Se você traduz “mas” do português automaticamente por pero, vai acertar muitas vezes, mas vai errar justamente nos casos em que o espanhol usa sino. A decisão não depende apenas de existir uma negação antes da conjunção. O ponto central é o sentido: a segunda parte apenas contrasta com a primeira ou corrige e substitui algo que foi negado?
A regra prática é esta. Se as duas informações podem continuar verdadeiras ao mesmo tempo, use pero. Se a segunda informação corrige o elemento negado e coloca outro no lugar, use sino. Quando essa correção introduz uma oração com verbo conjugado, a forma mais comum é sino que.
A negação sozinha não decide entre pero e sino
O erro mais comum é decorar “depois de no, use sino”. Isso não funciona. Pero pode aparecer normalmente depois de uma frase negativa quando o segundo membro acrescenta uma informação contrastante sem apagar a primeira.
No tengo coche, pero llego puntual.
Aqui, “não tenho carro” continua sendo verdade. “Chego pontualmente” não substitui carro por outra coisa; apenas cria um contraste entre uma possível expectativa e o resultado real. Por isso, pero.
Compare com:
No tengo coche, sino moto.
Agora a lógica mudou. O falante rejeita “carro” e corrige a informação com “moto”. É uma estrutura equivalente, em português, a “não tenho carro, mas sim moto”. Por isso, sino.
O mesmo contraste aparece em outro par:
No fui al cine, pero vi una película en casa.
No fui al cine, sino al teatro.
Na primeira frase, não ir ao cinema e ver um filme em casa são fatos compatíveis. Na segunda, “al teatro” substitui o destino negado “al cine”.
O teste de 10 segundos: contraste ou correção?
A segunda parte corrige o que foi negado?
Leia a frase até a negação e pergunte: o trecho seguinte está dizendo “não X, e sim Y”? Se a resposta for sim, sino é o candidato natural.
No quiero té, sino café.
No es azul, sino verde.
No trabaja en Madrid, sino en Sevilla.
Em todos esses casos, o segundo termo ocupa o lugar do primeiro. Chá é substituído por café, azul por verde, Madrid por Sevilha. O primeiro termo não fica apenas limitado; ele é rejeitado para aquela situação.
As duas informações podem continuar verdadeiras?
Se a resposta for sim, a relação tende a ser de contraste, restrição ou quebra de expectativa. Nesse caso, pero é a escolha normal.
No quiero café, pero acepto agua.
No habla mucho, pero entiende todo.
No es rico, pero vive bien.
A segunda parte não corrige o que veio antes. Ela acrescenta algo que pode surpreender, limitar uma conclusão ou criar oposição, mas o primeiro enunciado permanece válido.
Esse é o motivo pelo qual uma frase negativa ainda pode pedir pero. Em uma discussão didática do Centro Virtual Cervantes, o exemplo “No he corrido, pero estoy sudada” aparece justamente para mostrar esse problema. Não ter corrido continua sendo verdade; estar suada acrescenta uma informação inesperada. A negação existe, mas não há substituição.
Quando usar sino sem que
Sino funciona muito bem quando o elemento corretivo é uma palavra, um grupo de palavras ou uma construção sem verbo conjugado que substitui o termo negado.
No llamó Ana, sino Marta.
No compró el libro nuevo, sino el usado.
No vino por trabajo, sino por vacaciones.
No salió para discutir, sino para escuchar.
A gramática da RAE observa que sino pode introduzir termos de diferentes tipos, como nominais, adjetivais e oracionais. Para quem está aprendendo, o ponto mais útil é perceber o paralelismo: a frase nega uma possibilidade e apresenta outra como a correção relevante.
Em português, “mas sim” costuma ser uma boa pista. “Não foi Ana, mas sim Marta” aproxima-se diretamente de “No fue Ana, sino Marta”. A pista ajuda, mas o teste de sentido é mais confiável do que uma tradução palavra por palavra.
Quando usar sino que
Sino que aparece quando a correção acontece no nível de uma oração com verbo em forma pessoal. Em vez de substituir apenas um nome, adjetivo, lugar ou infinitivo, o segundo membro traz uma nova oração.
No estudia, sino que trabaja.
No vendí el coche, sino que se lo presté a un amigo.
No es que no quiera ayudarte, sino que hoy no tengo tiempo.
Nas três frases, a segunda oração corrige a interpretação negada anteriormente. A ideia prática é a mesma de sino: “não é X; o correto é Y”. O que muda é a forma do segundo membro.
Por isso, uma regra didática útil é: correção com termo simples ou infinitivo, sino; correção com oração de verbo conjugado, normalmente sino que.
Sino que não obriga o indicativo
Outra simplificação que causa erro é imaginar que depois de sino que sempre vem indicativo. O modo verbal depende da construção em que a oração está inserida.
Yo no quiero que me devuelvas el dinero, sino que lo uses para el viaje.
Aqui, o subjuntivo está ligado ao padrão quiero que e ao conteúdo desejado. Sino que organiza a correção entre os dois membros, mas não escolhe sozinho o modo verbal.
Compare com:
No es que esté enfadado, sino que está cansado.
Nesse tipo de estrutura, a primeira parte pode trazer subjuntivo em no es que..., enquanto a segunda apresenta como factual a explicação escolhida. O importante é não transformar sino que em uma regra automática de modo verbal.
O português “mas” esconde duas relações diferentes
Para brasileiros, a dificuldade nasce porque “mas” cobre situações que o espanhol distribui entre pero e sino. Duas frases portuguesas muito parecidas podem exigir conectores diferentes.
“Não quero café, mas aceito água.”
No quiero café, pero acepto agua.
A água não corrige café; ela acrescenta uma alternativa aceita. As duas informações coexistem.
“Não quero café, mas chá.”
No quiero café, sino té.
Agora chá substitui café no ponto que estava sendo negado. O sentido é “não café, e sim chá”.
Esse contraste é mais útil do que decorar equivalências isoladas. Antes de traduzir “mas”, identifique a relação lógica que a frase quer expressar.
Por que “tem no” é uma regra insuficiente
Um estudo de Iandra Maria da Silva, publicado no Centro Virtual Cervantes e desenvolvido com estudantes intermediários de espanhol em um curso da Universidade Federal de Santa Catarina, partiu exatamente de dificuldades com pero e sino. A atividade trabalhou ocorrências retiradas de textos jornalísticos de países hispânicos e destacou uma diferença pedagógica importante: pero limita ou acrescenta um novo aspecto sem excluir a ideia anterior, enquanto sino opera de modo excludente ou substitutivo no uso corretivo.
Essa diferença explica frases que parecem confusas quando olhamos apenas para a presença de no. Em “No es barato, pero funciona muy bien”, a primeira avaliação permanece e a segunda cria um contraste. Em “No es barato, sino carísimo”, a segunda avaliação corrige a primeira e a substitui por outra mais adequada.
A pergunta decisiva, portanto, não é “há uma negação?”. A pergunta é “o segundo membro mantém a primeira informação e contrasta com ela, ou refuta um elemento para colocar outro no lugar?”.
Um diagnóstico com pares mínimos
No vive en Madrid, pero trabaja allí
A pessoa não mora em Madrid, mas trabalha lá. Os dois fatos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. Use pero.
No vive en Madrid, sino en Toledo
Toledo substitui o lugar negado. Use sino.
No estudia por la mañana, pero trabaja por la tarde
A segunda informação não corrige a primeira. Ela acrescenta contraste entre duas atividades e horários. Use pero.
No estudia por la mañana, sino por la noche
O período da manhã é negado e substituído pelo período da noite. Use sino.
No dijo que vendría, sino que llamaría
A segunda oração corrige o conteúdo atribuído à fala. Como o membro corretivo é uma oração com verbo conjugado, use sino que.
No dijo que vendría, pero llamó después
A ligação é de contraste entre dois fatos: ele não disse que viria e depois telefonou. Nada está sendo substituído. Use pero.
E a estrutura no solo... sino también?
Há um uso importante de sino que não é simplesmente “não X, mas sim Y”. Na correlação no solo... sino también, a relação é aditiva: o segundo membro acrescenta informação e reforça o primeiro.
No solo estudia español, sino que también practica con hablantes nativos.
A RAE registra esse valor de sino em correlação com no solo. Para a decisão entre pero e sino na tradução de “mas”, vale tratar essa estrutura como um padrão próprio. Se a frase já tem no solo, a continuação esperada normalmente é sino ou sino que, muitas vezes acompanhada de también.
Não confunda sino com si no
Sino é uma única palavra quando funciona como a conjunção adversativa tratada aqui. Si no são duas palavras: si é a conjunção condicional e no é a negação.
No quiero té, sino café.
Si no quieres té, pide café.
Na primeira frase, sino corrige a escolha. Na segunda, si no significa “se não”. A diferença de escrita corresponde a uma diferença real de estrutura e sentido.
A regra final para decidir sem traduzir mecanicamente
Quando encontrar um “mas” em português, pare antes de escolher a palavra em espanhol. Se o segundo trecho apenas contrasta, restringe ou quebra uma expectativa e o primeiro continua verdadeiro, use pero. Se o segundo trecho corrige algo que foi negado e apresenta o substituto, use sino. Se essa correção vem como uma oração com verbo conjugado, use normalmente sino que.
Esse teste resolve inclusive o caso que mais engana: uma frase negativa não obriga sino. O que manda é a função da segunda parte. Contraste preserva a primeira informação; correção a substitui.





