A resposta mais segura é: não, Franz Kafka não escreveu que Gregor Samsa virou uma barata. Na frase que abre A Metamorfose, o narrador diz que ele acordou transformado "zu einem ungeheueren Ungeziefer". A dificuldade está justamente em Ungeziefer, palavra alemã ampla e desagradável, sem o grau de precisão zoológica que "barata" teria em português.
Isso não significa que toda tradução por "inseto" esteja errada. O corpo descrito por Kafka é claramente não humano e tem traços que lembram um grande artrópode, e o próprio autor, numa carta de 1915, usa a palavra Insekt ao falar da criatura. O problema começa quando uma solução tradutória ou uma imagem cultural passa a ser tratada como se fosse uma identificação textual de espécie.
A resposta curta: Kafka não escreveu "barata"
O original não usa Kakerlake, Schabe ou outra palavra alemã que nomeie especificamente uma barata. Usa Ungeziefer, precedida por ungeheueren. Dependendo do contexto, ungeheuer pode carregar ideias como monstruoso, enorme, desmedido ou terrível. Já Ungeziefer funciona como um termo genérico para animais indesejados, nocivos ou repugnantes.
O Duden, um dos principais dicionários do alemão, define Ungeziefer como um conjunto de pragas animais, incluindo exemplos tão diferentes quanto piolhos, percevejos, ácaros, ratos e camundongos. A própria amplitude desses exemplos mostra por que a palavra não aponta para uma espécie. A etimologia também é expressiva: o termo remonta a uma ideia de animal impróprio para sacrifício, que depois se estreitou para designar seres vistos como nocivos ou indesejáveis.
Em português, não há um equivalente perfeito que preserve ao mesmo tempo a generalidade, a repulsa e o ritmo do original. "Praga" pode soar abstrato demais. "Verme" cria outra imagem zoológica. "Bicho" é amplo, mas pode parecer informal. "Inseto" é mais claro e combina com várias pistas do corpo, embora seja mais específico do que Ungeziefer em sentido dicionarizado. É nesse espaço que as traduções começam a divergir.
O corpo de Gregor dá pistas, mas não fecha a espécie
Kafka descreve o novo corpo aos poucos. Logo no início, Gregor percebe um dorso duro como uma couraça, um ventre convexo e marrom dividido por saliências curvas e muitas pernas finas em relação ao tamanho do corpo. Mais adiante, ele aprende a usar seus Fühler, termo que pode ser traduzido como antenas ou apêndices sensoriais, percebe que não tem dentes propriamente ditos, mas possui mandíbulas fortes, e consegue aderir a superfícies e rastejar pelas paredes e pelo teto.
Esses detalhes tornam perfeitamente compreensível que muitos leitores imaginem um inseto. Eles também ajudam a explicar por que "inseto monstruoso" se tornou uma solução tão estável em português. Mas as peças não formam uma ficha taxonômica. Kafka não informa uma espécie, não oferece uma descrição anatômica completa e, em vários momentos, trata o corpo por sensações parciais, descobertas conforme Gregor tenta se mover, comer ou atravessar o quarto.
Por isso, dizer "é uma criatura de aspecto insetoide" é mais defensável do que dizer "é uma barata". A primeira formulação resume pistas do texto. A segunda acrescenta uma identificação que o narrador não fornece.
E o "besouro" citado no fim da novela?
Há uma passagem que costuma alimentar outra resposta categórica. No terceiro capítulo, a velha empregada que não demonstra o mesmo medo dos outros personagens chama Gregor de "alter Mistkäfer". Mistkäfer é um besouro associado a esterco, algo próximo de "velho besouro do esterco" ou "velho escaravelho".
Isso não transforma a fala em laudo do narrador. É uma personagem dando a Gregor um apelido grosseiro, num contexto em que ela o trata com familiaridade e desprezo. A palavra revela como ela o enxerga, não uma classificação estabelecida pela voz narrativa.
A distinção importa porque A Metamorfose trabalha o tempo todo com o contraste entre o que Gregor ainda pensa e sente como pessoa e o que os outros passam a enxergar quando olham para ele. Uma designação lançada por uma personagem não tem o mesmo peso de uma identificação objetiva feita pelo narrador.
Por que tantas traduções escolhem "inseto"
A escolha por "inseto" não nasceu do nada. Ela resolve uma dificuldade real: entrega rapidamente ao leitor uma imagem compatível com boa parte da descrição corporal e evita palavras que, em português, poderiam soar estranhas ou deslocadas.
Modesto Carone, uma das principais referências brasileiras na tradução de Kafka diretamente do alemão, verteu a passagem como "inseto monstruoso". Em seus comentários sobre a frase, reconheceu que a solução era correta em um sentido geral, mas não preservava todos os efeitos do alemão. Um deles é a sequência de palavras com o prefixo un- no início da novela, que participa do clima de negação e estranhamento da frase.
A tradutora Raquel Abi-Sâmara discutiu o mesmo problema em um artigo de 2021 na Cadernos de Tradução, da UFSC. Ao retraduzir a obra, ela buscou uma forma menos domesticada e propôs "monstruoso bicho repugnante". Segundo seu relato, a edição publicada substituiu "bicho" por "inseto", mantendo "repugnante". O caso mostra que a tradução de um clássico não depende apenas do dicionário: tradição editorial, expectativa do leitor e escolhas de revisão também pesam.
Um estudo de Helmut Galle publicado em 2023, ao comparar 22 traduções brasileiras da novela, voltou a encontrar forte concentração em fórmulas como "inseto monstruoso" e "monstruoso inseto". A recorrência ajuda a consolidar "inseto" como resposta familiar, mas familiaridade não transforma uma solução tradutória em espécie zoológica explicitada pelo original.
De onde veio a barata no imaginário brasileiro
A associação com a barata é especialmente forte no Brasil, e a pesquisa de Tito Lívio Cruz Romão ajuda a separar tradução de recepção cultural. Em artigo publicado pela Revista Graphos, da UFPB, o pesquisador comparou 31 versões de Die Verwandlung em português, espanhol, italiano, francês e inglês, com atenção especial a Ungeziefer e à imagem da barata.
O estudo mostra que a barata se tornou uma referência recorrente na recepção brasileira mesmo quando não aparece como escolha do tradutor para a palavra alemã. Um exemplo é particularmente esclarecedor. Na edição brasileira de 1965 traduzida por Brenno Silveira, a abertura falava em "uma espécie monstruosa de inseto", mas a quarta capa descrevia o personagem como metamorfoseado em barata. Ou seja: o próprio objeto editorial podia oferecer ao leitor duas respostas diferentes, uma no texto traduzido e outra no paratexto.
Capas, resumos, adaptações, quadrinhos, vídeos, aulas e referências populares repetidas ao longo de décadas podem fixar uma imagem mais depressa do que a formulação ambígua do original. Quando isso acontece, é fácil lembrar "Gregor vira uma barata" como se a frase estivesse no livro.
A força dessa associação não a torna absurda. Uma barata é uma das imagens possíveis evocadas por um grande bicho rastejante, marrom e repulsivo. O salto indevido está em transformar uma possibilidade visual em informação textual definitiva.
A carta de 25 de outubro de 1915 é a pista decisiva sobre a imagem
Pouco antes da publicação em livro, Kafka soube que Ottomar Starke faria a ilustração da capa. Em carta datada de 25 de outubro de 1915 à editora Kurt Wolff Verlag, reagiu ao risco de o artista desenhar a criatura. Kafka pediu que o inseto em si não fosse desenhado e acrescentou que ele não deveria ser mostrado nem de longe.
A carta exige uma leitura cuidadosa. Primeiro, Kafka usa Insekt, "inseto", ao se referir à criatura fora do texto literário. Isso dá apoio a traduções que escolhem "inseto" como termo geral. Segundo, e talvez mais importante, ele rejeita a fixação visual da forma. Como alternativas para a capa, sugere cenas em que os familiares estão diante da porta fechada ou em um cômodo iluminado enquanto o quarto escuro de Gregor permanece aberto.
A carta, portanto, não serve para provar que Gregor "não é um inseto". Ela mostra algo mais preciso: Kafka não queria que a criatura fosse reduzida a uma figura visual determinada. Essa resistência combina com a estratégia narrativa de fornecer características corporais sem nomear uma espécie.
É justamente aí que uma capa moderna com uma barata pode ser lida de duas maneiras. Se apresentada como a resposta, simplifica o texto. Se apresentada como a imagem popular que o artigo está interrogando, ela pode funcionar como ponto de partida para a dúvida.
Então, em que Gregor Samsa se transforma?
No nível mais fiel ao original, Gregor se transforma em um ungeheueres Ungeziefer: uma criatura monstruosa, nociva, repugnante ou indesejável cuja espécie não é especificada. "Inseto monstruoso" é uma tradução tradicional e defensável, especialmente porque o corpo descrito é fortemente insetoide e Kafka empregou Insekt em sua correspondência. Ainda assim, a palavra escolhida na narrativa é mais aberta do que "inseto" e muito mais aberta do que "barata".
"Barata" deve ser tratada como interpretação ou imagem cultural, não como resposta literal. "Besouro" também não resolve a questão, porque Mistkäfer aparece na fala da empregada, não como classificação do narrador. As traduções divergem porque cada uma precisa decidir quanto da indefinição de Ungeziefer preservar e quanto transformar em uma imagem imediata para o leitor.
Se a pergunta for "Kafka escreveu que Gregor virou uma barata?", a resposta é não. Se a pergunta for "é possível imaginar uma barata?", sim, como uma entre várias visualizações. E se a pergunta for "qual é a forma mais precisa de dizer o que acontece?", a melhor resposta é que Gregor acorda transformado numa criatura monstruosa e repugnante, de aspecto insetoide, que Kafka deliberadamente não fixa como uma espécie determinada.





