O Santos deu um passo concreto para tirar do papel um novo centro de treinamento das categorias de base, mas a situação em 25 de agosto de 2026 ainda é bem diferente de um CT em construção. O que existe hoje é uma área de aproximadamente 700 mil metros quadrados adquirida em São Vicente, acompanhada de uma escritura pública de compra e venda e de um projeto que ainda precisa passar por estudos ambientais, licenciamento, autorizações e definição do financiamento da obra.
O que o Santos já adquiriu de fato
O clube anunciou em 21 de agosto que incorporou ao patrimônio uma área de cerca de 700 mil m² em São Vicente para o futuro CT da base. A escritura pública disponibilizada pelo próprio Santos é datada de 20 de agosto e identifica a Saint-Gobain do Brasil como vendedora e o Santos Futebol Clube como comprador.
O documento descreve o imóvel como uma gleba denominada Sítio Ermida, situada em Samaritá, no município de São Vicente, com aproximadamente 700 mil m², equivalentes a 70 hectares. A escritura também registra que o Santos recebeu a posse do imóvel em 16 de junho de 2026, quando foi assinado o compromisso particular de compra e venda.
Há, porém, uma precisão importante. A escritura divulgada pelo clube contém o pedido para que o ato seja levado a registro no Cartório de Registro de Imóveis competente. O material público consultado confirma a assinatura da escritura e a aquisição anunciada pelo Santos, mas não apresenta, até 25 de agosto, uma certidão posterior mostrando o registro imobiliário já concluído. Para acompanhar o status documental com rigor, essa é uma etapa que merece ser diferenciada do anúncio da operação.
Onde fica o terreno do novo CT
A Prefeitura de São Vicente localiza a área na Avenida Angelina Pretti, na Área Continental do município. A escritura é ainda mais específica ao identificar o imóvel como Sítio Ermida, em Samaritá, com CEP 11346-300. O documento registra confrontações históricas com áreas vizinhas, trilhos ferroviários e os rios Piassabuçu e Ermida.
Essa localização ajuda a entender por que a discussão ambiental é central. A Área Continental de São Vicente reúne zonas urbanizadas e áreas com vegetação, cursos d'água e ambientes sensíveis. A própria Prefeitura vinculou o avanço do projeto à realização de estudos que permitam compatibilizar a ocupação com as exigências ambientais.
A compra não foi um terreno gratuito
O Santos e parte da cobertura jornalística resumiram a operação como uma aquisição sem desembolso financeiro. Isso está correto no sentido de que o clube não informou pagamento em dinheiro pela área, mas não significa que o imóvel tenha sido recebido gratuitamente.
A escritura fixa o preço da compra e venda em R$ 6.932.560,21. O pagamento é descrito como uma dação não financeira, formada por contrapartidas comerciais, de patrocínio, exposição de marca e outros ativos econômicos previstos no contrato particular e em seus anexos. Em outras palavras, houve um preço e existem obrigações de contrapartida, ainda que não sejam liquidadas por uma transferência de caixa equivalente ao valor do imóvel.
O próprio instrumento acrescenta que a outorga da escritura e a transferência prevista no negócio não representam quitação antecipada dessas obrigações. Elas permanecem exigíveis conforme o contrato particular. Esse detalhe é importante porque separa duas ideias que podem parecer iguais em manchetes: não usar dinheiro para comprar e não ter custo econômico são coisas diferentes.
Por que terreno adquirido não significa CT em construção
O anúncio do Santos trata a área como destinada ao desenvolvimento do novo centro de treinamento, mas o clube não anunciou início de obras. O comunicado oficial afirma que os próximos passos incluem estudos e procedimentos ambientais, processo perante a CETESB e obtenção das licenças e autorizações necessárias.
A escritura reforça essa diferença. Nela, o Santos reconhece que as providências, licenças, autorizações e aprovações para uso, ocupação e desenvolvimento de qualquer empreendimento no imóvel são de responsabilidade do comprador. O texto cita expressamente licenciamento ambiental, aprovações urbanísticas e regulatórias, alvarás e autorizações para obras.
O documento também ressalta que a venda do imóvel não representa garantia da Saint-Gobain sobre a viabilidade técnica, econômica, urbanística, regulatória, ambiental ou comercial do futuro CT. Portanto, a operação imobiliária resolve a disponibilidade da área, mas não substitui a análise de viabilidade nem libera automaticamente a construção.
EIA/RIMA e licenciamento ambiental são etapas centrais
A Prefeitura de São Vicente informou que, após conversas com a CETESB, solicitou a contratação de EIA/RIMA - Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental. Segundo o comunicado municipal e o texto publicado pelo Santos, esse pedido foi atendido.
A escritura acrescenta uma informação que ajuda a entender a divisão de responsabilidades: a obrigação da vendedora relacionada ao EIA/RIMA e ao levantamento planialtimétrico fica limitada ao valor total contratado de R$ 1.380.400. Custos adicionais decorrentes de alterações, complementações, atualizações ou novas exigências das autoridades ficam a cargo do Santos, nos termos do contrato.
Na prática, o EIA/RIMA não é uma autorização para construir. Ele integra a avaliação ambiental do projeto e pode gerar condicionantes, pedidos de complementação e ajustes antes da emissão das licenças cabíveis. Até que o processo avance e as autorizações necessárias sejam efetivamente concedidas, não há base para tratar o terreno como um canteiro de obras liberado.
O financiamento da obra também não está fechado
Outro ponto que ainda separa a aquisição do terreno do início da construção é o dinheiro necessário para implantar o CT. O Santos informa oficialmente que trabalha na estruturação de um fundo de investimento específico para financiar o projeto. O modelo ainda está em desenvolvimento e, segundo o clube, será apresentado depois da consolidação técnica do projeto.
Isso significa que, no estágio atual, existe uma estratégia de financiamento em elaboração, mas não um fundo já apresentado ao público com valor captado, investidores, cronograma de aportes e orçamento final contratualmente fechado. O ge também registrou, ao noticiar a aquisição, que não havia previsão para o início das obras.
Há reportagens locais com estimativas de quantidade de campos, custo total e prazo para estudos ambientais. Esses números podem servir como referência de planejamento, mas não aparecem como parâmetros fechados no comunicado oficial do Santos nem no texto da Prefeitura consultado. Enquanto o clube afirma que o modelo financeiro será apresentado apenas após a consolidação técnica, é mais seguro tratar projeções de custo e cronograma como estimativas, não como compromissos definitivos.
O que precisa acontecer antes das máquinas entrarem
O quadro mais preciso hoje é este: o Santos já formalizou a compra e tem a posse da área, mas ainda precisa transformar um ativo imobiliário em um empreendimento aprovado e financiado. Isso passa pela consolidação técnica do projeto, conclusão dos estudos ambientais, tramitação na CETESB e em outros órgãos competentes, obtenção das licenças e autorizações urbanísticas e regulatórias, definição do financiamento e, só depois, contratação e execução das obras.
A ordem dessas etapas pode se sobrepor em alguns momentos, porque projeto, licenciamento e estruturação financeira costumam evoluir em paralelo. O ponto decisivo é que nenhuma fonte oficial consultada sustenta que o CT já esteja em construção ou que exista uma data confirmada para o começo da obra.
O que muda para a base do Santos
Se o projeto avançar, a nova área representa uma possibilidade de expansão muito maior do que a estrutura atual das categorias de base. O próprio presidente Marcelo Teixeira apresentou a aquisição como um passo para ampliar e modernizar a infraestrutura esportiva do clube.
Mas, para o torcedor que quer separar anúncio de execução, a leitura correta em agosto de 2026 é simples: o Santos conquistou o terreno e documentou a operação, porém ainda está no caminho entre ter a área e poder construir nela. Os próximos marcos verificáveis serão o avanço do EIA/RIMA e do licenciamento, a emissão das autorizações necessárias, a apresentação do modelo de financiamento e, finalmente, um anúncio de início de obras acompanhado de cronograma e projeto consolidados.





