Bastidores e Gestão23/08/2026Redação do Futebol Carioca10 min de leituraAtualizado em 15/09/2026

Quanto faturaram Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo em 2025? Ranking e origem das receitas

Os balanços de 2025 mostram Flamengo na liderança de receitas, mas a comparação exige separar operação recorrente, premiações, vendas de atletas e efeitos extraordinários.

Montagem editorial com os escudos de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo diante de um estádio e da paisagem do Rio, com moedas, gráficos e referências ao faturamento de 2025.

Os balanços de 2025 colocam o Flamengo na liderança financeira entre os quatro grandes do Rio. No critério amplo divulgado pelo próprio clube, a receita bruta total consolidada chegou a R$ 2,089 bilhões. O Botafogo aparece em seguida: suas demonstrações registram R$ 655,033 milhões de receita operacional bruta e R$ 733,361 milhões em transações de direitos de atletas, soma de aproximadamente R$ 1,388 bilhão. O Fluminense alcançou R$ 1,022 bilhão de receita total sem deduções. O Vasco divulgou, em sua apresentação gerencial, R$ 683 milhões de receita total, mas esse número exige uma nota metodológica importante antes de ser comparado diretamente aos demais.

A ordem, portanto, não muda: Flamengo em primeiro, Botafogo em segundo, Fluminense em terceiro e Vasco em quarto. O que muda bastante é a qualidade e a composição dessa arrecadação. Dois clubes podem superar R$ 1 bilhão e, ainda assim, depender de fontes completamente diferentes. Também é preciso separar receita contábil de caixa recebido: reconhecer uma venda de atleta no resultado não significa que todo o valor entrou na conta bancária naquele mesmo ano.

Por que “receita total” muda entre os clubes

Não existe uma linha padronizada chamada “faturamento total” usada do mesmo modo pelos quatro clubes. Flamengo e Fluminense são associações, enquanto Vasco e Botafogo apresentam demonstrações de suas SAFs. Além disso, cada relatório organiza premiações, transferências de atletas, receitas de estádio e efeitos extraordinários de maneira própria.

Há ainda uma diferença de perímetro entre os dois sócios da operação do Maracanã. O relatório de transparência do Flamengo informa que os números de 2025 são consolidados e incluem receitas e despesas da Fla-Flu Serviços S.A., responsável pela gestão do estádio. O Fluminense, que detém 35% da empresa, reconhece sua participação pelo método de equivalência patrimonial; por isso, a receita da operadora não entra integralmente no topo de sua demonstração. Isso não invalida a comparação, mas impede tratar os números como se fossem produzidos por estruturas societárias idênticas.

Para responder quem arrecadou mais, a melhor saída é mostrar o número amplo de cada documento e, logo depois, abrir de onde ele veio. É isso que revela se a receita é mais previsível ou se foi puxada por venda de jogadores, premiações e outros eventos que podem não se repetir.

Flamengo: R$ 2,089 bilhões e receita diversificada

O Flamengo encerrou 2025 com receita bruta total consolidada de R$ 2,089 bilhões. Desse valor, R$ 1,571 bilhão foi classificado pelo clube como receita recorrente e R$ 519 milhões vieram da venda de atletas. Pelos valores arredondados do relatório, aproximadamente três quartos do total estavam na cesta chamada de recorrente e cerca de um quarto veio do mercado de transferências.

A composição da receita recorrente ajuda a explicar a distância para os rivais. O grupo de broadcast somou R$ 612 milhões, o comercial R$ 541 milhões, o matchday R$ 322 milhões e outros R$ 96 milhões. O próprio Flamengo atribui a expansão do broadcast principalmente às premiações esportivas e à participação na Copa do Mundo de Clubes, enquanto o comercial avançou com patrocínios e licenciamento e o matchday cresceu com a operação plena do Maracanã.

É preciso, porém, ler a palavra “recorrente” com o critério usado pelo clube. O Flamengo exclui as vendas de atletas desse bloco, mas mantém premiações dentro de broadcast. Premiação depende de classificação e desempenho esportivo e, portanto, não possui a mesma previsibilidade de um contrato comercial plurianual. Ainda assim, a força do Flamengo está justamente na combinação: mesmo sem os R$ 519 milhões de transferências, o clube teria produzido uma receita superior ao faturamento total dos rivais.

Outro ponto importante é não confundir venda de atletas com lucro. Os R$ 519 milhões representam receita de transferências. O efeito econômico final depende de custos, percentuais de terceiros, valor contábil dos direitos e demais despesas associadas à negociação.

Botafogo: R$ 1,388 bilhão, com peso das transferências

A SAF Botafogo apresentou R$ 655,033 milhões de receita operacional bruta em 2025. Separadamente, a demonstração de resultado registrou R$ 733,361 milhões em receitas de transações de direitos de atletas. Somadas, essas duas linhas chegam a aproximadamente R$ 1,388 bilhão.

A composição é muito diferente da do Flamengo. As transações de atletas equivalem a pouco mais da metade desse total amplo. Na operação corrente, os direitos de transmissão somaram R$ 111,175 milhões. Premiações e participações em competições chegaram a cerca de R$ 269,091 milhões, com forte contribuição do Mundial de Clubes. A bilheteria foi de R$ 17,494 milhões. Patrocínios, publicidade, programas de torcedor e licenciamento, reunidos nas linhas comerciais do balanço, somaram aproximadamente R$ 148,163 milhões.

O dado mais chamativo é a dependência de negociações de jogadores. Os R$ 733,361 milhões são receita bruta de transações, não resultado líquido. O próprio balanço registra R$ 448,843 milhões de gastos nas transações de direitos de atletas. Isso reduz bastante a contribuição efetiva dessas operações para o resultado.

Há também uma ressalva de qualidade da informação que não pode ser escondida. A BDO apresentou abstenção de opinião sobre as demonstrações de 2025 da SAF Botafogo, afirmando que não conseguiu obter evidência de auditoria apropriada e suficiente em temas relevantes. Entre os pontos citados estão continuidade operacional, confirmações externas, partes relacionadas e recuperabilidade de recebíveis. Assim, o total de R$ 1,388 bilhão deve ser lido como valor apresentado nas demonstrações, não como cifra que recebeu uma opinião de auditoria sem limitações.

Fluminense: R$ 1,022 bilhão e premiações em alta

O Fluminense registrou R$ 1,022 bilhão de receita total sem deduções em 2025. O clube separa R$ 233,378 milhões de cessão de direitos econômicos de atletas e mecanismo de solidariedade e R$ 789,065 milhões de receita sem transferências.

O grande motor do salto foi a premiação por performance, que alcançou R$ 363,905 milhões. Os direitos de transmissão somaram R$ 162,375 milhões, patrocínios e licenciamento R$ 132,129 milhões, sócio futebol R$ 59,684 milhões, bilheteria e outras receitas de jogos R$ 43,535 milhões, e clube social, esportes olímpicos e outras fontes R$ 27,437 milhões. As transferências responderam por R$ 233,378 milhões.

O próprio relatório oferece uma régua mais conservadora de recorrência. Quando retira apenas as transferências, a receita recorrente fica em R$ 789,065 milhões. Quando retira também as premiações, cai para R$ 425,160 milhões. Essa segunda medida mostra melhor quanto da receita de 2025 estava menos exposta ao desempenho esportivo e ao mercado de atletas.

Premiações e transferências, juntas, responderam por aproximadamente 58% da receita total do Fluminense. Isso não diminui o mérito econômico de um ano muito forte, mas mostra por que R$ 1 bilhão em 2025 não deve ser automaticamente tratado como um novo piso anual. A participação na Copa do Mundo de Clubes e o desempenho em competições elevaram uma parcela de receita que pode variar muito de uma temporada para outra.

As demonstrações do Fluminense receberam opinião de auditoria com ressalva. O relatório também chama atenção para incerteza relevante sobre continuidade operacional. Para a comparação de

receitas, os números continuam úteis, mas o status da auditoria faz parte da leitura responsável do balanço.

Vasco: por que R$ 683 milhões exige cautela

O caso do Vasco é o que mais exige separar apresentação gerencial de demonstração contábil. Na seção de desempenho econômico-financeiro, a SAF afirma que a receita total chegou a R$ 683 milhões em 2025 e que R$ 561 milhões seriam receita operacional. A mesma apresentação diz que a operação representou cerca de 82% do total.

Na demonstração auditada, porém, a receita operacional bruta é de R$ 446,349 milhões. Ela é formada por R$ 147,061 milhões de direitos de transmissão, R$ 108,207 milhões de marketing, R$ 65,860 milhões de premiações, R$ 49,947 milhões de bilheteria, R$ 46,574 milhões de sócio-torcedor, além de licenciamento, venda de jogos, Tour da Colina e receitas diversas. Fora dessa linha, a SAF reconheceu R$ 123,866 milhões de receita com transações de atletas.

Somar a receita operacional bruta e a receita com transações de atletas produz aproximadamente R$ 570,215 milhões. A diferença para o número gerencial de R$ 683 milhões fica praticamente explicada por R$ 114,285 milhões registrados em outras receitas e despesas operacionais. A nota 29 informa que nessa conta foram alocados deságios referentes às condições do Plano de Recuperação Judicial.

Esse detalhe é decisivo. Deságio obtido na reestruturação de uma dívida melhora o resultado contábil, mas não é venda de ingresso, contrato de TV, patrocínio ou outra arrecadação recorrente de clientes. Por isso, o R$ 683 milhões pode ser usado como o conceito de “receita total” apresentado pela administração, desde que não seja colocado na mesma coluna dos demais sem explicar sua composição. Para uma comparação mais próxima de faturamento operacional mais venda de atletas, a referência de aproximadamente R$ 570 milhões é mais limpa.

A receita de transações de atletas foi de R$ 123,866 milhões, enquanto o custo dessas transações chegou a R$ 81,257 milhões. O exemplo reforça a mesma regra aplicada ao Botafogo: o valor bruto negociado não é sinônimo de lucro.

O relatório do auditor do Vasco trouxe opinião com ressalva, incluindo limitações na validação de algumas rubricas e questionamento contábil sobre o passivo contratual da Futebol Forte União. Também registrou incerteza relevante relacionada à continuidade operacional. Esses pontos não apagam a melhora de receita, mas recomendam cautela ao transformar qualquer número isolado em diagnóstico de saúde financeira.

Qual receita é mais recorrente?

O Flamengo apresenta a estrutura mais robusta e diversificada entre os quatro. O critério gerencial do clube aponta R$ 1,571 bilhão de receita sem venda de atletas, apoiada em broadcast, comercial, matchday e outras fontes. Mesmo lembrando que esse bloco inclui premiações, a escala das receitas comerciais e de estádio reduz a dependência de um único evento extraordinário.

O Fluminense teve um 2025 excepcional, mas o próprio balanço mostra a diferença entre “sem transferências” e “sem transferências e premiações”. Na régua mais conservadora, R$ 425,160 milhões permaneceriam após retirar essas duas fontes voláteis. Isso ajuda a dimensionar quanto o recorde de R$ 1,022 bilhão esteve ligado à temporada esportiva e ao mercado de jogadores.

O Botafogo teve o maior peso de transferências. A receita de transações de atletas superou a própria receita operacional bruta. Além disso, uma parcela relevante da operação veio de premiações e participações em competições. Isso produz um ano de receita elevada, mas com menor previsibilidade para o exercício seguinte.

No Vasco, transmissão, marketing, bilheteria, sócio-torcedor e premiações cresceram e formam uma

base operacional relevante. O problema metodológico é que a apresentação de R$ 561 milhões como receita operacional fica muito próxima da soma da receita operacional bruta auditada com efeitos contábeis da recuperação judicial. Para medir recorrência, portanto, é mais seguro partir das linhas detalhadas da nota de receita e deixar os deságios da recuperação judicial fora dessa leitura.

O ranking é claro; a sustentabilidade, não

Pelo tamanho da receita apresentada, o Flamengo foi o clube carioca que mais arrecadou em 2025, com R$ 2,089 bilhões. O Botafogo aparece em segundo quando se somam receita operacional bruta e receita de transações de atletas, cerca de R$ 1,388 bilhão. O Fluminense vem depois, com R$ 1,022 bilhão. O Vasco encerra a ordem, seja pelos R$ 683 milhões da apresentação gerencial, seja pela régua mais comparável de aproximadamente R$ 570 milhões formada por receita operacional bruta mais transações de atletas.

Mas “quem faturou mais?” é apenas a primeira camada. O Flamengo combina escala comercial, estádio, mídia e venda de jogadores. O Botafogo teve mais da metade do total amplo vinculada a transações de atletas. O Fluminense dependeu fortemente de premiações e transferências para superar R$ 1 bilhão. O Vasco cresceu suas linhas operacionais, mas seu número gerencial de receita total mistura um efeito extraordinário da recuperação judicial que não deve ser confundido com faturamento recorrente.

Para acompanhar 2026 e os próximos anos, a pergunta mais útil é quanto cada clube consegue repetir sem precisar vender um grande jogador, avançar muito em torneios ou reconhecer um ganho contábil extraordinário. É essa base recorrente, combinada com controle de custos e capacidade de transformar receita em caixa, que diferencia um recorde de temporada de uma estrutura financeira sustentável.

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