A comparação mais segura começa pela data-base. Os quatro clubes publicaram em 2026 demonstrações financeiras referentes ao exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025. Nessa mesma fotografia contábil, o passivo exigível, entendido aqui como passivo circulante mais passivo não circulante, era de aproximadamente R$ 2,757 bilhões no Corinthians, R$ 2,455 bilhões no São Paulo, R$ 1,585 bilhão no Palmeiras e R$ 1,232 bilhão no Santos.
Esses quatro valores podem ser colocados lado a lado porque vêm da mesma parte do balanço. Ainda assim, eles não significam que cada clube terá de desembolsar exatamente essa quantia. O passivo contábil inclui obrigações de naturezas diferentes, inclusive receitas recebidas ou contratadas antecipadamente que serão reconhecidas ao longo do tempo. Por isso, rankings que chamam tudo de "dívida" podem produzir conclusões incompatíveis entre si.
A primeira régua: passivo exigível contábil
No Corinthians, o balanço de 2025 registra R$ 979,759 milhões no passivo circulante e R$ 1,778 bilhão no não circulante. A soma é R$ 2,757 bilhões. Dentro desse total aparecem fornecedores, empréstimos, direitos de imagem, obrigações sociais e tributárias, parcelamentos, contingências e R$ 680,242 milhões de receitas a realizar.
No São Paulo, o passivo circulante soma R$ 1,038 bilhão e o não circulante, R$ 1,416 bilhão. O passivo exigível chega, portanto, a R$ 2,455 bilhões. A maior diferença para uma leitura simplificada de "dívida" está nas receitas a apropriar: R$ 401,197 milhões no curto prazo e R$ 986,104 milhões no longo prazo, totalizando R$ 1,387 bilhão.
O Palmeiras encerrou 2025 com R$ 653,312 milhões no passivo circulante e R$ 931,301 milhões no não circulante, total de R$ 1,585 bilhão. O próprio relatório do clube separa desse total R$ 452,930 milhões classificados como antecipação de contratos, que são tratados como obrigações de entrega e não como dívida real a desembolsar.
No Santos, o passivo circulante era de R$ 470,741 milhões e o não circulante de R$ 761,218 milhões, total de R$ 1,232 bilhão. O balanço também identifica receitas diferidas, ou obrigações de performance, de R$ 233,458 milhões, que não representam saída futura de caixa na mesma lógica de um empréstimo ou de uma conta a pagar.
Por que o Corinthians aparece com R$ 2,7 bilhões de dívida
O número de R$ 2,723 bilhões divulgado para o Corinthians é uma medida diferente do passivo exigível de R$ 2,757 bilhões. A dívida bruta total apresentada a partir das contas de 2025 foi dividida em aproximadamente R$ 2,081 bilhões de dívida do clube e R$ 642 milhões do financiamento da Neo Química Arena.
A parcela da Arena é decisiva para entender a comparação. As notas explicativas informam que o saldo devedor do financiamento junto à Caixa Econômica Federal era de R$ 642 milhões em 31 de dezembro de 2025. O contrato foi estruturado fora da lista convencional de empréstimos do balanço do clube, dentro da estrutura societária e financeira ligada à Arena, mas o Corinthians controla essa estrutura e os pagamentos do financiamento são sustentados por receitas e garantias relacionadas ao estádio e ao próprio clube.
Isso explica por que simplesmente somar as linhas de empréstimos e financiamentos do balanço corintiano não chega perto dos R$ 2,7 bilhões. O conceito de dívida bruta usado na
divulgação incorpora um conjunto bem mais amplo de obrigações do clube e acrescenta o financiamento da Arena.
Há ainda uma particularidade temporal. A renegociação tributária com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional foi formalmente assinada em 2 de janeiro de 2026, mas seus efeitos foram reconhecidos nas demonstrações de 31 de dezembro de 2025 porque a administração considerou que as condições econômicas substanciais já estavam definidas e aceitas em dezembro. O acordo reduziu para R$ 678,929 milhões um conjunto de débitos tributários que havia sido consolidado em R$ 1,272 bilhão antes dos descontos.
Palmeiras: R$ 1,58 bilhão de passivo não é R$ 1,58 bilhão de dívida
O relatório financeiro do Palmeiras faz a distinção de forma explícita. O passivo contábil era de R$ 1,585 bilhão, mas o clube classifica R$ 452,930 milhões como antecipação de contratos. Ao expurgar essas obrigações de entrega, chega a uma "dívida total", também chamada no documento de passivo total exigível, de R$ 1,132 bilhão.
Essa dívida total é dividida pelo Palmeiras em R$ 985,497 milhões de dívida operacional e R$ 146,186 milhões de dívida histórica. Por isso, um ranking que use R$ 1,13 bilhão para o Palmeiras pode estar correto dentro da metodologia do próprio clube, enquanto outro que mostre R$ 1,58 bilhão também pode estar correto se estiver falando do passivo contábil.
O Allianz Parque oferece um exemplo ainda mais claro de como o estádio pode distorcer uma comparação. Dos R$ 452,930 milhões de antecipações de contratos, R$ 366,725 milhões se referem ao estádio. O balanço explica que esse saldo decorre do direito real de superfície concedido à Real Arenas por 30 anos e é amortizado contabilmente ao longo desse prazo. Portanto, não é uma dívida bancária do estádio comparável ao financiamento de R$ 642 milhões da Neo Química Arena.
O mesmo relatório registra R$ 581,592 milhões no custo relacionado à construção do Allianz Parque dentro do ativo imobilizado. Esse número é patrimônio registrado, não dívida. Somar o valor do estádio ao endividamento porque ambos aparecem no balanço seria misturar ativo e passivo.
São Paulo: o passivo passa de R$ 2,45 bilhões, mas o clube calcula endividamento de R$ 858 milhões
O São Paulo é provavelmente o melhor exemplo de como duas manchetes podem parecer incompatíveis e ainda assim partir do mesmo balanço. O passivo exigível soma R$ 2,455 bilhões. Porém, o relatório da administração apresenta uma seção própria de endividamento na qual primeiro exclui as receitas a apropriar e chega a R$ 1,067 bilhão de obrigações consolidadas.
Depois, o clube considera R$ 209,230 milhões de direitos líquidos, formados por direitos a receber descontados das receitas a apropriar correspondentes. Com essa compensação, o "endividamento final" indicado no relatório fica em R$ 858,205 milhões.
Portanto, R$ 2,45 bilhões e R$ 858 milhões não são duas estimativas concorrentes do mesmo conceito. O primeiro valor é o passivo exigível contábil. O segundo é uma métrica gerencial que parte de um conjunto menor de obrigações e ainda deduz direitos líquidos.
O MorumBIS também não deve ser tratado como se tivesse uma dívida separada equivalente à da Neo Química Arena. Nas demonstrações de 2025, o estádio aparece como parte do patrimônio e como unidade geradora de receita. O relatório registra R$ 118,942 milhões de receitas do estádio e R$ 29,334 milhões de despesas operacionais relacionadas a ele no ano. Não há, nas contas publicadas, um financiamento autônomo do MorumBIS de mesma natureza e apresentação do saldo de R$ 642 milhões da Arena corintiana.
Santos: passivo de R$ 1,23 bilhão e endividamento ajustado de R$ 998,5 milhões
O Santos também fornece uma reconciliação própria. O passivo exigível de R$ 1,232 bilhão inclui R$ 233,458 milhões de receita diferida, classificada como obrigação de performance. Ao retirar essas rubricas, o clube apresenta endividamento total de R$ 998,501 milhões.
Dentro desse valor, o Santos separa R$ 690,629 milhões de endividamento operacional e R$ 307,872 milhões de endividamento histórico. A primeira parcela reúne compromissos correntes da operação, como salários, encargos, fornecedores, direitos de imagem e outras contas. A segunda concentra principalmente parcelamentos tributários, provisões e passivos de períodos anteriores renegociados ou ainda em processo de regularização.
A Vila Belmiro, por sua vez, aparece no ativo imobilizado do Santos. O clube informa que o estádio, o CT Rei Pelé e o conjunto poliesportivo são apresentados por valores reavaliados com base em laudo de 2006. Em 2025, a administração também relatou mais de R$ 18 milhões em obras na Vila Belmiro e no CT, realizadas em parceria com NR Sports e outros patrocinadores. Isso é investimento em ativo, não uma linha de dívida de estádio comparável à da Neo Química Arena.
A comparação que faz sentido entre os quatro
Se a pergunta for "qual clube tem o maior passivo exigível na mesma data e na mesma lógica contábil?", a leitura dos balanços de 31 de dezembro de 2025 coloca o Corinthians em R$ 2,757 bilhões, o São Paulo em R$ 2,455 bilhões, o Palmeiras em R$ 1,585 bilhão e o Santos em R$ 1,232 bilhão.
Se a pergunta mudar para "qual é a dívida de cada clube?", já não existe uma régua única nos documentos publicados. O Corinthians divulga R$ 2,723 bilhões de dívida bruta total ao incluir R$ 642 milhões do financiamento da Arena. O Palmeiras define dívida total de R$ 1,132 bilhão após retirar antecipações de contratos. O São Paulo chega a R$ 858,205 milhões de endividamento final depois de excluir receitas a apropriar e deduzir direitos líquidos. O Santos apresenta R$ 998,501 milhões de endividamento após retirar receitas diferidas.
Colocar esses quatro últimos números em ordem como se fossem um ranking homogêneo é metodologicamente frágil. Eles nascem de ajustes diferentes. O dado mais comparável entre os quatro é o passivo circulante somado ao não circulante; as métricas gerenciais de dívida são úteis para entender cada clube, mas não devem ser misturadas sem reconstruir a mesma fórmula para todos.
Como ler um ranking de dívidas sem cair na armadilha do número maior
Antes de comparar clubes, vale verificar a data-base e a definição usada. "Passivo", "dívida bruta", "endividamento", "dívida operacional" e "dívida líquida" não são sinônimos automáticos. Um relatório pode excluir receitas antecipadas; outro pode compensar direitos a
receber; um terceiro pode somar uma estrutura separada de estádio.
Também é preciso separar obrigações de caixa de obrigações de performance. Quando um clube recebe antecipadamente por transmissão, patrocínio, publicidade ou exploração comercial, a contabilidade pode registrar um passivo porque ainda existe algo a entregar ao contratante. Isso não significa necessariamente que o clube terá de devolver aquele valor em dinheiro.
Por fim, estádio pode aparecer de três formas completamente diferentes: como ativo patrimonial, como obrigação de performance ligada a contrato de exploração ou como financiamento efetivamente devido a uma instituição financeira. Em 2025, a Neo Química Arena tem saldo de financiamento explicitado nas notas do Corinthians; o Allianz Parque gera uma grande antecipação contratual tratada pelo Palmeiras como passivo não exigível; MorumBIS e Vila Belmiro aparecem principalmente como ativos e unidades de exploração dos respectivos clubes.
A conclusão prática é que os grandes números que circulam em 2026 não precisam estar errados para serem incomparáveis. A pergunta correta não é apenas "quanto deve?", mas "quanto deve segundo qual conceito, em qual data e com quais itens incluídos?". Quando essa régua fica explícita, as diferenças entre R$ 2,7 bilhões, R$ 2,45 bilhões, R$ 1,13 bilhão ou menos de R$ 1 bilhão deixam de ser contradição e passam a ser uma questão de metodologia.





