Terra e Universo07/08/2026Núcleo de Ciência no Cotidiano8 min de leituraAtualizado em 16/09/2026

SkyFall: por que a NASA quer três helicópteros em Marte com radar e antena ultraleve para procurar gelo

A NASA testou uma antena de 150 gramas para o radar do SkyFall, que prevê três helicópteros para mapear gelo raso em Marte. A missão ainda está em desenvolvimento.

Ilustração conceitual de três helicópteros SkyFall sobre Marte, equipados para mapear o terreno e procurar gelo abaixo da superfície.

A NASA divulgou em 6 de agosto de 2026 um avanço no desenvolvimento do SkyFall: uma antena flexível e muito leve destinada ao radar de penetração no solo dos futuros helicópteros marcianos passou por uma campanha de testes no Jet Propulsion Laboratory (JPL).

Isso não significa que três novos helicópteros já estejam voando sobre Marte. O SkyFall aparece oficialmente como missão futura. A NASA trabalha atualmente com um plano de três aeronaves, lançamento previsto para o fim de 2028 e chegada à superfície marciana no segundo semestre de 2030. O local de pouso ainda não foi escolhido, e componentes importantes continuam em desenvolvimento e qualificação.

O interesse científico está em uma faixa do planeta que é difícil de estudar em detalhe a partir da órbita: os primeiros metros abaixo do solo. É justamente ali que depósitos acessíveis de gelo de água podem guardar informações sobre a história climática de Marte e, no futuro, servir como recurso para missões humanas.

O que exatamente a NASA testou

O destaque do anúncio de agosto não foi um helicóptero completo nem o radar inteiro, mas a antena do radar.

O instrumento planejado para o SkyFall precisa emitir e receber ondas de rádio enquanto a aeronave voa próxima ao terreno. O problema é físico: uma antena convencional adequada às frequências escolhidas seria grande demais para caber com segurança sob um helicóptero marciano tão pequeno.

Segundo a NASA, a distância mínima entre a parte inferior da fuselagem e o chão é de apenas cerca de 15 centímetros. Uma antena convencional para essa faixa poderia ter aproximadamente 48 centímetros de comprimento. A solução escolhida foi uma antena do tipo Vivaldi, que pode ser produzida em materiais planos e flexíveis e opera em uma ampla faixa de frequências.

A equipe construiu a antena com tecido metalizado, poliéster e camadas de Vectran, material resistente também utilizado nos sistemas de airbags das missões Spirit e Opportunity. Molas flexíveis de fibra de vidro ajudam a recuperar a forma depois que a antena se dobra, enquanto uma pequena estrutura de magnésio faz a fixação.

Todo o conjunto pesa aproximadamente 150 gramas.

A flexibilidade é necessária porque a antena ficará abaixo do helicóptero. Ela precisa dobrar se tocar o terreno ou uma rocha durante o pouso e voltar à posição correta quando a aeronave decolar novamente.

Nos testes divulgados em 6 de agosto, o protótipo foi submetido a variações térmicas, flexões repetidas e avaliações de radiofrequência. A NASA afirma que a antena suportou o equivalente a 200 pousos marcianos sem perda de desempenho, mais que o dobro do necessário para a missão primária planejada.

Ainda assim, há uma diferença importante entre passar por essa campanha e estar pronto para Marte. A própria equipe informa que a antena ainda não está totalmente qualificada para voo. O próximo modelo de engenharia deverá enfrentar, entre outros procedimentos, testes de vibração, operação em ambiente marciano simulado e avaliações externas no Mars Yard do JPL.

Por que procurar gelo voando perto do chão

Marte já teve depósitos subterrâneos de gelo identificados ou estimados por diferentes missões e métodos. O projeto SWIM, por exemplo, combina dados de várias sondas para mapear onde pode existir gelo de água relativamente próximo da superfície, especialmente em latitudes intermediárias consideradas interessantes para futura exploração humana.

O problema é transformar um mapa regional em algo detalhado o bastante para responder perguntas como: onde começa o gelo? Qual a espessura da camada de poeira e rocha que o cobre? O depósito continua por centenas de metros horizontalmente ou desaparece logo adiante?

Radares orbitais são excelentes para investigar estruturas profundas e extensas, mas possuem limitações de resolução perto da superfície. O SHARAD, instalado no Mars Reconnaissance Orbiter, por exemplo, foi projetado para sondagens de grande escala e tem resolução vertical nominal de cerca de 15 metros no espaço livre.

O radar planejado para o SkyFall trabalha com outra estratégia. Voando baixo, ele será voltado para os primeiros metros do subsolo. A página oficial da missão informa uma faixa nominal de detecção de gelo entre aproximadamente 0,5 e 3 metros de profundidade, com possibilidade de alcançar mais fundo em condições favoráveis.

Um estudo publicado em março de 2026 no Journal of Geophysical Research: Planets reforça essa lógica. Pesquisadores testaram radar instalado em drone sobre geleiras terrestres usadas como análogos de depósitos marcianos e conseguiram resolver camadas rasas que instrumentos orbitais como o SHARAD não conseguem distinguir diretamente. O estudo não é um teste do SkyFall, mas oferece uma confirmação independente da utilidade científica de levar o radar para muito mais perto do terreno.

Como o radar pode revelar gelo escondido

Um radar de penetração no solo envia ondas eletromagnéticas em direção à superfície e registra parte da energia que retorna.

Quando a onda atravessa materiais com propriedades elétricas diferentes — por exemplo, camadas de regolito, rocha e gelo — parte do sinal pode ser refletida na interface entre essas camadas. O tempo de retorno, a intensidade e outras características do eco ajudam a reconstruir a estrutura abaixo do terreno.

Isso exige interpretação. O radar não funciona como um “detector de moléculas de água” que simplesmente acende ao encontrar gelo. Cientistas analisam os ecos junto com modelos das propriedades dielétricas dos materiais e outros dados disponíveis para determinar qual composição é compatível com o sinal observado. Estudos de laboratório com misturas de regolito marciano simulado e gelo mostram justamente como essas propriedades podem ser usadas na interpretação de sondagens por radar.

No SkyFall, a NASA pretende usar uma faixa bastante larga, de 500 a 2.500 megahertz. As frequências mais baixas, com comprimentos de onda maiores, favorecem maior penetração; as mais altas ajudam a distinguir detalhes mais finos nas camadas próximas da superfície.

A ideia é combinar essas informações com imagens visíveis e infravermelhas obtidas pelos próprios helicópteros. Assim, o mapa subterrâneo não será analisado isoladamente do que existe na superfície.

Por que o gelo marciano interessa tanto

Há dois motivos principais, e eles se encontram no SkyFall.

O primeiro é científico. Camadas de gelo, poeira e sedimentos podem conservar registros de diferentes condições ambientais. Determinar a profundidade e a extensão do gelo ajuda a reconstruir como água, atmosfera e clima mudaram ao longo da história de Marte. A própria NASA coloca a investigação climática entre os objetivos científicos da missão.

O segundo motivo é operacional. Água é pesada para transportar da Terra. Um depósito acessível em Marte poderia, em princípio, fornecer água para consumo e matéria-prima para produzir outros recursos, incluindo oxigênio e componentes necessários à fabricação de propelente.

É por isso que não basta saber que “há gelo em Marte”. Para exploração humana, importa descobrir onde existe gelo acessível, a que profundidade e sob qual tipo de terreno. Os mapas do projeto SWIM já são produzidos com essa preocupação: encontrar regiões que conciliem presença provável de gelo e condições menos extremas para pouso e operação.

Por que três helicópteros

A arquitetura oficial do SkyFall prevê três aeronaves derivadas da experiência do Ingenuity. Durante a chegada a Marte, elas deverão ser liberadas ainda no ar e pousar individualmente, em vez de depender de um módulo de pouso convencional. Depois, poderão se dispersar pela região de exploração.

Essa configuração permite distribuir as observações por trajetórias diferentes. A NASA estima atualmente que um único helicóptero possa percorrer cerca de 1 a 2 quilômetros durante um voo de aproximadamente dois minutos e meio, coletando informações da superfície e do subsolo. A documentação da missão mostra as três aeronaves partindo da zona de descida em direções diferentes.

Além disso, os helicópteros são planejados para transmitir dados independentemente para espaçonaves em órbita de Marte. É uma mudança em relação ao Ingenuity, que dependia do rover Perseverance como estação intermediária de comunicação.

Há, porém, um limite para o que a documentação disponível permite afirmar: as páginas consultadas explicam como os três helicópteros poderão se dispersar e ampliar o mapeamento, mas não apresentam um estudo demonstrando que três seja um número cientificamente ótimo ou mínimo. Portanto, atribuir a quantidade especificamente a “redundância” ou a uma fórmula de cobertura seria ir além do que a NASA publicou até agora.

SkyFall é herdeiro do Ingenuity, mas tem outro papel

O Ingenuity foi enviado inicialmente como demonstração tecnológica. Seu objetivo era comprovar que um voo motorizado e controlado era possível na atmosfera extremamente rarefeita de Marte. Terminou realizando 72 voos antes de sua missão chegar ao fim em janeiro de 2024.

O SkyFall parte dessa experiência, mas é pensado como uma plataforma científica muito mais instrumentada. Cada aeronave deverá carregar radar, câmeras e sensores ambientais, além de recursos de comunicação próprios.

Esse salto explica por que reduzir massa continua sendo tão importante. Em Marte, cada instrumento acrescentado precisa ser carregado por rotores operando em uma atmosfera muito menos densa que a terrestre. Economizar centenas de gramas em uma peça como a antena abre espaço para transformar um helicóptero que antes demonstrava apenas a possibilidade de voar em um veículo capaz de fazer ciência durante o voo.

O que o teste de agosto realmente muda

O teste divulgado pela NASA resolve uma pergunta concreta de engenharia: uma antena grande o suficiente para fazer o radar funcionar pode ser leve, flexível, sobreviver a sucessivos pousos e continuar transmitindo e recebendo sinais adequadamente?

O protótipo passou por essa etapa.

Ainda restam, porém, qualificação de hardware, integração, ensaios adicionais e todo o desenvolvimento da missão. Em 7 de agosto de 2026, o SkyFall deve ser entendido como uma missão futura em desenvolvimento, com lançamento atualmente previsto para o fim de 2028 e chegada planejada para 2030 — não como uma frota de três helicópteros já procurando gelo no planeta vermelho.

O interesse do conceito está justamente em preencher uma lacuna entre dois modos de explorar Marte: orbitadores conseguem indicar grandes regiões promissoras; veículos terrestres observam locais muito específicos. Uma pequena frota voando baixo com radar poderia mapear rapidamente o espaço entre essas duas escalas e mostrar onde a camada superficial esconde gelo, rocha ou estruturas perigosas.

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