Poetas e Contextos08/08/2026Curadoria de Poesia7 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Myriam Fraga: como Bahia, mito e feminino se encontram na poesia da homenageada da Flipelô 2026

A Flipelô 2026 homenageia Myriam Fraga. A obra da poeta entrelaça Salvador, mar, memória, mito e vozes femininas que reescrevem antigas narrativas.

Retrato de Myriam Fraga com referências visuais ao mar e ao Centro Histórico de Salvador.

A homenagem da 10ª Flipelô a Myriam Fraga não celebra apenas uma poeta nascida em Salvador. Ela devolve ao centro da festa uma autora que ajudou a criar o próprio espaço institucional de onde o evento nasceu e cuja poesia fez da Bahia uma matéria de imaginação, memória e conflito.

A Festa Literária Internacional do Pelourinho acontece de 5 a 9 de agosto de 2026, no Centro Histórico de Salvador, com programação gratuita. Myriam Fraga, que viveu de 1937 a 2016, é a principal homenageada da edição, ao lado do artista plástico Calasans Neto. A organização escolheu como tema “Poesia, sonho e destino”. Foi também Myriam quem idealizou a Flipelô e dirigiu a Fundação Casa de Jorge Amado de 1986 a 2016.

Há, portanto, uma espécie de retorno à origem. Mas a homenagem ganha outra dimensão quando se entra nos poemas. Bahia, mito e feminino não aparecem na obra de Myriam como assuntos isolados. Eles se cruzam por meio de imagens que retornam: o mar, a cidade, a viagem, a memória, o corpo, o tecido e personagens que recebem uma nova possibilidade de fala.

A Bahia de Myriam Fraga não é apenas uma paisagem

Myriam Fraga estreou em livro com Marinhas, em 1964. Desde esse começo, o mar ocupa um lugar que vai muito além da paisagem costeira. Na leitura de sua obra, ele pode ser ameaça e abertura, partida e naufrágio, espaço de trabalho e território imaginário. A própria autora, em depoimento recuperado pela pesquisa acadêmica de Ricardo Nonato Almeida de Abreu Silva, apontava cidade, mar, mito e memória entre as grandes vertentes de sua poesia.

Essa relação fica ainda mais evidente em Sesmaria. O livro transforma a história e o espaço urbano de Salvador em construção poética. A cidade está ali com suas ruas, confrontos, ruínas e lembranças, mas não como documentação neutra. Ela é remontada pela linguagem.

Um estudo de Vilma Santos da Paz, desenvolvido na Universidade Federal da Bahia, chama esse processo de construção de uma “Bahia imaginária”. Ao analisar livros como Sesmaria, Marinhas, Pescadores de Mar Grande, A ilha, O risco na pele e Femina, a pesquisadora observa como lugares, personagens, corpos e águas formam um território que se relaciona com Salvador e seu entorno, mas é reinventado pelo poema.

Isso ajuda a evitar uma leitura folclorizante da autora. A Bahia de Myriam não funciona somente como cor local. O mar não está ali para decorar Salvador, assim como a história colonial não aparece para produzir um cartão-postal antigo. O espaço baiano é atravessado por memória, violência, pertencimento, deslocamento e desejo.

O crítico Manuel da Costa Pinto já chamava atenção para essa combinação ao observar, em Poesia Reunida, a presença simultânea da paisagem e da história da Bahia, de figuras mitológicas e da experiência feminina. Para ele, o enraizamento histórico não impedia a poesia de Myriam de ser moderna.

O mito entra no poema para ser deslocado

Quando figuras mitológicas aparecem em Myriam Fraga, elas raramente são simples referências eruditas. A poeta volta a histórias antigas para perguntar o que acontece quando se altera o ponto de vista.

Essa operação é especialmente importante no tratamento das personagens femininas. A pesquisa de Ricardo Silva sobre o mítico e o feminino em sua poesia identifica um procedimento recorrente: Myriam retoma figuras conhecidas da tradição e desloca os discursos construídos em torno delas.

Penélope é um dos casos mais expressivos.

Na tradição associada à Odisseia, ela atravessou séculos identificada sobretudo com a espera e a fidelidade ao marido ausente. Na poesia de Myriam, o ato de tecer e destecer pode adquirir outro peso. O que parecia sinal de permanência doméstica torna-se também pensamento, conflito e elaboração de si.

A pesquisa da UFBA destaca justamente essa mudança: a Penélope recriada pela poeta ganha uma interioridade que perturba o modelo da mulher apenas fiel e submissa. O mito continua reconhecível, mas já não fala exatamente do mesmo lugar.

Isso é decisivo para entender o uso da mitologia na autora. Myriam não precisa destruir o mito para contestá-lo. Ela entra em suas brechas.

Em Femina, o feminino deixa de ser apenas tema

Publicado em 1996, Femina torna mais explícita uma investigação que atravessa diferentes momentos da obra. A apresentação do livro no acervo dedicado à autora descreve um universo feminino reinventado pelo mito, construído com imagens recorrentes como espelho, labirinto, tesoura e bordado.

Esses objetos têm peso particular porque aproximam atividades historicamente associadas ao espaço feminino de questões maiores: criação, tempo, identidade, morte, desejo e escrita.

O tecido, por exemplo, não é apenas tecido. Quando se aproxima da figura de Penélope, ele pode ser lido como memória, linguagem e estratégia. A mulher que fia também organiza uma narrativa. A que desfaz o tecido recusa a ideia de que sua história já esteja pronta.

Uma tese mais recente da Universidade Estadual Paulista ampliou essa discussão ao estudar personagens míticas, bíblicas e históricas na poesia de Myriam. O trabalho identifica justamente uma contestação dos discursos que produziram silenciamentos e modelos rígidos para as mulheres.

Por isso, dizer que Myriam escreve sobre o feminino é correto, mas insuficiente. Interessa sobretudo observar quem passa a falar quando a poeta retorna às histórias conhecidas.

Mar, corpo e tecido acabam fazendo parte da mesma linguagem

É nesse ponto que Bahia, mito e feminino começam a deixar de parecer três caminhos diferentes.

A imagem da navegação, tão frequente em Myriam, pode levar ao mar baiano, mas também à viagem mítica e à experiência interior. O tecido pertence a Penélope, porém também oferece uma imagem para o próprio trabalho da memória. A cidade contém história concreta, mas pode ser reconstruída como território subjetivo.

Evelina Hoisel, ao analisar Poemas, publicado postumamente, identificou a permanência de temas como memória, viagem, navegação, tecer e reflexão sobre o próprio fazer poético. São elementos que retornam ao longo da produção e ajudam a perceber a coerência interna de uma obra extensa.

O encontro entre esses elementos produz uma poesia em que deslocar-se e permanecer não são necessariamente opostos. Penélope pode viajar sem abandonar o tear; Salvador pode carregar séculos de história e ainda assim ser recriada; o passado pode retornar sem ser simplesmente repetido.

Myriam trabalha justamente nesse intervalo.

Uma poeta que também construiu instituições

Há outra camada na homenagem da Flipelô. Myriam Fraga não deixou apenas livros.

Ela participou da criação da Fundação Casa de Jorge Amado e a dirigiu durante três décadas. Também integrou a Academia de Letras da Bahia e manteve por anos a coluna cultural Linha D’Água, publicada no jornal A Tarde. O site oficial da Flipelô registra uma produção de 25 livros, entre poesia, prosa e obras infantojuvenis.

Sua trajetória, portanto, juntou escrita e ação cultural. Essa combinação ajuda a explicar por que a homenagem de 2026 não se limita a exibir uma biografia.

A própria programação da festa transforma diferentes aspectos de seu legado em atividades. Entre os eventos dedicados à autora estão Poesia é Coisa de Mulheres — Homenagem a Myriam Fraga, o sarau Sesmariando com Myriam e Calá, a conversa Myriam Fraga: uma poética multirreferencial, além de encontros sobre sua vida e sua poesia. No domingo, 9 de agosto, a Fundação Casa de Jorge Amado recebe ainda o monólogo Retratos: Imagens Poéticas de Myriam Fraga.

A escolha desses títulos é reveladora: a Flipelô não homenageia somente a gestora que ajudou a construir a Fundação ou a idealizadora do festival. Recoloca em circulação palavras, imagens e questões que pertencem à sua obra.

Por que reler Myriam Fraga em 2026

O tema “Poesia, sonho e destino” oferece uma entrada possível, mas não esgota a autora.

Ler Myriam Fraga hoje significa encontrar uma Salvador que não permanece imóvel no passado; mitos que mudam quando outras vozes assumem a narrativa; e personagens femininas que deixam de caber inteiramente nos papéis que receberam da tradição.

Também significa perceber como algumas das imagens mais constantes de sua poesia conversam entre si. Mar, viagem, tecido e memória não são peças dispersas. São maneiras de pensar o tempo, o pertencimento e a possibilidade de reconstruir uma história.

Talvez por isso a homenagem da Flipelô tenha uma coerência especial. Em 2026, Myriam retorna ao Pelourinho não apenas como nome de uma edição, mas como poeta de uma cidade que ela própria ajudou a transformar em palavra e como uma autora para quem revisitar o passado nunca significou deixá-lo intacto.

Para quem quiser avançar da homenagem para a leitura, parte da obra e da fortuna crítica de Myriam Fraga está disponível gratuitamente no projeto dedicado à autora, incluindo Poesia Reunida e Poemas.

Tópicos deste artigoFlipelô 2026literatura baianamitologia na poesiaMyriam Fragapoesia baianapoesia femininaSalvadorMyriam Fraga Flipelô 2026poesia de Myriam Fragafeminino na poesiaSesmaria Myriam FragaFemina Myriam Fragapoesia sobre Salvador