A forma mais precisa de responder à pergunta “quem é dono da SAF do Confiança?” é separar propriedade, fundo de investimento, consultoria estratégica e gestão executiva. A SAF tem dois acionistas: o AD Confiança Fundo de Investimento em Participações, com 78% das ações, e a Associação Desportiva Confiança, com 22%. Rodolfo Landim é uma figura central do projeto e um dos nomes da LG2, mas isso não significa que ele, como pessoa física, seja dono de 78% do clube.
A resposta curta: a maioria da SAF está com o FIP
A estrutura apresentada aos sócios em outubro de 2025 e aprovada em 1º de novembro daquele ano colocou o AD Confiança FIP como acionista majoritário da nova companhia, com 78% das ações. A Associação Desportiva Confiança permaneceu com 22%.
Isso muda a resposta em relação ao modo associativo. O futebol profissional passou a ser conduzido por uma sociedade anônima que tem capital dividido entre o fundo e a associação. Portanto, juridicamente, o acionista controlador é o FIP, não Rodolfo Landim individualmente e não a LG2 como se ela própria detivesse os 78%.
O que significa dizer que um FIP é acionista da SAF
Um Fundo de Investimento em Participações é um veículo de investimento. Os investidores possuem cotas do fundo; o fundo, por sua vez, pode possuir ações da empresa investida. No caso do Confiança, essa distinção é essencial: os cotistas do AD Confiança FIP têm participação econômica no fundo, enquanto quem aparece como acionista da SAF é o próprio FIP.
Por isso, duas perguntas diferentes costumam ser misturadas. Uma é “quem possui as ações da SAF?”. A resposta é FIP, com 78%, e Associação, com 22%. Outra é “quem possui as cotas do FIP e em que proporção?”. Os documentos públicos consultados para este artigo não trazem uma lista completa com a participação individual de cada cotista, o que impede atribuir com segurança a Rodolfo Landim um percentual pessoal do capital da SAF.
Onde entra Rodolfo Landim
Landim foi o principal rosto público do projeto apresentado ao Confiança. A proposta foi conduzida pela LG2, da qual ele é um dos sócios ao lado de Gustavo Oliveira e Gabriel Araujo. Na fase de aprovação, o ex-presidente do Flamengo foi descrito como assessor técnico do fundo e como liderança da governança estratégica e consultiva do projeto.
Esse papel é relevante, mas é diferente de ser o acionista majoritário em nome próprio. A documentação disponível permite afirmar que Landim participa da estrutura de influência e formulação do projeto; não permite concluir que os 78% pertencem pessoalmente a ele.
Essa diferença também ajuda a explicar por que algumas manchetes usam expressões como “grupo de Landim” ou tratam o empresário como o novo rosto da SAF. É uma simplificação jornalística compreensível para identificar o grupo, mas não substitui a leitura da estrutura societária.
LG2 não é a administradora nem a gestora regulatória do FIP
Este é um ponto que costuma gerar confusão. No projeto da SAF, a LG2 aparece com função consultiva e estratégica ligada à implantação e ao acompanhamento da operação. Já o regulamento do AD Confiança FIP, em vigor desde 10 de abril de 2026, identifica a Oslo Capital Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários como administradora, gestora e custodiante do fundo.
Em outras palavras, “gestão do fundo” no sentido regulatório do mercado de capitais é uma função da Oslo Capital. “Participação da LG2 na gestão da SAF”, expressão usada em reportagens sobre o projeto, refere-se a outra camada: o conselho consultivo, a recomendação de profissionais, o planejamento e o acompanhamento estratégico da companhia de futebol.
Misturar essas duas funções leva a uma conclusão errada: a LG2 pode exercer influência importante sobre a SAF sem ser a administradora fiduciária ou a gestora da carteira do FIP.
Quem controla as decisões da SAF
A maioria acionária do FIP se reflete na governança. Na estrutura divulgada após a aprovação, o Conselho de Administração da SAF teria cinco integrantes, com quatro indicados pelo AD Confiança FIP e um pela Associação Desportiva Confiança.
Esse desenho concentra no bloco do FIP a capacidade de formar a maioria do conselho, que é justamente o órgão responsável pelas decisões societárias relevantes e pela escolha da alta administração. Landim explicou na época que a equipe ligada ao projeto poderia recomendar nomes para CEO e diretor de futebol, mas que a escolha caberia aos administradores indicados para o conselho.
É aqui que a expressão “controle” fica mais precisa. O FIP controla a maioria do capital e indica quatro dos cinco membros do Conselho de Administração. A LG2 influencia a estratégia por seu papel consultivo. A Associação mantém participação minoritária e representação própria. E a execução cotidiana fica nas mãos dos profissionais contratados pela SAF.
A Associação deixou de existir ou perdeu todo o poder?
Não. A Associação Desportiva Confiança continua existindo como entidade separada e ficou com 22% do capital da SAF. Na proposta divulgada antes da votação, também estava previsto poder de veto da parte associativa sobre símbolos e elementos imateriais do clube.
Esse ponto mostra por que participação minoritária não significa ausência completa de influência. A associação não controla a maioria do conselho nem do capital, mas preserva presença societária e
uma ligação institucional com identidade, patrimônio histórico e relação com os associados.
Os materiais públicos consultados detalham com clareza a participação de 22% e a indicação de um conselheiro. Já eventuais ajustes finos de cláusulas protetivas nos documentos societários definitivos exigem a leitura dos instrumentos finais da SAF, que não estavam integralmente disponíveis nas fontes abertas usadas nesta apuração.
Quem faz a gestão do dia a dia
O comando executivo também não deve ser confundido com propriedade. Em 10 de janeiro de 2026, o Confiança anunciou Diogo Lemos como CEO da SAF, responsável pela gestão executiva e estratégica da organização. Em junho de 2026, ele seguia no cargo e foi descrito como o principal responsável pela gestão executiva da SAF.
Na prática, isso significa que decisões operacionais sobre estrutura administrativa, planejamento esportivo, finanças e execução do projeto passam pela equipe profissional da companhia, dentro das diretrizes e mecanismos de supervisão definidos pela governança societária.
Assim, o CEO administra a operação; o Conselho de Administração supervisiona e decide matérias de sua competência; os acionistas controlam a companhia por meio de sua participação e direitos societários; e a LG2 atua como núcleo de aconselhamento e formulação estratégica ligado ao projeto.
O próprio FIP também tem uma governança própria
O AD Confiança FIP não é apenas uma “caixa” onde o dinheiro dos investidores foi colocado. Seu regulamento estabelece administração, gestão, assembleias de cotistas e um Comitê de Investimentos.
O documento de abril de 2026 prevê que esse comitê tenha três membros: dois indicados pelos cotistas e um indicado pela gestora. Entre suas atribuições estão acompanhar e recomendar decisões sobre a carteira, orientar a gestora em discussões de metas e diretrizes e acompanhar a representação do fundo junto à companhia investida.
Ao mesmo tempo, o regulamento preserva responsabilidades formais da gestora. Isso reforça a existência de mais uma camada de poder: os investidores exercem direitos por meio das cotas e da governança do próprio fundo; o fundo exerce os direitos de acionista da SAF; e a SAF possui sua própria estrutura de conselho e executivos.
O mapa de controle fica mais claro em quatro camadas
Propriedade societária
O AD Confiança FIP possui 78% das ações da SAF. A Associação Desportiva Confiança possui 22%. Essa é a resposta jurídica mais direta para “quem é dono da SAF”.
Participação econômica
Os cotistas possuem cotas do FIP e participam economicamente do veículo que detém a maioria da SAF. A participação individual de cada cotista, porém, não deve ser presumida sem documentação específica. Por isso, não é correto transformar a fatia de 78% do fundo em uma fatia pessoal de Landim.
Controle estratégico
A maioria do Conselho de Administração fica com indicados do FIP. A LG2 atua no aconselhamento e na formulação estratégica do projeto, e Landim aparece como uma de suas principais lideranças.
Essa é a camada que explica a forte influência do grupo sem confundi-la com a propriedade direta das ações.
Gestão executiva
A execução cotidiana cabe à administração profissional da SAF. Em 2026, Diogo Lemos ocupa o cargo de CEO e responde pela condução executiva e estratégica da operação.
Então Rodolfo Landim é “dono do Confiança”?
A formulação é imprecisa. Ela pode funcionar como atalho para dizer que Landim lidera o grupo responsável pelo projeto e tem influência relevante em sua governança, mas não descreve corretamente a cadeia societária.
O mais rigoroso é dizer que a SAF é controlada por um FIP que detém 78% das ações; a Associação mantém 22%; a LG2 participa da governança consultiva e estratégica; e Landim é uma das figuras centrais da LG2 e do projeto. Sem a abertura da composição individual das cotas do fundo, não há base para afirmar qual parcela econômica da SAF pertence pessoalmente a ele.
O que ainda falta para responder tudo com precisão absoluta
A estrutura societária da SAF está clara nos percentuais divulgados. Também é público quem administra e gere o FIP no sentido regulatório e como foi desenhada a maioria do Conselho de Administração.
O ponto menos transparente para o torcedor é a distribuição interna das cotas do fundo. Sem um documento que mostre a participação individual de cada investidor, qualquer ranking de “quem tem mais” dentro do FIP seria especulativo.
É justamente aí que a frase “Landim é o dono” perde precisão. Ela pula do rosto público do projeto diretamente para a propriedade econômica, ignorando o fundo, seus cotistas, a gestora regulatória, o conselho da SAF e a Associação.
A melhor resposta para a pergunta do torcedor
Se a dúvida é quem possui a SAF, a resposta é objetiva: o AD Confiança FIP é o acionista majoritário, com 78%, e a Associação Desportiva Confiança tem 22%.
Se a dúvida é quem manda, a resposta precisa de mais camadas. O bloco do FIP tem a maioria do Conselho de Administração; a LG2 influencia a estratégia e recomenda caminhos; a Associação mantém participação e representação; e a gestão executiva é profissionalizada, com CEO próprio.
Rodolfo Landim é central nessa arquitetura, mas descrevê-lo simplesmente como “dono do Confiança” apaga justamente o mecanismo que torna a SAF diferente de uma empresa pertencente diretamente a uma única pessoa.





