A pergunta parece pedir um número, mas a resposta historicamente mais responsável é outra: não existe um total definitivo de mortos na Guerra do Paraguai. Há estimativas de ordens de grandeza muito diferentes porque os pesquisadores não partem dos mesmos censos, não corrigem da mesma forma as lacunas documentais e nem sempre estão medindo a mesma coisa. Em alguns trabalhos, "perda populacional" inclui mortos, desaparecidos, deslocados, emigrados e pessoas que deixaram de ser contadas depois de mudanças territoriais.
Uma síntese acadêmica conhecida, do historiador Leslie Bethell, fala em cerca de 200 mil vidas perdidas no conjunto da guerra, em combate ou por doenças e privações. Esse número é útil como ordem de grandeza, mas não deve ser apresentado como um placar fechado. Quando o foco passa para o Paraguai, que sofreu a maior devastação proporcional, o debate demográfico abre uma faixa muito mais ampla: de interpretações que colocam a perda abaixo de 20% da população pré-guerra até reconstruções que apontam para algo próximo de 60% a 69%.
A resposta curta: não há um total fechado
Dizer simplesmente que "morreram 300 mil", "morreram 400 mil" ou "90% dos paraguaios morreram" dá uma precisão que as fontes não permitem. A formulação mais segura é que a guerra matou centenas de milhares de pessoas no Cone Sul, com o Paraguai concentrando a parcela mais pesada da destruição, mas o total exato permanece discutido.
O número de cerca de 200 mil mortos para o conjunto do conflito aparece em uma síntese de Bethell. Outras reconstruções produzem resultados maiores, especialmente quando adotam uma população paraguaia pré-guerra de aproximadamente 420 mil a 450 mil habitantes e um contingente sobrevivente muito reduzido ao fim do conflito. Já a interpretação de Vera Blinn Reber, publicada em 1988, estimou perdas paraguaias bem menores, entre 8,7% e 18,5% da população pré-guerra.
A distância entre essas conclusões não nasce de uma simples divergência sobre quantos soldados caíram em batalha. Ela começa antes: quantas pessoas viviam no Paraguai em 1864?
O primeiro problema está no ponto de partida
Durante muito tempo circulou uma estimativa de que o Paraguai teria cerca de 1,3 milhão de habitantes antes da guerra. Esse número foi associado a um suposto censo de 1857 e ajudou a produzir narrativas de perdas populacionais próximas de 80% ou 90%.
A pesquisa demográfica moderna mostrou um problema decisivo: esse censo de 1857 não pode ser tratado como um recenseamento real e confiável. Reber chamou atenção para a ausência de documentação que comprovasse sua realização e para a incompatibilidade do total de 1,3 milhão com o crescimento possível desde o censo de 1846. Se o ponto de partida é inflado, a quantidade de "desaparecidos" ao comparar antes e depois da guerra também fica inflada.
O censo de 1846 é muito mais importante para o debate, mas também não resolve tudo. John Hoyt Williams estimou, a partir dele, uma população de aproximadamente 240 mil pessoas naquele ano e projetou valores para 1864. Thomas Whigham e Barbara Potthast consideraram que o levantamento de 1846 subcontava algumas áreas e grupos e propuseram uma população pré-guerra de aproximadamente 420 mil a 450 mil habitantes.
Portanto, antes de contar mortos, os historiadores já precisam escolher como corrigir um censo incompleto e qual taxa de crescimento aplicar durante quase duas décadas.
O segundo problema está no ponto de chegada
Também não existe um censo de pós-guerra simples e completo que funcione como fotografia perfeita do Paraguai em 1870.
Whigham e Potthast trabalharam com documentação de um recenseamento realizado em 1870-1871 pelo governo provisório. Os registros preservados levaram a uma contagem de 116.351 habitantes em parte do material disponível. Os autores consideraram que havia distritos, crianças, deslocados e outras pessoas não captadas e ajustaram a população sobrevivente para algo em torno de 150 mil a 160 mil.
Jan Kleinpenning questionou a confiança depositada nesse levantamento. O país estava devastado, havia deslocamentos e desorganização administrativa, e outros números de pós-guerra, como uma estimativa de 1873 de 221.079 habitantes, criavam dificuldades para aceitar sem ressalvas a reconstrução mais baixa de 1870.
A discussão, portanto, não é "qual censo está certo?". É quanto de cada documento pode ser aproveitado, quais lacunas precisam ser corrigidas e quanto de incerteza continua mesmo depois dessas correções.
Perda populacional não é sinônimo de morte
Esse é o ponto que mais distorce comparações feitas fora da literatura especializada.
Se uma população cai de um valor estimado antes da guerra para outro depois dela, a diferença não pode ser automaticamente convertida em "mortos". Parte pode corresponder a morte em combate, epidemias, fome e exaustão. Mas também pode incluir deslocamento, fuga para países vizinhos, prisioneiros ainda ausentes, desertores, pessoas não
recenseadas e habitantes de áreas que mudaram de controle territorial.
A própria Reber separou em seu modelo perdas militares, cólera, febre amarela, outras doenças, migração e perda territorial. E a pesquisa mais recente de Bárbara Boggiano é igualmente cuidadosa: a ausência de homens em idade de recrutamento no fim da guerra pode refletir morte, mas também serviço ativo, prisão, deserção ou deslocamento.
Por isso, uma estimativa de "perda da população" não deve aparecer numa manchete como se fosse uma contagem direta de cadáveres.
O que dizem as principais estimativas
A estimativa extrema baseada no suposto censo de 1857
A versão tradicional mais dramática partia de uma população pré-guerra superior a 1,3 milhão e chegava a perdas próximas de 80% ou 90%. O problema está na base documental. O suposto censo de 1857 não é aceito pela demografia histórica moderna como um recenseamento confiável, e o crescimento necessário para chegar a 1,3 milhão a partir de 1846 seria implausível.
Como resultado, números como 1,2 milhão de paraguaios mortos ou a afirmação de que 90% de toda a população morreu não devem ser usados como fato estabelecido.
Reber: perdas entre 8,7% e 18,5%
Vera Blinn Reber, em 1988, atacou frontalmente as estimativas tradicionais. Ela trabalhou com uma população pré-guerra próxima de 300 mil habitantes e concluiu que a perda atribuível ao conflito ficaria entre 8,7% e 18,5%.
Aplicado a uma população de 300 mil, esse intervalo corresponde aproximadamente a 26 mil a 56 mil pessoas. Mas nem todo esse total era apresentado por Reber como morte. Seu cálculo incluía componentes de migração e perda territorial, além de baixas militares e doenças.
O mérito do estudo foi mostrar como uma população inicial inflada podia produzir uma catástrofe estatística artificial. A limitação é que suas hipóteses de crescimento e mortalidade foram criticadas por outros pesquisadores, que consideraram difícil conciliá-las com a escala do recrutamento, do colapso militar e da escassez de homens observada durante e depois da guerra.
Whigham e Potthast: perda de 60% a 69%
Em 1999, Thomas Whigham e Barbara Potthast reabriram o debate com o censo de 1870 recém-localizado e uma revisão do censo de 1846. Eles estimaram que o Paraguai teria entre 420 mil e 450 mil habitantes no início da guerra.
Comparando esse patamar com a população sobrevivente reconstruída para 1870, chegaram a uma perda de aproximadamente 60% a 69% da população. Em termos aritméticos, uma redução dessa ordem equivale a algo como 252 mil a 311 mil pessoas em relação à população inicial adotada.
Esse resultado ajuda a entender por que tantos textos transformaram a estimativa em "cerca de 300 mil mortos paraguaios". Mas essa conversão exige cuidado: a própria questão demográfica envolve mortos e pessoas ausentes por outras razões. O valor é melhor lido como magnitude de colapso populacional associada à guerra, não como uma
lista nominal de óbitos.
Kleinpenning: algo próximo de metade da população
Em 2002, Jan Kleinpenning criticou o peso dado ao censo de 1870, mas não retornou às estimativas muito baixas. Aceitando parte das correções de Whigham e Potthast para a população pré-guerra e usando outros dados de pós-guerra, considerou plausível uma perda entre 43,1% e 51,5%.
Se esse percentual for aplicado apenas para visualizar a ordem de grandeza sobre uma base de 420 mil a 450 mil habitantes, o resultado ficaria aproximadamente entre 181 mil e 232 mil pessoas. Novamente, isso é perda populacional estimada, não uma contagem direta de mortes.
A posição é importante porque mostra que a crítica ao cenário de 60% a 69% não leva necessariamente de volta ao cenário de menos de 20%. Entre os dois extremos existe uma reconstrução em que o Paraguai perdeu aproximadamente metade de sua população.
Boggiano: novos registros favorecem cenários de perda alta
O debate ganhou uma peça nova com o trabalho de Bárbara Boggiano, aceito pela Latin American Research Review. A autora usa registros administrativos de 45 distritos sobre homens aptos ao recrutamento no fim de 1867 e início de 1868 e os conecta a projeções baseadas em censos anteriores.
Nos 42 distritos em que foi possível construir um denominador comparável, foram observados 10.628 homens de 12 anos ou mais diante de uma população masculina projetada de 100.692. É aproximadamente um homem observado para cada nove esperados.
O dado não significa que os outros oito estavam mortos. A própria autora ressalta que ausência também pode representar serviço militar, prisão, deserção ou deslocamento. Ainda assim, a escassez masculina é tão grande que se torna difícil conciliá-la com interpretações de perda demográfica baixa. O novo material, portanto, não produz um "número final de mortos", mas fortalece a plausibilidade dos cenários de perda alta.
Combate explica apenas parte da mortalidade
A Guerra do Paraguai ocorreu antes dos antibióticos, em condições sanitárias precárias e com deslocamento de grandes contingentes por regiões úmidas, rios e acampamentos improvisados. Cólera, malária, varíola, pneumonia, disenteria e outras infecções mataram em grande escala.
Pesquisas em registros hospitalares do Exército brasileiro reforçam que as doenças infecciosas responderam por uma parcela enorme das mortes entre as tropas aliadas. A historiografia já suspeitava disso havia muito tempo, mas prontuários, livros de hospitais de campanha e relatórios militares permitem observar melhor o peso das epidemias.
Isso muda a interpretação do total. Uma pessoa pode morrer "na guerra" sem ter sido morta em combate. E, no caso da população civil paraguaia, a fronteira é ainda menos nítida: fome, perda de colheitas, falta de animais de tração, deslocamento, epidemias e exaustão foram consequências de uma sociedade mobilizada e progressivamente destruída pelo conflito.
Por que os civis são os mais difíceis de contar
Mortes militares deixam, ao menos em parte, rastros administrativos: listas de unidades, hospitais, baixas, promoções, pensões e relatórios de campanha. Mesmo esses registros são incompletos, mas existem.
Para civis, o problema é muito maior. Não havia um sistema nacional moderno de registro de óbitos capaz de documentar de forma contínua mortes por fome, doença ou deslocamento em todo o território. Famílias se dispersaram, localidades foram evacuadas, pessoas atravessaram fronteiras e a administração estatal entrou em colapso.
Além disso, uma mesma pessoa pode aparecer em fontes diferentes como "ausente", "refugiada", "prisioneira" ou simplesmente não aparecer. Décadas depois, o historiador precisa reconstruir a diferença entre ausência temporária, migração permanente e morte sem possuir um registro individual para cada caso.
As perdas dos aliados também não são um número simples
Brasil, Argentina e Uruguai venceram a guerra, mas também sofreram perdas relevantes. Bethell observa que o Brasil mobilizou aproximadamente 140 mil homens e teve pelo menos 50 mil mortes em combate, além de mortes por doença; ele considera exageradas algumas estimativas que chegam a 100 mil brasileiros mortos no total. Para a Argentina, cita uma estimativa de 18 mil mortos em combate, além de perdas em distúrbios internos associados ao conflito e em epidemias de cólera.
Esses números também variam conforme o autor e o que é incluído. Somar uma estimativa de mortes militares brasileiras, outra de população paraguaia e uma terceira de epidemias argentinas, sem verificar se os conceitos são compatíveis, cria um total aparentemente preciso, mas metodologicamente frágil.
É por isso que o número agregado da guerra costuma variar tanto: muitas vezes ele é a soma de estimativas construídas com critérios diferentes.
Então, qual número merece aparecer em um resumo?
Para uma resposta curta e responsável, o melhor é separar três níveis de certeza.
No conjunto da guerra, "cerca de 200 mil mortos" é uma síntese acadêmica conhecida e defensável como ordem de grandeza, mas não como total definitivamente provado. Revisões mais amplas admitem que o número pode ter sido substancialmente maior.
Para o Paraguai, a ideia antiga de uma população pré-guerra de 1,3 milhão e perdas próximas de 90% não tem base censitária confiável. Esse número deve ser tratado como parte da história da controvérsia, não como conclusão atual.
Entre os estudos modernos, a faixa continua aberta. Reber propôs perdas abaixo de 20%; Whigham e Potthast estimaram 60% a 69%; Kleinpenning considerou algo em torno de 43% a 52%. O novo trabalho de Boggiano não transforma essa disputa em um número único, mas oferece evidência independente de uma escassez extrema de homens no fim da guerra e considera esse padrão mais compatível com cenários de perda alta do que com cenários de perda baixa.
O que realmente explica a divergência
As estimativas mudam porque cada autor precisa resolver quatro problemas sem dados perfeitos: estimar quantas pessoas havia antes da guerra, estimar quantas restaram depois, separar morte de deslocamento e outras ausências, e decidir quais mortes indiretas devem ser atribuídas ao conflito.
Quando dois pesquisadores escolhem bases populacionais, taxas de crescimento e correções diferentes, centenas de milhares de pessoas podem aparecer ou desaparecer da conta sem que nenhum deles tenha encontrado um novo campo de batalha.
A Guerra do Paraguai foi, de qualquer modo, uma catástrofe humana e demográfica excepcional. O ponto historicamente mais sólido não é decorar um único total, mas entender o que cada número está medindo. Quanto mais precisa parece uma estimativa, mais necessário é perguntar de qual censo ela partiu, quem ficou fora dele, se a diferença representa mortos ou ausentes e quais efeitos de doença, fome e deslocamento foram incluídos.
É essa leitura que permite escapar dos dois erros mais comuns: repetir como fato o número extremo de 90% e, no sentido oposto, tratar uma estimativa baixa como se encerrasse um debate que a documentação mais recente continua reabrindo.





