Documentos e Fontes12/09/2026Núcleo de História7 min de leituraAtualizado em 27/09/2026

Nurembergue, 80 anos: o que “seguir ordens” significou no julgamento e o alcance dos crimes contra a humanidade

Aos 80 anos do veredito, os documentos de Nurembergue mostram como o tribunal tratou ordens superiores, responsabilidade individual, cargo oficial e crimes contra a humanidade — com limites que muitas sínteses deixam de fora.

Composição editorial com tribunal histórico de Nurembergue ao fundo, documentos jurídicos, martelo e balança da Justiça em tons sóbrios.

Oitenta anos depois do veredito de 1º de outubro de 1946, Nurembergue continua associado a uma ideia simples — a de que “eu apenas seguia ordens” não basta para apagar responsabilidade criminal. Os documentos do Tribunal Militar Internacional (TMI), porém, mostram uma formulação mais precisa: a ordem de um governo ou superior não liberava automaticamente o acusado da responsabilidade, mas a Carta admitia que ela pudesse ser considerada na pena; além disso, o julgamento vinculou a responsabilização à conduta e às circunstâncias de cada réu.

Essa distinção é importante porque o legado de Nurembergue não foi uma regra abstrata contra toda obediência hierárquica. O ponto central era outro: crimes reconhecidos pelo direito internacional poderiam gerar responsabilidade de pessoas concretas, inclusive quando agissem em nome do Estado, ocupassem altos cargos ou alegassem cumprir ordens.

O que o Tribunal de Nurembergue julgou

A Carta de Londres, assinada em 8 de agosto de 1945, criou o TMI para julgar os principais criminosos de guerra do Eixo europeu. O processo contra a principal liderança nazista começou em 20 de novembro de 1945. O julgamento foi proferido em 30 de setembro e 1º de outubro de 1946; no resultado final, 19 réus foram condenados e três absolvidos.

Marco O que estabeleceu
8 de agosto de 1945 A Carta de Londres criou o TMI e definiu sua jurisdição.
20 de novembro de 1945 Começou o julgamento dos principais dirigentes nazistas.
30 de setembro e 1º de outubro de 1946 O Tribunal apresentou o julgamento e as decisões sobre os acusados.
11 de dezembro de 1946 A Assembleia Geral da ONU afirmou os princípios reconhecidos pela Carta e pelo julgamento.
1950 A Comissão de Direito Internacional formulou os chamados Princípios de Nurembergue.

O artigo 6 da Carta colocou três categorias centrais sob a jurisdição do Tribunal: crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O processo também trabalhou com uma acusação de conspiração. A mesma Carta afirmou expressamente que os crimes de sua competência geravam responsabilidade individual.

“Seguir ordens” não era uma defesa automática

O artigo 8 da Carta é o ponto de partida. Ele determinava que agir por ordem do governo ou de um superior não livrava o réu da responsabilidade, embora pudesse ser considerado para reduzir a pena se o Tribunal entendesse que a justiça assim exigia. Portanto, a regra original tinha duas partes que às vezes aparecem separadas em resumos populares.

  • A existência da ordem não apagava a responsabilidade. O réu não podia encerrar a discussão simplesmente demonstrando que obedecia a uma cadeia hierárquica.
  • A ordem ainda podia ser relevante. A Carta permitia que o contexto de obediência fosse levado em conta na punição.

No julgamento, o Tribunal também enfatizou que deveres internacionais podiam se sobrepor às obrigações de obediência impostas pelo Estado. Em outras palavras, a autoridade estatal não funcionaria como escudo para atos considerados criminosos pelo direito internacional.

Essa formulação é mais rigorosa do que a frase “ordens nunca importam” e mais precisa do que a ideia oposta de que a ordem superior justificaria automaticamente a conduta. O que Nurembergue rejeitou foi a isenção automática baseada apenas na ordem.

A “escolha moral” aparece na formulação de 1950

Quatro anos depois do julgamento, a Comissão de Direito Internacional da ONU formulou os Princípios de Nurembergue. O Princípio IV afirmou que agir por ordem de governo ou superior não afasta a responsabilidade internacional quando uma escolha moral era de fato possível.

Essa redação não é idêntica ao artigo 8 de 1945. A própria documentação da ONU explica duas diferenças relevantes: a formulação de 1950 incorporou o elemento da possibilidade de escolha moral desenvolvido no julgamento e não repetiu a cláusula da Carta sobre mitigação da pena, tratando a questão da pena como matéria do tribunal competente.

Por isso, quando se diz hoje que Nurembergue estabeleceu que “seguir ordens não é defesa”, é útil distinguir três níveis: a regra escrita na Carta de 1945, a interpretação feita no julgamento de 1946 e a síntese posterior dos Princípios de Nurembergue de 1950.

Cargo oficial também não funcionava como imunidade

O artigo 7 da Carta tratou de outro argumento de defesa: a posição oficial do acusado. Ser chefe de Estado ou alto funcionário não deveria, por si só, libertar o réu da responsabilidade nem reduzir sua punição. O raciocínio complementava a regra sobre ordens superiores: a responsabilidade não desaparecia nem porque alguém mandava em nome do Estado, nem porque alguém obedecia em nome dele.

O resultado foi uma afirmação jurídica de grande alcance histórico: pessoas, e não apenas Estados, poderiam responder por crimes internacionais. Isso não significava culpa automática por ocupar um cargo. O Tribunal ainda precisava examinar provas sobre participação, conhecimento, decisões e atos atribuídos a cada acusado.

O que “crimes contra a humanidade” significava em Nurembergue

A Carta definiu crimes contra a humanidade incluindo assassinato, extermínio, escravização, deportação e outros atos desumanos contra população civil, além de perseguições por motivos políticos, raciais ou religiosos em conexão com crimes da competência do Tribunal. Foi uma das formulações que ajudaram a consolidar a categoria no direito internacional.

Mas é importante não projetar automaticamente sobre 1945 toda a legislação internacional construída depois. Em Nurembergue, a jurisdição sobre crimes contra a humanidade estava fortemente ligada ao contexto da guerra e aos demais crimes do Tribunal. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos resume que os juízes limitaram sua consideração dessa categoria a atos cometidos durante a guerra, mesmo reconhecendo perseguições graves anteriores a ela.

Esse limite ajuda a entender por que o legado é ao mesmo tempo decisivo e incompleto. Nurembergue abriu caminho para uma responsabilização internacional mais centrada no indivíduo e para a consolidação dos crimes contra a humanidade, mas as definições e os regimes jurídicos continuaram a evoluir nas décadas seguintes.

O que Nurembergue estabeleceu — e o que não estabeleceu

Estabeleceu ou consolidou Não significa
Indivíduos podem responder por crimes internacionais. Que toda pessoa ligada ao regime ou à cadeia de comando era automaticamente culpada.
Cargo oficial não elimina responsabilidade. Que posição hierárquica, sozinha, prova participação em um crime.
Ordem superior não é isenção automática. Que o contexto da ordem jamais possa ser considerado; a Carta previa possível mitigação da pena.
Crimes contra a humanidade entraram de forma central na jurisdição do TMI. Que a definição de 1945 era idêntica às formulações internacionais posteriores.
Os princípios foram afirmados pela ONU e formulados pela Comissão de Direito Internacional. Que todo o direito penal internacional contemporâneo estava pronto em 1946.

Como os Princípios de Nurembergue chegaram à ONU

O legado jurídico não terminou com as sentenças. Em 11 de dezembro de 1946, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 95 (I), afirmando os princípios de direito internacional reconhecidos na Carta e no julgamento. Em 1947, a Assembleia incumbiu a Comissão de Direito Internacional de formular esses princípios. A versão final foi adotada pela Comissão em 1950.

Esse percurso é importante porque evita tratar “os Princípios de Nurembergue” como se fossem um texto único escrito pelos juízes em outubro de 1946. Há uma sequência documental: Carta, julgamento, afirmação política-jurídica pela Assembleia Geral e formulação técnica posterior pela Comissão.

Quais documentos consultar aos 80 anos do veredito

Para verificar o tema nas fontes, vale começar pela Carta do Tribunal de Nurembergue na base do CICV, especialmente os artigos 6 a 8. O texto do julgamento do TMI no Avalon Project, da Yale Law School permite acompanhar a fundamentação usada pelos juízes.

Para a etapa posterior, a ONU mantém a página sobre a Resolução 95 (I) e a documentação da formulação dos Princípios de Nurembergue pela Comissão de Direito Internacional. Para contexto histórico do processo, o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos reúne uma síntese do tribunal, das acusações e do veredito.

O legado, sem simplificação

O núcleo de Nurembergue foi deslocar a discussão da abstração do Estado para a responsabilidade de pessoas concretas. A alegação de que uma ordem veio de cima deixou de funcionar como saída automática; a posição oficial também não bastava para afastar a responsabilidade; e crimes contra civis passaram a ocupar um lugar central na linguagem do direito penal internacional.

Ao mesmo tempo, os documentos mostram por que o aniversário de 80 anos pede precisão. A Carta admitia mitigação de pena em casos de ordem superior, a ideia de “escolha moral” foi explicitada depois na formulação de 1950 e a categoria de crimes contra a humanidade ainda tinha limites próprios do contexto do TMI. Ler essas camadas em conjunto é a melhor forma de entender o que Nurembergue realmente estabeleceu — e o que foi desenvolvido pelo direito internacional posteriormente.

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