de 20,3 milhões veio da extrapolação preferida pelos autores, baseada em árvores. Onde estão as principais margens de erro
A faixa de 14 a 20 milhões não elimina a incerteza. Ela torna visíveis algumas escolhas metodológicas, mas outras possibilidades permanecem fora do intervalo divulgado.
| Premissa | Por que ela importa |
| BINs aproximam espécies | Fusões ou divisões indevidas podem alterar a riqueza estimada |
| Microgastrinae representam a subamostragem geral | Outros grupos podem ser mais fáceis ou mais difíceis de capturar |
| Armadilhas Malaise representam a fauna local | Elas favorecem insetos voadores que interceptam a estrutura da armadilha |
| Dados no solo representam outros estratos | Espécies exclusivas do dossel podem permanecer ausentes |
| Grupos de referência reproduzem a distribuição dos insetos | Árvores, mamíferos ou mariposas podem ter padrões geográficos diferentes |
| Guanacaste pode sustentar uma extrapolação global | A região é muito diversa, mas não contém todos os biomas e modos de vida |
Os próprios autores reconhecem que as armadilhas centrais foram instaladas no nível do solo e que métodos adicionais poderiam aumentar a riqueza observada. Grupos associados ao dossel, ao solo, à madeira, à água doce ou a ambientes abertos podem responder de maneira diferente ao desenho de coleta.
Um estudo anterior em uma torre ao norte de Manaus ajuda a demonstrar esse problema. Em apenas duas semanas, armadilhas posicionadas entre o solo e 32 metros de altura recolheram 37.778 insetos. Entre as 856 espécies de moscas analisadas, 527 — ou 61,6% — não apareceram no nível do solo. inventário amazônico destacado pela Nature é importante justamente porque amplia a observação vertical. Sistemas de armadilhas em cascata permitem amostrar diferentes alturas sem depender exclusivamente de torres metálicas ou grandes estruturas permanentes. Em testes descritos em 2025, o método foi apresentado como uma solução escalável para investigar a fauna anteriormente pouco acessível das copas. “Limite inferior” não significa certeza absoluta
No artigo da PNAS, “limite inferior” tem um sentido estatístico e metodológico: os autores escolheram estimadores e premissas que consideram conservadores. Isso não transforma 14 milhões em um piso incontestável.
Uma mudança na correspondência entre BINs e espécies, na representatividade das vespas, no efeito das armadilhas ou nos grupos usados para extrapolar pode deslocar o resultado para baixo ou para cima.
Também é importante não confundir diferentes tipos de incerteza:
- o intervalo de 306.847 a 364.963 representa a incerteza estatística informada para a riqueza local estimada em Guanacaste;
- a faixa de 14,2 a 20,3 milhões compara resultados de diferentes grupos usados para extrapolar;
- estimativas globais próximas de 30 milhões aparecem quando os autores usam uma estimativa pontual menos conservadora da riqueza local, acompanhada por incerteza ampla. rtanto, “existem 20 milhões de espécies” é uma formulação excessivamente categórica. A conclusão sustentada pelo estudo é que uma extensa base empírica, combinada com determinadas correções e premissas de escala, aponta para uma diversidade global possivelmente duas ou três vezes maior que o consenso anterior de aproximadamente seis milhões.
O que a ciência realmente sabe
Aproximadamente 1,2 milhão de espécies de insetos já foram formalmente descritas, enquanto muitas estimativas anteriores situavam o total existente perto de seis milhões. A nova análise propõe que o número real pode ser muito maior, mas sua principal contribuição talvez não seja substituir um número por outro.
O estudo mostra como a ciência trabalha quando a contagem direta é impossível: coleta dados observáveis, mede o que ficou de fora, compara alternativas e apresenta as premissas que conectam uma etapa à seguinte. reportagem sobre a Amazônia acrescenta a outra metade do problema. Antes de extrapolar, é preciso melhorar os inventários locais — inclusive nas copas das árvores, onde armadilhas instaladas no solo não alcançam toda a diversidade.
Salve o infográfico das cinco etapas e assine as próximas explicações de estudos científicos. Quando um novo número parecer grande demais para ter sido contado, a pergunta mais útil será: quais observações, correções e premissas sustentam essa estimativa?





