Sociologia10/09/2026Núcleo de Humanidades5 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

Trabalho por aplicativo em 2025: por que os 2 milhões do IBGE não se comparam diretamente a 2024

O total de 1,959 milhão em 2025 inclui trabalho secundário, ao contrário de 2022 e 2024. Entenda qual recorte permite comparar a evolução sem misturar mudança real com mudança de questionário.

Montagem editorial com entregador de bicicleta, motorista de aplicativo, smartphone e painéis de 2024 e 2025 destacando a mudança de base da pesquisa.

Os “2 milhões” de trabalhadores por aplicativo divulgados para 2025 não devem ser colocados lado a lado, sem ajuste, com o total de 2024. O motivo é metodológico: em 2025, o módulo da PNAD Contínua sobre plataformas digitais passou a captar também o uso de aplicativos no trabalho secundário. Em 2022 e 2024, a investigação estava restrita ao trabalho único ou principal.

O total de 2025 foi de 1,959 milhão de pessoas, arredondado nas manchetes para 2 milhões. Esse número responde a uma pergunta mais ampla do que a feita nas rodadas anteriores. Para medir evolução no tempo, o recorte equivalente é outro: pessoas para as quais as plataformas eram o trabalho único ou principal. Nesse recorte, a série informada é de cerca de 1,3 milhão em 2022, 1,7 milhão em 2024 e 1,8 milhão em 2025.

O que exatamente mudou na PNAD Contínua de 2025

O próprio IBGE avisou, antes da divulgação, que o questionário de 2025 havia sido ampliado. A principal mudança para a comparação histórica foi a incorporação do trabalho secundário. O módulo também passou a investigar plataformas de comércio eletrônico e, pela primeira vez, a quantidade de plataformas usadas, a frequência do trabalho por meio delas e o principal motivo para trabalhar dessa forma.

Isso importa porque uma estatística só é comparável de forma direta quando mede populações definidas de maneira suficientemente equivalente. Se em um ano a pesquisa conta apenas quem usa plataforma no trabalho principal e, no ano seguinte, inclui também quem faz esse trabalho como atividade secundária, o segundo universo tende a ser mais abrangente por construção.

Ano/medida Escopo relevante Estimativa divulgada Comparável diretamente?
2022 Plataforma no trabalho único ou principal cerca de 1,3 milhão Sim, com 2024 e com o recorte equivalente de 2025
2024 Plataforma no trabalho único ou principal cerca de 1,7 milhão Sim, com 2022 e com o recorte equivalente de 2025
2025 — total ampliado Plataforma no trabalho principal e/ou secundário 1,959 milhão Não diretamente com 2022 ou 2024
2025 — recorte comparável Plataforma no trabalho único ou principal cerca de 1,8 milhão Sim

Qual é a comparação correta com 2024

Para responder “o trabalho por aplicativo cresceu de 2024 para 2025?”, é preciso manter o mesmo recorte. Segundo a divulgação citada pela Agência Brasil, considerando apenas quem tinha os aplicativos como ocupação única ou principal, o contingente passou de cerca de 1,7 milhão em 2024 para 1,8 milhão em 2025. A variação informada nesse recorte é de 9,1% em um ano.

Na comparação com 2022, usando igualmente o escopo de trabalho único ou principal, o crescimento informado é de 36,8% em três anos. Esses são os percentuais úteis para uma leitura temporal porque preservam a definição essencial da população observada.

Por que comparar “1,7 milhão” com “1,959 milhão” pode induzir ao erro

Uma conta que use o total ampliado de 2025 como se fosse a continuação automática do total de 2024 mistura duas coisas: mudança real no número de trabalhadores e mudança na cobertura da pergunta. O resultado pode produzir uma taxa de crescimento que parece objetiva, mas não representa uma comparação de universos equivalentes.

A diferença não torna o número de 2025 “errado”. Ele é útil para responder uma pergunta nova e mais abrangente: quantas pessoas realizaram trabalho por meio de plataformas digitais de serviços no trabalho principal ou secundário? O problema aparece apenas quando esse total é tratado como se tivesse exatamente a mesma base das edições anteriores.

O que o novo total acrescenta

A ampliação permite enxergar pessoas que a metodologia anterior deixava fora do total principal: trabalhadores que usam aplicativos como fonte complementar de renda. A divulgação de 2025 identificou 182 mil pessoas com trabalho por plataforma no trabalho secundário e 28 mil que declararam uso de plataformas tanto no trabalho principal quanto no secundário. Como há sobreposição entre essas situações, os grupos não devem ser somados mecanicamente para reconstruir o total.

O levantamento também informa que o total ampliado de 1,959 milhão correspondia a 1,9% da população ocupada. Entre as atividades, cerca de 1,2 milhão utilizavam aplicativos de transporte de passageiros, 376 mil faziam entregas por aplicativos e 313 mil utilizavam plataformas de serviços gerais ou profissionais. Esses recortes ajudam a dimensionar a diversidade do trabalho plataformizado, mas não mudam a regra básica da comparação histórica.

Como ler as manchetes sem confundir nível e variação

  • “Brasil tem 2 milhões de trabalhadores por aplicativo em 2025”: é uma forma arredondada de apresentar o total ampliado de 1,959 milhão.
  • “O total cresceu X% desde 2024”: só é uma comparação válida se o cálculo usar o mesmo escopo nos dois anos.
  • Para 2024 x 2025: use o recorte de trabalho único ou principal, de cerca de 1,7 milhão para 1,8 milhão, com alta informada de 9,1%.
  • Para entender a abrangência de 2025: use o total de 1,959 milhão, deixando claro que ele inclui trabalho secundário.

Há outra cautela: o módulo é experimental

O IBGE classifica as estatísticas sobre trabalho por plataformas digitais como Estatísticas Experimentais. Isso significa que os indicadores são inovadores e permanecem em avaliação e revisão metodológica. A classificação não invalida os resultados, mas recomenda cautela ao construir séries, comparar edições e interpretar pequenas diferenças.

A rodada de 2024, por exemplo, foi desenhada explicitamente para investigar o uso de plataformas no trabalho único ou principal. A expansão de 2025 mostra que o próprio instrumento está evoluindo para capturar formas de trabalho que podem aparecer em mais de uma ocupação. Para análises sociológicas, essa mudança é substantiva: ela torna visível uma parte do trabalho de plataforma que funciona como complemento, e não necessariamente como ocupação central.

Regra prática para usar os dados

Se a pergunta for “quantas pessoas trabalharam por plataformas em 2025, considerando também atividade secundária?”, use 1,959 milhão. Se a pergunta for “quanto o contingente comparável cresceu em relação a 2024 ou 2022?”, use a série de trabalho único ou principal: 1,3 milhão em 2022, 1,7 milhão em 2024 e 1,8 milhão em 2025.

Essa separação entre nível ampliado e série comparável evita transformar uma mudança de questionário em uma suposta aceleração do mercado de trabalho por aplicativo.

Fontes

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