O Santos deu mais um passo nas conversas para transformar seu futebol em SAF, mas ainda não vendeu o controle da operação à SDC Sports. Em 7 de agosto de 2026, o clube anunciou a assinatura de um term sheet não vinculante para a aquisição, pela empresa, de uma participação acionária de controle na futura Santos SAF.
A escolha das palavras é importante. O documento registra bases para a continuidade da negociação, mas o próprio Santos informou que a conclusão de qualquer transação ainda depende de alterações estatutárias, aprovações internas, diligência confirmatória entre as partes e assinatura da documentação definitiva.
Por isso, a reunião prevista para 31 de agosto deve ser entendida como mais um marco do processo, e não como a data em que o Santos necessariamente passará a ter um controlador privado.
O que o Santos assinou com a SDC Sports
O comunicado de 7 de agosto diz que o term sheet reflete aproximadamente cinco meses de diligência sobre ativos, passivos e operações do Santos. A etapa começou depois da proposta não vinculante apresentada em fevereiro.
Em fevereiro, o clube ainda descrevia o acordo como uma exclusividade para aprofundar análises estratégicas, financeiras e operacionais, preservando a autonomia de Santos e SDC Sports para decidir se chegariam ou não a um investimento definitivo.
Agora existe um avanço: o term sheet já trata expressamente da aquisição de uma participação de controle na Santos SAF. Isso, porém, continua diferente de um contrato definitivo de transferência das ações.
O comunicado oficial não informa qual será o percentual exato da participação negociada, o preço final da operação ou todos os direitos de governança do futuro investidor. Reportagens apontam interesse da SDC Sports em 80%, mas esse percentual não aparece na nota oficial de 7 de agosto.
Por que o term sheet não significa que o Santos foi vendido
Há pelo menos quatro pendências expressamente reconhecidas pelo próprio clube.
A primeira é estatutária. O modelo de controle pretendido precisa ser compatível com as regras internas do Santos.
A segunda envolve as aprovações dos órgãos de governança. A nota cita nominalmente o Conselho Deliberativo e a Assembleia Geral de Associados.
A terceira é a diligência confirmatória de parte a parte. Mesmo depois da investigação realizada nos últimos meses, Santos e SDC ainda condicionam a operação a verificações finais satisfatórias. Isso significa que informações financeiras, jurídicas ou operacionais encontradas nessa fase ainda podem influenciar condições, exigir renegociação ou impedir o fechamento.
A quarta é a documentação definitiva. O term sheet não substitui os contratos que efetivamente disciplinarão a transação, seus direitos, obrigações, condições precedentes e mecanismos de governança. A nota do Santos não detalha publicamente quais serão esses instrumentos.
O Estatuto ainda é um dos principais gargalos
A reforma do Estatuto do Santos começou a ser votada no Conselho Deliberativo em maio. Naquele mês, o próprio Conselho informou que havia aprovado o capítulo referente à SAF, elevando para até 80% a participação que poderia ser transferida numa operação futura, em substituição ao limite de 49% citado pelo clube.
Isso não significa que o novo Estatuto já esteja valendo.
O Santos informou anteriormente que nenhuma alteração estatutária entra em vigor apenas com a aprovação de artigos pelo Conselho: o texto final precisa passar pelo Conselho Deliberativo e, depois, pelos associados em Assembleia Geral.
Em 8 de agosto, o ge também informou que a reforma ainda precisava ser concluída no Conselho para posteriormente seguir à Assembleia Geral.
O Estatuto de 2023, atualmente disponibilizado pelo clube em seu Portal da Transparência, determina que reformas estatutárias aprovadas pelo Conselho sejam submetidas à Assembleia Geral. Para alterar o Estatuto, são necessários votos favoráveis de dois terços dos associados presentes. O mesmo texto prevê participação do Conselho e da Assembleia em decisões sobre transformação em SAF ou alteração da participação do Santos nessa sociedade.
Existe uma ressalva importante: como justamente essas regras estão em processo de reforma, o procedimento definitivo da futura operação precisará ser conferido no texto que efetivamente for aprovado pelos associados.
Aprovar o novo Estatuto também não equivale a aprovar a venda para a SDC
São decisões relacionadas, mas não necessariamente idênticas.
A reforma estatutária pode criar o espaço jurídico interno para que um investidor detenha o controle da SAF. Isso não significa, por si só, concordância automática com todos os termos negociados especificamente com a SDC Sports.
A própria nota de 7 de agosto mantém a conclusão da transação condicionada às “aprovações internas aplicáveis” do Conselho Deliberativo e da Assembleia Geral. Portanto, não há base pública, neste momento, para tratar a eventual aprovação do novo Estatuto como autorização definitiva e irreversível da operação com a SDC.
Na prática, o processo tem dois assuntos que se cruzam: o Santos precisa definir quais operações sua estrutura interna permite e, depois, os órgãos competentes precisam analisar a transação concreta que será apresentada.
O que pode acontecer até 31 de agosto
Segundo o UOL, foi marcada para 31 de agosto uma reunião do Conselho Deliberativo para que representantes da SDC Sports apresentem o grupo e seus planos aos conselheiros. A reportagem afirma que a intenção dessa primeira reunião é apresentar o projeto e que nenhuma decisão sobre a venda está prevista para o encontro.
A data exige uma distinção: 31 de agosto foi divulgada pela imprensa como data da apresentação ao Conselho; a nota oficial do Santos de 7 de agosto não estabeleceu 31 de agosto como prazo para concluir a venda. O comunicado do clube apenas informa que a SDC apresentará o projeto ao Conselho Deliberativo.
Até lá, alguns movimentos podem avançar em paralelo:
- a votação e consolidação do novo Estatuto pelo Conselho;
- a preparação de uma futura Assembleia Geral dos associados, caso a reforma estatutária seja concluída;
- a diligência confirmatória entre Santos e SDC Sports;
- a negociação dos documentos definitivos e de condições econômicas e de governança;
- a preparação da apresentação da SDC Sports aos conselheiros.
Nenhuma dessas etapas, isoladamente, representa transferência de controle.
Três desfechos continuam possíveis
O primeiro é o avanço da negociação. Se reforma estatutária, aprovações internas, diligência e contratos convergirem, Santos e SDC poderão caminhar para uma transação definitiva.
O segundo é uma renegociação. A diligência confirmatória, as exigências dos órgãos do clube ou a redação final do Estatuto podem levar a alterações de percentual, obrigações, governança ou outras condições. Como o term sheet não foi divulgado integralmente, não é possível afirmar quais pontos admitem alteração nem quais cláusulas específicas eventualmente tenham força vinculante.
O terceiro é a operação não ser concluída. Uma reprovação interna, uma divergência durante a diligência ou a ausência de acordo na documentação definitiva pode interromper o processo. O próprio Santos continua tratando a conclusão da transação como condicionada, e não como fato consumado.
A informação mais segura neste momento, portanto, é menos dramática do que “o Santos foi vendido”: Santos e SDC Sports chegaram a um entendimento preliminar mais avançado sobre uma futura participação de controle, mas o negócio ainda precisa atravessar etapas institucionais e contratuais relevantes.
Até 31 de agosto, a principal mudança esperada é que o projeto deixe de circular apenas entre dirigentes, assessores e negociadores e seja apresentado formalmente ao Conselho. A decisão final, contudo, continua dependendo de um caminho mais longo e também dos associados do clube.





