O número de 81% divulgado no PISA 2025 não significa que 81% dos estudantes brasileiros deixaram de usar celular na escola, nem que a proibição elevou automaticamente as notas. O indicador diz outra coisa: em 2025, 81% dos estudantes de 15 anos avaliados no Brasil estavam matriculados em escolas nas quais o uso de celular não era permitido nas dependências escolares, segundo o PISA. Em 2022, eram 37%.
A mudança é grande: +44 pontos percentuais no Brasil. Na média da OCDE, o mesmo indicador passou de 34% para 49%, alta de 15 pontos percentuais. Assim, o Brasil saiu de uma situação próxima da média da OCDE em 2022 para uma presença muito mais ampla de proibições em 2025.
O que mudou de 2022 para 2025
| Indicador | 2022 | 2025 | Mudança |
|---|---|---|---|
| Brasil: estudantes em escolas com proibição de celular nas dependências | 37% | 81% | +44 p.p. |
| Média da OCDE | 34% | 49% | +15 p.p. |
| Diferença Brasil − OCDE | +3 p.p. | +32 p.p. | ampliação de 29 p.p. |
Os números vêm da nota do PISA 2025 para o Brasil. A própria OCDE descreve o movimento como um aumento substancial na adoção de proibições.
Esse avanço deve ser lido como uma mudança institucional: regras escolares sobre dispositivos digitais se tornaram muito mais comuns em apenas um ciclo do PISA. No conjunto dos países da OCDE, a expansão não ocorreu isoladamente. O relatório informa que, entre 2022 e 2025, escolas tenderam a combinar proibições de celular com orientações formais, por disciplina, para o uso pedagógico de dispositivos digitais.
O contexto brasileiro mudou também por lei
Em 13 de janeiro de 2025, o Brasil sancionou a Lei nº 15.100/2025, aplicável à educação básica pública e privada. A lei restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos, com exceções, entre outras, para finalidade pedagógica, acessibilidade, inclusão, condições de saúde e garantia de direitos fundamentais. O Decreto nº 12.385/2025 regulamentou a norma.
Isso ajuda a entender por que 2025 é um marco regulatório importante, mas é preciso evitar uma equivalência automática. O indicador do PISA fala em estudantes matriculados em escolas onde o celular não é permitido nas dependências escolares; a legislação brasileira contém regras, exceções e responsabilidades de implementação próprias. Além disso, a comparação 2022–2025, por si só, não mede quanto da alta de 44 pontos percentuais foi causada pela lei federal. Redes e escolas já vinham adotando normas antes dela, e o PISA não é um experimento desenhado para separar cada causa dessa expansão.
Proibição e distração: o que a OCDE encontrou
Na média dos países da OCDE, estudantes de escolas em que o celular não é permitido nas dependências escolares têm cerca de 13% menor probabilidade de relatar distração digital. Esse resultado é uma associação estatística; não significa uma queda de 13 pontos percentuais e não deve ser lido como efeito causal comprovado.
No capítulo do PISA sobre vida escolar, a OCDE apresenta outro recorte: a distração digital em aulas de ciências foi relatada por 27% dos estudantes em escolas com proibição de celular, com ou sem diretrizes específicas por disciplina, contra 29% em escolas com apenas diretrizes e 32% em escolas sem essas políticas, na média da OCDE. As análises consideram o perfil socioeconômico dos estudantes e das escolas, mas ainda são observacionais.
O padrão é coerente com a ideia de que regras mais claras podem reduzir oportunidades de interrupção. Porém, também pode refletir diferenças de implementação, cultura escolar, disciplina, uso pedagógico da tecnologia, composição dos estudantes e outros fatores que variam entre escolas e sistemas.
O dado mostra — e o que não mostra
| O dado mostra | O dado não prova |
|---|---|
| Houve forte expansão de escolas com proibição de celular entre os estudantes brasileiros avaliados: 37% para 81%. | Que 81% dos estudantes obedecem à regra o tempo todo. |
| O Brasil ficou muito acima da média da OCDE em 2025: 81% contra 49%. | Que toda escola brasileira aplica a mesma regra ou com a mesma intensidade. |
| Na média da OCDE, proibições estão associadas a menor probabilidade de distração digital relatada. | Que a proibição, sozinha, causou a redução da distração. |
| Distração digital frequente costuma aparecer associada a pior desempenho em ciências em muitos sistemas educacionais. | Que banir celular necessariamente aumenta a nota de ciências, leitura ou matemática. |
| 2025 consolidou um ambiente regulatório brasileiro mais restritivo ao uso pessoal de celulares na educação básica. | Que a Lei nº 15.100/2025 explica sozinha toda a mudança entre 2022 e 2025. |
Por que desempenho acadêmico é uma pergunta diferente
O próprio relatório da OCDE exige cautela. Entre 2022 e 2025, mudanças na prevalência de proibições de celular não aparecem associadas, no nível dos sistemas educacionais, a mudanças no desempenho médio em ciências ou leitura. Em 2025, países e economias onde as proibições eram mais prevalentes tendiam, inclusive, a ter desempenho médio mais baixo em ciências. A OCDE afirma expressamente que os dados do PISA não permitem inferência causal e que esse padrão pode ocorrer porque sistemas com desempenho mais baixo adotam proibições como medida de mitigação.
Esse é um exemplo de causalidade reversa possível: não é necessariamente a proibição que produz o problema; o problema pode estimular a adoção da proibição. Também podem existir fatores de confusão. Uma rede que restringe celulares pode, ao mesmo tempo, estar lidando com indisciplina, desigualdade, déficits de aprendizagem ou baixa integração pedagógica da tecnologia.
Por isso, três perguntas precisam ficar separadas:
- A regra existe? O indicador de 81% responde à disseminação da política escolar.
- A distração diminui? O PISA encontra associação com menor distração na média da OCDE, mas não prova o efeito isolado da regra.
- As notas aumentam? O PISA 2025 não oferece base para afirmar que a expansão das proibições causou melhora de desempenho acadêmico.
Como interpretar os 81% sem exagerar a conclusão
A leitura mais segura é sociológica e institucional: em três anos, a escola passou a tratar o smartphone menos como um objeto de decisão individual do aluno e mais como um objeto de regulação coletiva. Isso altera rotinas, expectativas de comportamento, autoridade de professores e gestores e o próprio limite entre uso pessoal e uso pedagógico da tecnologia.
Ao mesmo tempo, adoção formal não é o mesmo que implementação efetiva. Uma escola pode ter regra escrita e fiscalização irregular; outra pode recolher aparelhos; outra pode permitir usos didáticos orientados. O PISA identifica um ambiente normativo, mas não transforma automaticamente essa norma em uma medida precisa de cumprimento cotidiano.
Para avaliar se a política funciona no Brasil, seriam necessários dados que acompanhassem implementação, frequência real de uso, distração, clima escolar e aprendizagem ao longo do tempo, idealmente com desenhos capazes de comparar grupos semelhantes antes e depois das mudanças. O PISA é valioso para mostrar padrões amplos e associações internacionais, mas não substitui esse tipo de avaliação causal.
Em resumo
- O salto de 37% para 81% mostra uma rápida expansão das proibições de celular nas escolas frequentadas pelos estudantes brasileiros avaliados pelo PISA.
- Na média da OCDE, escolas com proibição apresentam menor probabilidade de distração digital relatada, mas isso é associação, não prova de causa e efeito.
- O PISA não demonstra que proibir celular melhora automaticamente o desempenho acadêmico.
- A Lei nº 15.100/2025 faz parte do novo contexto institucional brasileiro, mas o PISA não permite atribuir a ela, isoladamente, toda a mudança de 2022 a 2025.
- A pergunta relevante para a próxima etapa é menos “há proibição?” e mais “como a regra é implementada, para quem funciona e em quais condições melhora o ambiente de aprendizagem?”.
Fontes principais: OCDE — Resultados do PISA 2025: Brasil; OCDE — PISA 2025, capítulo sobre vida escolar e uso de dispositivos digitais; Lei nº 15.100/2025; MEC — perguntas frequentes sobre uso de celulares nas escolas.





