A SAF do Confiança já saiu do papel em pontos concretos, mas os documentos disponíveis até 8 de agosto de 2026 não permitem afirmar que R$ 51,2 milhões foram aportados ou gastos no clube. O primeiro cuidado é justamente separar esse número do dinheiro novo prometido pelos investidores.
O projeto aprovado pelos sócios em novembro de 2025 apresentou R$ 51,2 milhões como orçamento para três anos, reunindo três componentes: faturamento já existente, novas receitas geradas pela SAF e aportes do fundo de investimento. Desse total, R$ 24 milhões seriam aportes diretos dos investidores; o restante dependeria das receitas do próprio futebol e de seu reinvestimento.
Desde então, há evidências de capitalização do FIP, dinheiro efetivamente recebido pela SAF, pagamento de parte das dívidas, reforma do gramado do Sabino Ribeiro e estruturação das categorias de base. Por outro lado, o novo centro de treinamento e a execução integral dos aportes previstos ainda não têm comprovação pública equivalente.
Os R$ 51,2 milhões nunca foram um cheque de R$ 51,2 milhões
Esse ponto muda a leitura de todo o projeto. Na apresentação de outubro de 2025, o orçamento de R$ 51,2 milhões incluía R$ 24 milhões de aportes diretos, inicialmente distribuídos em 40% em 2025, 35% em 2026 e 25% em 2027. Entre as prioridades anunciadas estavam quitar as dívidas, estimadas então em R$ 12 milhões, construir um novo CT, modernizar o Sabino Ribeiro e investir no elenco e na base.
A própria vice-presidente do Conselho de Administração do Confiança, Danielle Ferreira, explicou antes da votação que os R$ 51,2 milhões não representavam repasse integral do fundo: além dos R$ 24 milhões previstos em aportes, a conta incorporava receitas do departamento de futebol que seriam reinvestidas.
Já em abril de 2026, o CEO da SAF, Diogo Lemos, informou um cronograma diferente do apresentado em 2025: segundo ele, o FIP teria de investir R$ 9,6 milhões na SAF ao longo de 2026. O executivo também disse que a documentação da operação sofreu atrasos e só foi finalizada depois da estreia no Campeonato Sergipano. Não foi localizado, nesta pesquisa, um documento público que reconcilie formalmente o cronograma original de 40%, 35% e 25% com os R$ 9,6 milhões atribuídos a 2026.
O documento mais forte até agora é o encerramento da oferta do FIP
O AD Confiança Fundo de Investimento em Participações teve uma oferta registrada na CVM em dezembro de 2025. O prospecto previa inicialmente até R$ 30 milhões em cotas, com distribuição parcial permitida desde que fossem subscritos pelo menos R$ 18 milhões. Os investidores aderiram ainda a um mecanismo de chamadas de capital ligado à necessidade de integralização dos recursos destinados à SAF.
Em 3 de junho de 2026, o anúncio de encerramento registrou R$ 24,72 milhões em colocação total de cotas, distribuídas entre 16 investidores: 11 pessoas físicas e cinco pessoas jurídicas. É uma evidência documental importante de que o veículo financeiro criado para sustentar a operação foi efetivamente estruturado e teve cotas colocadas.
Mas há uma diferença que não pode ser apagada: R$ 24,72 milhões em cotas colocadas no FIP não significam R$ 24,72 milhões já transferidos e gastos pela SAF do Confiança. O próprio prospecto estabelece chamadas de capital e determina que pelo menos 90% do patrimônio líquido do fundo seja investido na companhia-alvo. Portanto, a documentação comprova a estrutura e a colocação da oferta, mas não comprova, sozinha, a entrada integral desse valor no caixa do futebol.
A fotografia documental até agora fica assim:
| Frente | O que é possível comprovar até 8/8/2026 | Situação |
|---|---|---|
| Estruturação do FIP | Oferta encerrada com R$ 24,72 milhões em cotas colocadas. | Comprovada |
| Aporte recebido pela SAF | CEO declarou cerca de R$ 5 milhões recebidos até 8 de abril. | Parcial e declarado pela gestão |
| Pagamento de dívidas | Segundo o CEO, quase 70% do primeiro aporte foi destinado a dívidas. | Parcial |
| Sabino Ribeiro | Gramado passou por revitalização completa, concluída no início de janeiro. | Comprovada |
| Categorias de base | Novo trabalho começou em janeiro e o clube recebeu certificação de clube formador em julho. | Comprovada |
| Novo CT | Era uma das prioridades do projeto, mas não foi localizada comprovação pública de início das obras. | Não comprovado |
Cerca de R$ 5 milhões chegaram à SAF até abril
A informação pública mais objetiva sobre dinheiro já recebido diretamente pela SAF veio de Diogo Lemos em 8 de abril. O CEO afirmou que o clube havia recebido cerca de R$ 5 milhões do FIP e que praticamente 70% desse montante tinha sido usado no pagamento de dívidas. O restante, segundo ele, foi direcionado à infraestrutura e ao aumento da folha salarial.
A mesma declaração mostra que a promessa de quitar o passivo ainda não poderia ser considerada concluída naquele momento. Lemos disse que dívidas financeiras de curto prazo haviam sido pagas, que outros compromissos da Associação estavam sendo quitados e que alguns débitos em atraso seriam refinanciados. Isso é diferente de comprovar a liquidação integral dos aproximadamente R$ 12 milhões de passivo mencionados no projeto de 2025.
Também é importante não transformar previsão em receita realizada. Em abril, o CEO projetava cerca de R$ 14 milhões de receitas para 2026, citando patrocínios, novos parceiros, avanço na Copa do Brasil e redução de determinados custos. É uma projeção da administração, não um balanço fechado do exercício.
Até o fechamento desta pesquisa, não foi localizada divulgação posterior que atualizasse, com o mesmo nível de precisão, quanto dos R$ 9,6 milhões mencionados para 2026 já havia efetivamente entrado no caixa da SAF depois daquele primeiro aporte de aproximadamente R$ 5 milhões.
No Sabino Ribeiro, há uma entrega física visível
Entre as promessas de infraestrutura, a revitalização do gramado do Sabino Ribeiro é o item mais fácil de verificar. O Confiança voltou a treinar no estádio em 6 de janeiro, depois de uma intervenção de 40 dias descrita como revitalização completa do campo. A obra foi relacionada ao diagnóstico realizado durante a transição para a SAF.
Isso comprova uma melhoria concreta no estádio, mas não equivale a considerar concluída toda a “modernização do Sabino Ribeiro” prevista no projeto. Também não foi localizado, nas fontes consultadas, um valor público discriminando quanto dessa obra saiu dos aportes do FIP.
A base avançou além do anúncio
A estruturação das categorias de base também apresenta entregas verificáveis. Em janeiro, o clube anunciou um novo modelo com equipe profissional, treinos diários, metodologia definida e calendário anual, dentro do processo de transformação para SAF.
Em julho veio um indicador institucional mais forte: o Confiança recebeu a certificação de clube formador da CBF, tornando-se, segundo o ge, o primeiro clube sergipano com esse reconhecimento. A certificação divulgada é válida até 31 de janeiro de 2027 e exige condições específicas de formação, incluindo estrutura para os jovens e acompanhamento médico, psicológico, odontológico e escolar.
É um dos casos em que uma prioridade escrita no projeto pode ser ligada a uma mudança concreta ocorrida em 2026.
O novo CT continua sendo o grande ponto sem comprovação de execução
A construção de um novo centro de treinamento, com pelo menos três campos, aparecia entre os projetos centrais da proposta aprovada em 2025.
Na pesquisa realizada até 8 de agosto de 2026, porém, não foi localizado anúncio oficial ou cobertura jornalística confiável que comprovasse início das obras, ordem de serviço ou entrega do novo CT. Isso não significa que não existam negociações, projetos ou trabalhos preparatórios internos. Significa apenas que a execução física ainda não pode ser tratada como comprovada com a documentação pública encontrada.
O mesmo cuidado vale para os valores destinados ao elenco, às demais instalações do Sabino Ribeiro e às diferentes áreas administrativas: há declarações sobre aumento da folha e investimentos em infraestrutura, mas não foi localizado demonstrativo público que separe cada despesa e permita montar uma prestação de contas dos R$ 51,2 milhões por rubrica.
No campo, o retorno ainda não acompanha os avanços institucionais
Desempenho esportivo também fazia parte das prioridades apresentadas pela SAF. Nesse ponto, a situação em agosto é bem diferente dos avanços observados na base ou na estrutura financeira.
Em 5 de agosto, antes da retomada da competição, o Confiança ocupava a lanterna da Série C com 12 pontos, três atrás do Barra, então 18º colocado e último clube fora do Z-2.
Esse cenário não demonstra, por si só, que o projeto financeiro fracassou. Uma SAF de três anos não pode ser julgada apenas pela classificação de um recorte de temporada. Mas, se a pergunta é o que já saiu do papel, também não há motivo para confundir profissionalização administrativa ou entrada de capital com resultado esportivo já entregue.
O que falta para a conta ficar realmente transparente
Hoje já é possível comprovar que a SAF entrou em operação, que o fundo teve R$ 24,72 milhões em cotas colocadas, que a administração informou um primeiro aporte de aproximadamente R$ 5 milhões, que parte relevante desse valor foi direcionada a dívidas e que houve entregas concretas no gramado e na formação de atletas.
O que ainda falta é uma prestação de contas capaz de ligar, numa mesma fotografia, capital integralizado na SAF, receitas próprias, saldo das dívidas, gastos com elenco, infraestrutura e base. Sem isso, qualquer afirmação de que os R$ 51,2 milhões “já foram investidos” mistura orçamento plurianual, capital do FIP e receitas projetadas como se fossem a mesma coisa.
Até 8 de agosto, o diagnóstico mais defensável é outro: o projeto tem execução comprovável, mas está longe de permitir conferir os R$ 51,2 milhões como dinheiro já realizado. O próximo marco relevante será saber quanto do aporte previsto para 2026 efetivamente entrou na SAF e como esse dinheiro aparece nas contas da operação.





