Mitos Históricos31/08/2026Núcleo de História7 min de leituraAtualizado em 15/09/2026

Espartanos jogavam bebês de um penhasco? O que Plutarco diz — e o que a arqueologia não encontrou

Plutarco relata a inspeção de crianças e o envio dos rejeitados ao Apothetae, mas não descreve bebês sendo arremessados. A arqueologia do Kaiadas não confirmou restos de recém-nascidos e aponta sobretudo para um local de punição.

Guerreiro espartano de armadura segura um bebê diante de um precipício, com soldados e montanhas ao fundo.

Não há evidência suficiente para tratar como fato histórico a imagem popular de espartanos arremessando bebês de um penhasco. O que existe é um relato de Plutarco, escrito muitos séculos depois da Esparta arcaica e clássica, segundo o qual recém-nascidos eram examinados por anciãos e os considerados inadequados eram enviados ao Apothetae, descrito como um lugar semelhante a uma fenda ou precipício ao pé do Taigeto. A arqueologia do local hoje identificado, com cautela, como o antigo Kaiadas encontrou grande quantidade de restos humanos, mas não confirmou a presença de recém-nascidos ou crianças pequenas. Esse contraste enfraquece a versão popular, sem permitir a conclusão inversa de que nenhuma forma de exposição infantil jamais ocorreu em Esparta.

O que Plutarco realmente escreveu

A passagem central está no capítulo 16 da Vida de Licurgo. Plutarco afirma que o pai não decidia sozinho se criaria o filho: ele levava a criança a um local chamado Lesche, onde os anciãos da tribo a examinavam. Se fosse considerada “bem formada e robusta”, recebia autorização para ser criada; se fosse considerada inadequada, era enviada ao chamado Apothetae, “um lugar semelhante a um abismo” ao pé do monte Taigeto. O texto está disponível no Perseus Digital Library.

Esse é um relato forte, mas é importante notar exatamente o que ele não diz. Plutarco não descreve um guerreiro lançando um bebê de um penhasco, não narra uma cerimônia de arremesso e, nessa passagem, não usa o nome Kaiadas. A formulação popular transforma “enviar ao Apothetae” em uma cena muito mais específica do que a fonte preservada permite reconstruir.

De onde veio a imagem de “jogar bebês do penhasco”

A versão conhecida hoje combina três etapas distintas: a inspeção dos recém-nascidos, a rejeição dos considerados frágeis ou deformados e uma morte por queda deliberada. A primeira e a segunda aparecem no relato de Plutarco; a terceira é uma interpretação posterior. Mesmo que se aceite a narrativa plutarqueana, o verbo e a descrição do lugar não obrigam a imaginar que a criança fosse arremessada. Exposição — abandonar alguém em um lugar para morrer — e precipitação — lançar de uma altura — são práticas diferentes.

Também é comum fundir Apothetae e Kaiadas como se fossem, sem dúvida, o mesmo ponto geográfico. Essa equivalência é possível em algumas reconstruções, mas não deve ser apresentada como certeza. O relatório arqueológico sobre a fenda de Trypi usa linguagem cautelosa ao relacioná-la ao Kaiadas antigo, e a própria tradição literária sobre o lugar inclui usos punitivos que não envolvem crianças.

O que a arqueologia encontrou no Kaiadas

Uma fenda rochosa perto de Trypi, a cerca de 10 km de Esparta e nas encostas do Taigeto, vem sendo investigada desde a década de 1980 e é frequentemente identificada com o Kaiadas conhecido pelas fontes antigas. A Chronique des fouilles en ligne, ligada à École française d’Athènes, registra um novo programa de pesquisa antropológica iniciado em 2003. O levantamento informa que a investigação até então não havia confirmado restos de recém-nascidos nem de crianças pequenas; a maior parte do material esquelético pertencia provavelmente a homens com idade biológica entre 18 e 35 anos.

Esse padrão é importante porque não corresponde ao que se esperaria de um depósito formado principalmente pelo descarte sistemático de bebês. Ao mesmo tempo, o relatório não transforma a ausência em uma prova universal: ele trata da amostra e do local estudados, e a identificação da fenda de Trypi com o Kaiadas antigo é apresentada como uma conclusão arqueológica apoiada por vários indícios, não como uma certeza matemática.

O Kaiadas tem um uso punitivo melhor documentado

Outra fonte antiga ajuda a interpretar os ossos adultos. Em História da Guerra do Peloponeso, Tucídides relata que, após a morte do regente Pausânias, os espartanos cogitaram lançar seu corpo no Kaiadas, “onde lançavam os criminosos”. O texto pode ser consultado no Perseus Digital Library. Essa referência, muito anterior a Plutarco, associa o Kaiadas a punição e descarte de condenados.

O perfil antropológico encontrado na fenda de Trypi — dominado por homens jovens e adultos — combina melhor com esse uso do que com um cemitério de recém-nascidos rejeitados. Relatórios arqueológicos também mencionam materiais como argolas de ferro e um fragmento de crânio com ponta de flecha, elementos compatíveis com violência, cativeiro ou execução. Isso não resolve todos os detalhes do sítio, mas dá uma explicação positiva para a presença dos restos humanos adultos.

O que a ausência de ossos de bebês pode — e não pode — provar

A conclusão mais segura é negativa e limitada: a arqueologia desse sítio não corroborou a história de que bebês rejeitados eram sistematicamente mortos ali. Isso é diferente de afirmar que a ciência “provou que nenhum bebê espartano jamais foi exposto”. Um achado arqueológico responde apenas ao local, às camadas e aos restos preservados e estudados.

  • Pode mostrar: que, no material analisado do Kaiadas de Trypi, predominam adolescentes e adultos, sobretudo homens, e não recém-nascidos.
  • Pode enfraquecer: a identificação automática entre o relato de Plutarco e uma prática de infanticídio em massa naquele ponto.
  • Não pode demonstrar sozinha: que nenhum recém-nascido foi exposto em qualquer outro lugar, em qualquer período da história espartana.
  • Não transforma Plutarco em invenção comprovada: seu testemunho continua sendo uma fonte literária que precisa ser avaliada criticamente.

Por que Plutarco exige cautela como testemunha

Plutarco escreveu a Vida de Licurgo por volta do fim do século I e início do II d.C., muito depois do período em que se formaram as instituições tradicionalmente atribuídas a Licurgo. Isso não torna seu texto inútil: autores tardios podem preservar tradições e documentos mais antigos. Mas a distância cronológica impede tratar a passagem como um registro ocular da Esparta arcaica.

Além disso, a história da Esparta antiga é marcada pelo que os estudiosos chamam frequentemente de “miragem espartana”: autores de épocas diferentes idealizaram, criticaram ou moralizaram a cidade como um modelo de disciplina extrema. Por isso, relatos que combinam força física, controle coletivo e educação severa precisam ser confrontados com outras fontes e com a arqueologia, em vez de serem repetidos isoladamente.

O debate acadêmico mudou bastante

Em 2021, Debby Sneed publicou em Hesperia o estudo “Disability and Infanticide in Ancient Greece”. A autora argumenta que as passagens de Plutarco, Platão e Aristóteles, quando lidas em contexto, não sustentam a ideia de que matar ou expor crianças com deficiência fosse uma resposta legalmente obrigatória ou típica na Grécia antiga. Ela reúne evidências literárias, materiais e bioarqueológicas de cuidado e sobrevivência de pessoas com condições congênitas.

O debate continua aberto até sobre a leitura do próprio capítulo 16. Uma proposta recente de Lucia Pepe, publicada em 2025 e resumida no repositório da Universidade de Milão, defende uma interpretação ainda mais radical: o escrutínio mencionado por Plutarco poderia dizer respeito a meninos em idade de ingressar na agogé, e o critério de rejeição poderia envolver legitimidade de nascimento, não deficiência física. É uma tese específica, não um consenso consolidado, mas ela mostra como a passagem está longe de ser transparente.

Então, espartanos jogavam bebês de um penhasco?

Alegação O que sustenta Avaliação
Recém-nascidos eram examinados por anciãos Plutarco, Vida de Licurgo 16 Tradição literária antiga, mas registrada muito tarde e sem confirmação independente direta.
Bebês rejeitados eram enviados ao Apothetae Plutarco É o que o texto afirma; a historicidade da prática é debatida.
Eram “jogados de um penhasco” Interpretação popular do relato Formulação mais específica do que a fonte: Plutarco não descreve o arremesso.
O Kaiadas era o lugar de descarte de bebês Associação posterior entre textos e sítio Não corroborado pela antropologia do local de Trypi; não foram confirmados restos de recém-nascidos ou crianças pequenas.
O Kaiadas foi usado para condenados e prisioneiros Tucídides e perfil dos restos humanos Hipótese muito melhor sustentada pelas fontes e pela arqueologia disponível.

Veredito: uma tradição tardia, não um fato arqueologicamente comprovado

A resposta mais fiel às evidências não é simplesmente “sim” nem “não”. Plutarco realmente preserva uma tradição segundo a qual crianças consideradas inadequadas eram enviadas ao Apothetae, mas ele não descreve bebês sendo arremessados de um penhasco. A arqueologia do local normalmente associado ao Kaiadas não encontrou o padrão de restos infantis que confirmaria essa imagem; encontrou sobretudo adultos jovens, em consonância com referências antigas a um local de punição.

Portanto, a frase “os espartanos jogavam bebês de um penhasco” deve ser tratada como uma simplificação moderna de uma fonte tardia e contestada. O dado histórico seguro é a existência do relato de Plutarco. O que permanece incerto é até que ponto ele descreve uma prática real, em que período ela teria ocorrido e qual era exatamente o destino dos rejeitados.

Fontes para conferir

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