Se a pergunta for quem aparece na frente no levantamento divulgado em 2026, a resposta é o Confiança. As publicações que reproduziram a pesquisa atribuída ao Instituto França registram 25,47% para a Associação Desportiva Confiança, 20,16% para o Club Sportivo Sergipe e 9,61% para a Associação Olímpica de Itabaiana. Isso coloca o Dragão na liderança numérica entre os clubes sergipanos naquele levantamento.
A conclusão precisa, porém, parar aí. Uma pesquisa amostral não transforma 25,47% em um censo da torcida, e as informações públicas disponíveis não permitem tratar o resultado como prova definitiva de que o Confiança possui, sob qualquer definição possível, a maior torcida do estado. O que os dados sustentam com segurança é uma frase mais específica: o Confiança liderou a pesquisa de preferência entre clubes locais divulgada em 2026.
O que os números de 2026 realmente dizem
O Portal ITnet publicou em 22 de abril de 2026 a distribuição que associa os percentuais aos clubes. Confiança aparece com 25,47%, Sergipe com 20,16% e Itabaiana com 9,61%. Depois vêm Lagarto, com 4,55%, Boquinhense, com 2,48%, Guarany de Porto da Folha, com 1,91%, América de Propriá, com 1,56%, Falcon, com 1,01%, e a categoria “outros times”, com 4,05%.
A mesma publicação registra 29,20% para quem afirmou não torcer para nenhum time. Esse detalhe muda a formulação da manchete: entre os clubes citados, o Confiança ocupa o primeiro lugar, mas a maior categoria individual do levantamento é a de pessoas sem torcida declarada para qualquer equipe dentro daquele recorte.
Por isso, dizer “Confiança tem a maior torcida entre os clubes sergipanos na pesquisa de 2026” é mais rigoroso do que dizer simplesmente “Confiança tem a maior torcida de Sergipe”. A segunda frase parece afirmar uma verdade geral e definitiva; a primeira informa exatamente o que foi medido e divulgado.
A diferença entre Confiança e Sergipe é suficiente para cravar a liderança?
Uma republicação da pesquisa informa que o levantamento foi realizado entre 17 e 19 de abril de 2026, com 1.125 entrevistas no estado, margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. Esses dados ajudam a dimensionar a incerteza, mas não resolvem sozinhos todas as dúvidas estatísticas.
A diferença observada entre Confiança e Sergipe é de 5,31 pontos percentuais. Se alguém aplicar a margem de 3 pontos de maneira meramente ilustrativa a cada estimativa, o Confiança ficaria entre 22,47% e 28,47%, enquanto o Sergipe ficaria entre 17,16% e 23,16%. As faixas se sobrepõem em uma pequena região. Isso não autoriza concluir, por si só, que há empate técnico, assim como a ausência de sobreposição não seria um teste formal suficiente para qualquer comparação.
O motivo é simples: a margem de erro publicada costuma resumir a incerteza de uma estimativa individual. Para testar formalmente a diferença entre duas respostas da mesma pesquisa, é preciso conhecer o erro da diferença e o desenho amostral. Também importam ponderações, estratificação, seleção dos entrevistados e outros detalhes que podem alterar a precisão efetiva. Sem o relatório metodológico completo de 2026, o tratamento editorial mais seguro é dizer que o Confiança lidera numericamente o levantamento, evitando afirmar que a distância para o Sergipe foi estatisticamente comprovada como definitiva.
A separação entre Sergipe e Itabaiana é bem maior no resultado publicado: 10,55 pontos percentuais. Ainda assim, o mesmo princípio vale. O ranking observado é claro, mas a pesquisa continua sendo uma estimativa amostral, não uma contagem integral de torcedores.
“Maior torcida local” não é a mesma coisa que “maior torcida no estado”
Esse é o ponto que mais confunde a comparação com levantamentos antigos. O material público de 2026 reproduzido pelas reportagens mostra clubes sergipanos, a categoria “outros times” e pessoas que não torcem para nenhum time. Não foi localizado, nas fontes abertas consultadas para esta auditoria, o questionário completo nem um relatório original de 2026 que exponha a redação exata da pergunta e todas as opções apresentadas aos entrevistados.
Sem essa peça, não é seguro presumir que o levantamento tenha medido exatamente a mesma coisa que a pesquisa associada ao Instituto França em 2019. Naquele estudo anterior, o relatório disponível é explícito: o objetivo era quantificar torcidas de times nacionais e locais, e a pergunta era feita de forma espontânea sobre para qual time de futebol a pessoa torcia.
O resultado de 2019 tinha outra escala. Flamengo aparecia com 40,19% no estado, Corinthians com 8,63%, Vasco com 7,39% e Palmeiras com 5,11%. O Confiança era o primeiro clube sergipano, com 4,25%, seguido pelo Sergipe, com 2,77%, e o Itabaiana tinha 0,65%. A categoria “não torce para nenhum time” somava 21,79%.
Portanto, os 25,47% do Confiança em 2026 não podem ser lidos automaticamente como um salto de 4,25% para 25,47% da população sergipana. Antes de calcular qualquer crescimento, seria necessário provar que pergunta, universo, opções de resposta, forma de coleta e denominador são equivalentes. As informações disponíveis não permitem fazer isso.
Por que a pesquisa de 2019 não serve como régua direta para 2026
O relatório anterior informa mais de 3.000 entrevistas em mais de 50 municípios, cobrindo mais de 90% dos habitantes do estado, com margem de erro de 2,5 pontos e confiança de 95%. A pesquisa de 2026, segundo a metodologia republicada, teve 1.125 entrevistas e margem de 3 pontos. Só essa diferença já recomenda cautela na comparação.
Mais importante que o tamanho da amostra é o possível contraste de escopo. Em 2019, Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras e outros clubes nacionais aparecem individualmente no ranking. No conjunto de 2026 reproduzido pelas reportagens, os nomes associados aos percentuais são clubes sergipanos, além de “outros times” e “não torce”. Isso sugere um recorte diferente, mas a ausência do questionário integral impede afirmar exatamente como ele foi construído.
Comparar percentuais de pesquisas com perguntas ou bases distintas pode produzir uma falsa sensação de evolução. É possível que parte da diferença venha de uma mudança real na identificação com clubes locais; também é possível que venha do modo como a pergunta foi feita, das alternativas disponíveis, da composição da amostra ou da forma de tabulação. Sem equivalência metodológica demonstrada, separar esses efeitos não é possível.
Há uma divergência importante nas republicações
A auditoria encontra um problema concreto na circulação dos números. O ITnet publicou 29,20% para “não torce para nenhum time”. Esse percentual também aparece em outras republicações e, quando somado às demais categorias divulgadas, fecha exatamente 100%.
Já uma matéria do FixNews, publicada dois dias depois, informa 30,21% para a mesma categoria. Mantidos os outros percentuais, a soma ultrapassa 100%, chegando a 101,01%. A reportagem também descreve de forma diferente parte dos clubes menores. Isso indica uma inconsistência de transcrição ou republicação, não uma mudança que possa ser conciliada apenas arredondando os dados.
Para o núcleo da pergunta, a divergência não altera a ordem dos três principais clubes: Confiança permanece com 25,47%, Sergipe com 20,16% e Itabaiana com 9,61% em ambas as versões. Mas ela é um bom exemplo de por que números de pesquisa devem ser rastreados até o relatório
original sempre que possível. Na ausência desse documento de 2026 em fonte aberta consultável, 29,20% é o valor mais coerente com o conjunto publicado porque aparece em mais de uma reprodução e faz a distribuição totalizar 100%.
O que a pesquisa não permite concluir
O levantamento não permite converter diretamente os percentuais em um número exato de torcedores de cada clube. Fazer isso exigiria definir com precisão o universo representado, a população de referência, o tratamento de idade, a ponderação e o próprio significado de “torcer”. Uma multiplicação simples por toda a população do estado daria uma aparência de precisão que a amostra não possui.
Também não é correto usar público de estádio, seguidores em redes sociais, número de sócios ou desempenho esportivo como se fossem confirmação automática do tamanho da torcida. Essas métricas medem comportamentos diferentes. Um clube pode levar mais pessoas a uma partida específica, ter maior alcance digital ou atravessar uma fase esportiva melhor sem que isso seja equivalente a uma pesquisa de preferência populacional.
Da mesma forma, o título estadual do Sergipe em 2026 ou a participação de Confiança e Itabaiana em competições nacionais não resolve a disputa sobre tamanho de torcida. Resultado em campo e identificação de torcida são fenômenos relacionados, mas não intercambiáveis.
Então, qual é a maior torcida de Sergipe segundo os dados disponíveis?
A resposta editorialmente defensável é: na pesquisa de 2026 divulgada pelo Instituto França e reproduzida por veículos locais, o Confiança aparece como o clube sergipano de maior preferência, com 25,47%, à frente do Sergipe, com 20,16%, e do Itabaiana, com 9,61%.
Isso sustenta a liderança do Confiança naquele levantamento. Não sustenta transformar o resultado em um censo, afirmar crescimento direto sobre 2019 nem ignorar a margem de erro e as lacunas metodológicas. Também é importante distinguir “primeiro entre os clubes” da maior resposta individual do conjunto divulgado, que foi “não torce para nenhum time”, com 29,20% na versão numericamente consistente.
Uma próxima pesquisa seria muito mais fácil de comparar se publicasse o questionário integral, o método de seleção da amostra, a distribuição territorial das entrevistas, critérios de ponderação, faixa etária do universo, tratamento de múltipla torcida e o cálculo de incerteza para diferenças entre clubes. Com essas informações, a discussão poderia sair do terreno da manchete e entrar de fato no da comparação estatística.
Até lá, a frase mais precisa continua sendo a mais simples: o Confiança lidera a pesquisa de 2026 entre os clubes sergipanos, mas os dados disponíveis não autorizam tratar essa liderança como uma medição definitiva e universal do tamanho das torcidas no estado.





