Bastidores e Gestão26/08/2026Redação do Futebol Carioca11 min de leituraAtualizado em 17/09/2026

Folha salarial de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo: o que os balanços mostram e por que os números de 2026 divergem

Os balanços de 2025 permitem comparar gastos anuais, mas não revelam uma folha mensal única de 2026. Entenda o que entra em cada número e onde a comparação muda.

Montagem editorial com escudos estilizados de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo,

Em 2026, é fácil encontrar quatro números diferentes para a mesma pergunta: quanto Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo gastam com a folha? O problema é que boa parte das respostas mistura conceitos. Um balanço anual mostra despesas reconhecidas ao longo de 2025; uma reportagem pode dividir esse total por 13; uma base como a Capology estima salários do elenco principal; e o Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF usa uma definição própria de custo do elenco. Esses números podem ser corretos dentro de seus métodos e, ainda assim, não serem diretamente comparáveis.

A comparação mais consistente disponível para os quatro clubes parte das demonstrações de 2025 e do levantamento da SportsValue publicado em 2026. Nesse recorte, os gastos salariais anuais foram de aproximadamente R$ 696 milhões no Flamengo, R$ 522 milhões no Fluminense, R$ 335 milhões no Botafogo SAF e R$ 291 milhões no Vasco SAF. A própria SportsValue define essa métrica como salários, direitos de imagem e bonificações. Ela é útil para medir a dimensão do gasto no exercício, mas não deve ser tratada como a folha mensal vigente em agosto de 2026.

O ponto principal é este: não existe, nos balanços anuais de 2025, uma linha universal chamada “folha mensal do elenco profissional de 2026”. Para chegar a esse número é preciso escolher período, perímetro e componentes. Quando esses critérios mudam, o total muda junto.

O ranking de 2025 é a melhor base comum, mas não é uma fotografia de 2026

O ranking publicado pela SportsValue coloca Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco em R$ 696 milhões, R$ 522 milhões, R$ 335 milhões e R$ 291 milhões, respectivamente, em gastos salariais de 2025. Em maio de 2026, o R7 reproduziu a lógica para os principais clubes e transformou alguns totais anuais em equivalentes mensais dividindo por 13, para considerar o 13º salário. Assim, R$ 696 milhões aparecem como cerca de R$ 53 milhões por mês; R$ 522 milhões, como R$ 40 milhões; e R$ 335 milhões, como R$ 26 milhões.

Essa divisão é uma normalização aritmética, não uma folha observada em um mês específico de 2026. Ela espalha por 13 parcelas despesas que ocorreram ao longo de 2025, embora bônus, luvas, premiações, férias, encargos e mudanças de elenco não sejam uniformes mês a mês. O Vasco, com R$ 291 milhões no ranking da SportsValue, ficaria em cerca de R$ 22,4 milhões se o mesmo total fosse simplesmente dividido por 13, mas isso continuaria sendo apenas um equivalente do exercício anterior.

Em agosto de 2026, os elencos já passaram por contratações, saídas, renovações e ajustes. Portanto, chamar os valores anuais de 2025 de “folha de 2026” sem explicar a origem cria uma precisão que o dado não tem.

Flamengo: os R$ 696 milhões podem ser reproduzidos no balanço

No Flamengo, a demonstração financeira de 2025 permite enxergar de onde vem o número do ranking. A nota de custo das atividades sociais e esportivas registra R$ 525,089 milhões em salários, encargos e benefícios a funcionários e R$ 171,094 milhões em direitos de imagem. A soma chega a R$ 696,183 milhões, praticamente os R$ 696 milhões divulgados no levantamento.

A mesma nota registra separadamente R$ 243,716 milhões em amortizações de direitos sobre atletas e R$ 131,954 milhões em gastos com jogos e competições. Isso mostra por que “folha” e “custo do futebol” não são sinônimos. Se alguém acrescentar a amortização ao bloco de salários e imagem, o valor sobe muito, mas essa soma bruta também não pode ser apresentada automaticamente como o custo regulatório do elenco, porque a nota contábil tem um perímetro mais amplo e o SSF exige classificação específica.

O próprio balanço ajuda a entender o salto de 2025: a administração informa que o crescimento de salários, encargos e benefícios em relação a 2024 refletiu principalmente a evolução da folha do futebol profissional masculino e as premiações decorrentes do desempenho esportivo. Ainda assim, a rubrica é contábil e anual, não uma tabela de salários individuais do elenco atual.

Fluminense: os R$ 522 milhões incluem mais do que salário-base de jogador

No Fluminense, a nota de salários, encargos e benefícios com atletas e demais funcionários totaliza R$ 521,663 milhões em 2025. O detalhamento mostra R$ 188,706 milhões em salários a atletas e demais funcionários, R$ 22,965 milhões em luvas contratuais, R$ 104,582 milhões em direitos de imagem a atletas, R$ 13,014 milhões em prestadores de serviço do futebol e R$ 17,344 milhões em prestadores de outras áreas.

Além disso, aparecem R$ 98,894 milhões em prêmios e gratificações, R$ 22,090 milhões em provisão de férias, R$ 15,584 milhões em provisão de 13º salário, R$ 4,992 milhões em

assistência médica, R$ 5,507 milhões em outros itens e R$ 27,983 milhões em tributos incidentes. A própria nota esclarece que “outras áreas” abrangem esportes olímpicos, back-office e outras áreas do clube.

Essa composição é decisiva. O número de R$ 522 milhões é um total amplo de remuneração, encargos e benefícios do exercício. Ele não equivale a dizer que o elenco profissional masculino custava R$ 40 milhões em salários-base por mês. O balanço também reconhece R$ 84,353 milhões em amortizações e baixas dos direitos de jogadores em outra linha, o que reforça que a resposta muda conforme a pergunta seja “remuneração”, “folha”, “custo do elenco” ou “custo total do futebol”.

A diferença aparece até dentro do próprio documento: os custos e despesas operacionais do futebol masculino, profissional e amador, somaram R$ 744,836 milhões em 2025. Esse total inclui muito mais do que remuneração e, por isso, não deve ser colocado na mesma coluna de um ranking de folha salarial.

Vasco: R$ 291 milhões é a soma de duas rubricas relevantes, com uma ressalva de auditoria

No Vasco SAF, a divulgação das demonstrações de 2025 traz R$ 208,222 milhões em salários, encargos e benefícios a funcionários classificados como custo e R$ 82,988 milhões em direitos de imagem, também como custo. Somados, os dois valores chegam a R$ 291,210 milhões, em linha com os R$ 291 milhões do ranking da SportsValue.

Há, porém, uma ressalva importante para a leitura. O relatório do auditor informou que, até a data de emissão, não havia conseguido concluir procedimentos de auditoria necessários sobre várias rubricas, incluindo justamente os R$ 208,222 milhões de salários, encargos e benefícios e os R$ 82,988 milhões de direitos de imagem. A mesma ressalva menciona ainda R$ 24,267 milhões de salários, encargos e benefícios classificados como despesas administrativas.

Isso não significa que os valores estejam errados. Significa que o leitor deve preservar a limitação apontada pelo auditor em vez de tratar a cifra como se tivesse o mesmo grau de verificação de uma rubrica sem ressalva. Também reforça a necessidade de separar custo de futebol de despesa administrativa antes de tentar criar uma “folha” única.

Botafogo: os R$ 335 milhões de 2025 não descrevem automaticamente o elenco de 2026

Para o Botafogo SAF, a SportsValue aponta R$ 335 milhões em gastos salariais de 2025. O valor coloca o clube abaixo de Flamengo e Fluminense e acima do Vasco nesse recorte anual. O R7, usando a divisão por 13, apresentou um equivalente de aproximadamente R$ 26 milhões por mês.

O problema é temporal. O próprio ranking publicado em 2026 observa que o elenco de 2025 ainda carregava jogadores de custo elevado, enquanto o clube já havia passado por saídas importantes desde o título da Libertadores de 2024. Uma média baseada em todo o exercício de 2025, portanto, não acompanha em tempo real a estrutura do plantel de 2026.

A situação financeira do Botafogo em 2026 também acrescentou outra camada à discussão, com notícias sobre dificuldades de liquidez e obrigações com jogadores. Mas atraso ou capacidade de pagamento é um problema de caixa e de dívida; não altera, por si só, a definição contábil do gasto reconhecido no exercício. Misturar os dois temas faz parecer que “folha” mede também

inadimplência, o que não é correto.

Por que os números de 2026 não batem

O ano contábil não é a folha atual

Balanços de 2025 registram despesas reconhecidas entre janeiro e dezembro daquele ano. Já uma notícia de agosto de 2026 pode tentar estimar o que o clube paga naquele momento. Um jogador contratado em janeiro de 2026 não aparece no gasto de 2025; um atleta vendido no começo de 2026 pode ter pesado durante quase todo o exercício anterior. Comparar os dois sem ajustar o período é comparar fotografias de momentos diferentes.

O perímetro de pessoas muda

Uma fonte pode contar apenas jogadores do time principal. Outra inclui comissão técnica. Uma demonstração financeira pode reunir atletas, funcionários do departamento de futebol, categorias de base, esportes olímpicos, back-office ou benefícios corporativos em uma mesma nota. O caso do Fluminense deixa isso explícito ao incluir prestadores de outras áreas no total de R$ 521,663 milhões.

Por isso, um número extraído diretamente do balanço pode ser mais oficial e, ao mesmo tempo, menos específico para a pergunta “quanto custa o elenco profissional masculino?”. Oficialidade e comparabilidade não são a mesma coisa.

Salário-base é só uma parte da remuneração

Direitos de imagem, luvas, bônus, premiações, férias, 13º salário, FGTS, INSS, PIS, benefícios e remuneração de prestadores podem aparecer em linhas próprias ou agrupadas. Uma base de salários individuais pode excluir vários desses componentes; o balanço pode incorporá-los no custo do período.

É por isso que uma estimativa de salário fixo do elenco pode ser muito menor do que um total anual de “gastos salariais”. Os dois números respondem perguntas diferentes.

Amortização não é salário, mas passou a importar ainda mais

Quando um clube compra os direitos de um jogador, o desembolso da transferência não costuma virar integralmente despesa salarial no mês da contratação. O valor do direito adquirido é reconhecido como ativo e amortizado ao longo do contrato, conforme as regras contábeis aplicáveis. Essa amortização é um custo econômico do elenco, mas não é salário recebido pelo atleta.

A distinção ganhou relevância com o Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF. No modelo apresentado pela entidade, o “custo do elenco” é composto por salários, encargos, direitos de imagem e amortizações. O limite estrutural é calculado em relação à soma de receitas, transferências e aportes, com implantação gradual iniciada em 2026 e anos de transição antes da vigência plena.

Portanto, um ranking que mede apenas salários, imagem e bonificações não reproduz automaticamente a métrica do SSF. Para isso, seria preciso reconstruir o perímetro regulatório, incluir amortizações pertinentes e aplicar os critérios definidos pela CBF.

Capology e balanço oficial não usam o mesmo universo

A Capology é útil para estimar salários do time principal e contratos individuais, mas a própria plataforma avisa que seus números são estimativas e não representam valores oficiais. Sua definição de salário fixo exclui direitos de imagem, acordos comerciais, bônus e outros benefícios. A plataforma também reconhece que demonstrações financeiras oficiais costumam conter custos de pessoal mais amplos, como categorias de base, equipe feminina, administrativos e contribuições sociais, que ela não acompanha da mesma forma.

Esse aviso metodológico explica boa parte das discrepâncias. Usar Capology para responder “quanto o primeiro time recebe em salários estimados?” pode ser adequado. Usá-la como substituta de uma linha contábil de custos totais não é.

O mesmo relatório muda completamente de escala quando a métrica vira custo total do futebol

A própria SportsValue oferece um teste útil. No ranking de “gastos salariais” de 2025, a ordem entre os quatro é Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco, com R$ 696 milhões, R$ 522 milhões, R$ 335 milhões e R$ 291 milhões. Quando o relatório passa para “custos com futebol”, incluindo salários, custeio das operações, contratações e custos de transferências, os valores saltam para aproximadamente R$ 1,124 bilhão no Botafogo, R$ 1,044 bilhão no Flamengo, R$ 831 milhões no Fluminense e R$ 623 milhões no Vasco.

Não é contradição. É outra métrica. O exemplo mostra por que uma manchete que usa “folha”, “custo do elenco” e “custo do futebol” como sinônimos pode inverter até a ordem dos clubes.

O que é realmente comparável entre os quatro

Para uma comparação editorial simples, o recorte anual de 2025 da SportsValue é o ponto de partida mais homogêneo: Flamengo R$ 696 milhões, Fluminense R$ 522 milhões, Botafogo R$ 335 milhões e Vasco R$ 291 milhões em gastos salariais. Ele permite dimensionar o peso relativo dos quatro durante o mesmo exercício e com uma classificação declarada.

Para uma comparação contábil mais rigorosa, porém, é necessário voltar às notas de cada balanço e verificar o que foi incluído em salários, imagem, bônus, encargos, pessoal administrativo e outras áreas. Flamengo e Fluminense mostram com clareza que uma mesma cifra agregada pode conter componentes que não pertencem exclusivamente ao elenco profissional. No Vasco, a ressalva de auditoria precisa acompanhar a leitura. No Botafogo, o número padronizado é útil, mas não deve ser transformado sem explicação em folha corrente de 2026.

Para uma comparação regulatória pelo SSF, o trabalho é outro: é preciso seguir o conceito de custo do elenco da CBF, com salários, encargos, direitos de imagem e amortizações, além do perímetro e das receitas relevantes usados pela regra. Um ranking de salários não basta.

Afinal, qual clube tem a maior folha?

Se a pergunta for “qual dos quatro teve o maior gasto salarial anual em 2025 no recorte comparável da SportsValue?”, a resposta é Flamengo, com cerca de R$ 696 milhões, seguido por Fluminense, R$ 522 milhões, Botafogo, R$ 335 milhões, e Vasco, R$ 291 milhões.

Se a pergunta for “qual é a folha mensal atual de cada elenco em 2026?”, os balanços de 2025 não entregam essa resposta sozinhos. Seria necessário obter uma posição atualizada dos

contratos e definir previamente se entram apenas salários fixos ou também imagem, encargos, bônus, comissão técnica, outros funcionários e provisões.

E se a pergunta for “quanto custa o elenco para o SSF da CBF?”, a comparação precisa incluir amortizações e seguir o conceito regulatório. É justamente por isso que os números de 2026 não batem: na maior parte das vezes, eles não estão medindo a mesma coisa.

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