A resposta depende de qual camada do texto está sendo traduzida. No hebraico de Isaías 7:14 aparece הָעַלְמָה (ha-ʿalmah), expressão que aponta para “a jovem mulher” ou “a jovem em idade de casar” e não afirma virgindade por si só. Na antiga tradução grega conhecida como Septuaginta, porém, o termo foi vertido por ἡ παρθένος (hē parthenos), palavra frequentemente traduzida como “a virgem”. Mateus 1:23 segue de perto essa forma grega e a aplica ao nascimento de Jesus.
Por isso, “virgem” e “jovem mulher” não são simplesmente duas respostas concorrentes para a mesma pergunta. Elas refletem etapas diferentes da história textual e escolhas diferentes de tradução. A questão filológica — o que o hebraico de Isaías diz — também precisa ser separada da questão teológica — como Mateus lê Isaías dentro da narrativa cristã.
Resposta curta: o hebraico, o grego e Mateus não estão no mesmo nível
| Camada | Forma central | O que ela sinaliza | Questão de tradução |
|---|---|---|---|
| Isaías 7:14 em hebraico | הָעַלְמָה (ha-ʿalmah) | Uma jovem mulher; a palavra se relaciona sobretudo a idade/status social, não a experiência sexual | “Jovem mulher” representa de modo direto o valor lexical; “virgem” acrescenta uma especificação que o termo isolado não codifica |
| Isaías 7:14 na Septuaginta | ἡ παρθένος (hē parthenos) | Termo grego normalmente associado a “virgem”, embora possa ter faixa semântica mais ampla em alguns contextos | A tradução grega torna a leitura de virgindade muito mais disponível |
| Mateus 1:23 | ἡ παρθένος (hē parthenos) | Mateus retoma a linguagem da Septuaginta dentro de uma narrativa que já descreve a concepção de Maria como extraordinária | Em Mateus, “virgem” é sustentado não só pela palavra grega, mas pelo contexto de 1:18–25 |
| Traduções modernas de Isaías | “jovem mulher” / “virgem” | Opções editoriais diferentes | Algumas priorizam o hebraico no contexto de Isaías; outras preservam tradição cristã ou ligação canônica com Mateus, às vezes com nota de rodapé |
O que ʿalmah significa no hebraico de Isaías 7:14
O ponto mais seguro é este: ʿalmah não é uma palavra que, sozinha, signifique tecnicamente “virgem”. A nota de tradução da NET Bible em Isaías 7 explica que o termo está ligado à idade e pode descrever uma jovem que seja virgem, mas essa condição não está embutida no vocábulo. A University of Iowa resume a palavra como “jovem mulher” ou “jovem em idade de casar”.
Isso não significa que uma ʿalmah não pudesse ser virgem. Significa apenas que virgindade é informação de contexto, não uma definição obrigatória do substantivo. O hebraico possui ainda betulah, termo mais usual quando a virgindade é colocada em primeiro plano, embora até esse vocabulário possa exigir leitura contextual. Assim, transformar a distinção em “ʿalmah nunca pode ser virgem” versus “ʿalmah sempre significa virgem” simplifica demais o problema.
O contexto de Isaías: um sinal dirigido à crise do rei Acaz
Isaías 7 não surge originalmente como uma discussão sobre terminologia sexual. O capítulo coloca o profeta diante do rei Acaz durante a crise siro-efraimita, quando Judá estava sob pressão de Aram-Damasco e do reino do Norte. O sinal do menino chamado Emanuel é apresentado dentro desse horizonte político e temporal: antes que a criança alcance determinada maturidade, a ameaça dos dois reis perderia força.
Essa moldura é importante porque explica por que muitos tradutores e estudiosos preferem “jovem mulher” em Isaías 7:14: a leitura tenta representar primeiro o hebraico e a função do sinal no seu contexto literário imediato. A identidade exata da mulher e da criança é discutida entre intérpretes, portanto não é necessário escolher uma identificação específica para reconhecer o horizonte imediato do capítulo.
Há também uma segunda diferença de tradução menos conhecida. O hebraico ao redor de harah pode ser vertido de modo a sugerir que a jovem está grávida ou está em situação iminente de conceber, enquanto traduções influenciadas pela tradição grega costumam usar a forma futura “conceberá”. Em inglês, por exemplo, a NRSVUE traz uma formulação equivalente a “a jovem está grávida”, enquanto a NIV usa “a virgem conceberá”, mostrando que a divergência não se limita a uma única palavra.
Por que a Septuaginta usa parthenos
Séculos antes do cristianismo se consolidar, textos bíblicos hebraicos foram traduzidos para o grego. Em Isaías 7:14, a Septuaginta verte ʿalmah como parthenos. Essa é uma decisão de tradução; não significa que o manuscrito hebraico tenha sido trocado por outra palavra. O hebraico continua apresentando ʿalmah, enquanto a tradição grega oferece parthenos.
Parthenos é com muita frequência entendido como “virgem”, mas não funciona como um rótulo técnico absolutamente rígido em todas as ocorrências gregas. A comparação reunida pelo projeto Intertextual Bible, citando literatura acadêmica, observa que o uso da palavra na própria Septuaginta pode ser mais amplo. Esse detalhe impede uma equação mecânica do tipo “parthenos sempre = virgem” em qualquer passagem.
Ainda assim, a escolha de parthenos em Isaías 7:14 é decisiva para a história posterior do verso, porque ela abre com muito mais força a leitura de virgindade. A análise da University of Iowa chama atenção para o fato de que outras ocorrências de ʿalmah foram traduzidas por outros termos gregos ligados a “jovem mulher”, o que torna a opção de Isaías 7:14 particularmente relevante.
Como Mateus 1:23 entra nessa história
Mateus não está traduzindo Isaías diretamente do hebraico no momento da citação. A formulação de Mateus 1:23 acompanha de perto a tradição grega da Septuaginta e mantém parthenos. Há pequenas diferenças de redação entre o texto grego de Isaías e a citação de Mateus — por exemplo, na forma da frase sobre quem dará o nome Emanuel —, mas a palavra central permanece a mesma.
Mais importante: no Evangelho de Mateus, “virgem” não depende apenas do dicionário. O contexto imediato de Mateus 1:18–25 apresenta Maria como grávida antes da vida conjugal com José e atribui a concepção ao Espírito Santo. Assim, na lógica narrativa de Mateus, parthenos é lido inequivocamente em sentido virginal. A citação de Isaías funciona dentro dessa moldura já estabelecida.
Esse é o caminho textual essencial: Isaías hebraico: ʿalmah → Septuaginta grega: parthenos → Mateus: parthenos dentro da narrativa do nascimento de Jesus.
Então “jovem mulher” é uma correção e “virgem” é um erro?
Essa formulação também é simplista. Se a tarefa é traduzir o hebraico de Isaías 7:14 em seu contexto imediato, “jovem mulher” é uma escolha filologicamente direta porque não adiciona uma informação de virgindade que ʿalmah não expressa obrigatoriamente. É por isso que traduções modernas importantes adotam essa solução ou a registram em nota.
Por outro lado, há tradições de tradução e interpretação cristã que escolhem “virgem” em Isaías para preservar a leitura recebida pela Septuaginta e por Mateus. Um exemplo de defesa confessional dessa possibilidade é o estudo de Alfred von Rohr Sauer, “The Almah Translation in Isaiah 7:14”, que explicitamente parte da leitura de Mateus como cumprimento profético e argumenta que uma tradução que sugira virgindade é admissível. O valor desse texto para a discussão é justamente mostrar que a decisão não é apenas lexical; pode envolver pressupostos sobre profecia e relação entre os Testamentos.
Por isso, duas Bíblias podem traduzir Isaías de maneira diferente sem que uma esteja necessariamente usando outro texto hebraico. Elas podem estar fazendo escolhas editoriais diferentes sobre qual camada tornar mais visível no texto principal.
História textual e leitura doutrinária precisam ser separadas
A observação filológica de que ʿalmah não exige “virgem” não decide, sozinha, a doutrina cristã do nascimento virginal. Em Mateus, a concepção virginal é afirmada pela narrativa, independentemente de como um tradutor moderno resolva Isaías 7:14. De modo inverso, aceitar a doutrina cristã não obriga um tradutor a verter ʿalmah como “virgem” quando sua tarefa é representar o hebraico de Isaías.
É útil, portanto, manter duas perguntas distintas:
- Filologia e história textual: que palavra o texto hebraico usa, como a Septuaginta a traduziu e qual forma Mateus cita?
- Interpretação teológica: como comunidades judaicas e cristãs entendem a função do sinal de Emanuel e a relação entre Isaías e Jesus?
Misturar essas perguntas cria falsas alternativas. Separá-las permite entender por que uma tradução pode dizer “jovem mulher” em Isaías e “virgem” em Mateus sem contradição técnica: ela está traduzindo dois textos em línguas e contextos diferentes.
Como ler Isaías 7:14 em uma Bíblia com notas
- Se Isaías 7:14 disser “jovem mulher”, verifique se a nota menciona a Septuaginta ou a alternativa “virgem”. Isso costuma indicar uma decisão de traduzir o hebraico de forma mais direta.
- Se disser “virgem”, procure uma nota que informe o hebraico ʿalmah ou a possibilidade “jovem mulher”. Isso mostra transparência sobre a discussão lexical.
- Compare Isaías 7:14 com Mateus 1:23. A diferença entre as duas passagens pode ser intencional na tradução porque Mateus está em grego e usa parthenos.
- Evite usar uma única palavra traduzida como prova total de uma posição doutrinária. A discussão exige contexto, língua de origem e história de recepção.
Em uma frase: por que as traduções divergem
As traduções divergem porque Isaías 7:14 em hebraico fala de ha-ʿalmah, a jovem mulher; a Septuaginta traduziu essa expressão por hē parthenos; e Mateus 1:23 herdou a formulação grega e a leu no contexto de uma concepção virginal. “Jovem mulher” destaca o hebraico de Isaías; “virgem” destaca a tradição grega e a leitura cristã recebida. Entender o caminho entre os três textos é mais preciso do que perguntar qual das duas palavras, isoladamente, “venceu”.





