A derrota por 2 a 0 para o Athletico-PR, em 9 de agosto, deixou o Santos com 22 pontos e na 17ª colocação do Brasileirão. O resultado aumentou um problema que Cuca vinha apontando havia semanas: o clube continua em três competições, perdeu jogadores durante a temporada e está impedido de registrar novos reforços por causa do transfer ban da Fifa.
A solução imediata não está no mercado. Enquanto a punição não for derrubada, Cuca precisa trabalhar principalmente com três recursos: improvisações nas laterais, rotação de um meio-campo relativamente mais numeroso e uso seletivo dos jogadores da base. O cenário não é de ausência completa de alternativas, mas de um elenco desequilibrado entre os setores.
O transfer ban ainda trava qualquer reforço novo
A punição atual está relacionada à dívida do Santos com o Monaco pela contratação de Jean Lucas. O débito reconhecido na decisão é de 2,032 milhões de euros, e a Fifa impôs ao clube impedimento de registrar jogadores por três janelas ou até a regularização da pendência. O recurso santista no CAS não reverteu a condenação.
O tempo ainda existe, mas está diminuindo. A segunda janela brasileira de 2026 começou em 20 de julho e termina em 11 de setembro, segundo o calendário oficial da CBF. Em 10 de agosto, portanto, o Santos ainda tem espaço para resolver a pendência e registrar eventuais contratações, mas não há previsão pública de quando isso ocorrerá.
Depois do jogo contra o Athletico, Cuca pediu publicamente que o clube consiga encerrar o bloqueio e falou na necessidade de dois ou três jogadores para aumentar a profundidade do grupo. Ao mesmo tempo, reconheceu que continuará recorrendo aos jovens enquanto isso não acontecer.
Onde o elenco está mais curto
A relação para enfrentar o Athletico ajuda a medir o problema. Cuca convocou 24 jogadores, mas tinha sete desfalques: Neymar, suspenso; Igor Vinícius, Lucas Veríssimo, Moisés, Vinícius Lira, Gustavo Henrique e Pepê Fermino, todos fora por problemas físicos naquele momento. Entre os relacionados, havia apenas Gabriel Menino e Escobar classificados como opções imediatas para as laterais.
| Setor | Soluções disponíveis | Principal limitação |
|---|---|---|
| Lateral direita | Igor Vinícius quando recuperado e Gabriel Menino | Igor estava com lombalgia; Mayke deixou o clube |
| Lateral esquerda | Escobar; improvisações com Luan Peres, João Ananias ou Barreal | Escobar é o único especialista saudável consolidado |
| Zaga | João Ananias, Adonis Frías, Luan Peres e, quando voltar, Lucas Veríssimo | Lesões reduzem a experiência disponível para rotação |
| Meio-campo | João Schmidt, Willian Arão, Christian Oliva, Gabriel Bontempo, Miguelito, Rollheiser e Samuel Pierri | Usar Gabriel Menino na lateral retira uma alternativa do setor |
| Ataque | Neymar, Gabigol, Rony, Barreal, Thaciano, Caballero, Robinho Jr., Nadson e Davizinho, conforme disponibilidade | Há quantidade, mas nem todos entregam o mesmo perfil ou nível de experiência |
A lateral direita já tem uma solução planejada dentro do próprio elenco. Durante a intertemporada, Gabriel Menino passou a trabalhar na função e afirmou que pretende se firmar nela. Contra a Universidad Central, pela Sul-Americana, participou diretamente de dois gols atuando pelo setor. Cuca, porém, também apontou a importância de manter sua versatilidade, e o jogador ainda apresentou dificuldades defensivas na nova posição.
Isso transforma Menino em alternativa real, não apenas em improvisação emergencial. O problema é a profundidade. Mayke rescindiu com o Santos no início de agosto e já estava fora dos planos da comissão técnica. Sem Igor Vinícius, Cuca praticamente não tem um segundo lateral-direito natural pronto para assumir a posição.
Gustavo Henrique também já foi apresentado oficialmente pelo Santos como jogador capaz de atuar no meio e na lateral direita, mas estava lesionado na coxa e fora da relação contra o Athletico. Sua recuperação pode aumentar as combinações sem necessidade de contratação imediata, embora não resolva o problema enquanto estiver no departamento médico.
A lateral esquerda exige ainda mais cuidado
Do outro lado, a situação é mais delicada. Escobar é o único lateral-esquerdo consolidado e saudável do elenco principal. Vinícius Lira sofreu ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, enquanto Rafael Gonzaga chegou a ser observado por Cuca, mas voltou ao sub-20 após avaliação de que ainda precisava de desenvolvimento.
As alternativas já mapeadas são adaptações. Luan Peres conhece a função e já atuou por ali em outros momentos da carreira. João Ananias também jogou como lateral na base. Barreal oferece uma solução de característica mais ofensiva, mas com menor proteção defensiva.
Isso cria uma decisão importante para Cuca na administração da sequência. Escobar não precisa necessariamente iniciar todos os jogos apenas porque não há outro especialista. Em compromissos nos quais seja possível aceitar uma improvisação, preservar o argentino pode ser menos arriscado do que expô-lo continuamente em um calendário com Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana.
João Ananias mostra até onde a base pode ajudar
A principal evidência de que a categoria de base pode oferecer soluções já está no time titular. João Ananias, de 19 anos, ganhou sequência depois da Copa do Mundo e chegou ao duelo contra o Athletico após disputar cinco partidas consecutivas completas. Ele superou Luan Peres na disputa por espaço e passou a receber a confiança de Cuca.
Outros jovens também já circulam pelo profissional. Na relação contra o Athletico apareceram João Alencar, Samuel Pierri, Robinho Jr., Davizinho e Nadson. Antes da retomada das competições, Cuca também havia utilizado a intertemporada para observar atletas das categorias inferiores.
O caso de Ananias, porém, também mostra por que a base não pode ser tratada como reposição automática para cada carência. Um jovem pode ganhar espaço por desempenho e adaptação; isso é diferente de promover vários jogadores simultaneamente porque faltam peças experientes. O próprio Cuca fez essa distinção ao pedir reforços depois da derrota para o Athletico.
Rafael Gonzaga é um exemplo. Apesar de ser lateral-esquerdo de origem e ter participado do bom desempenho do sub-20, a comissão técnica já havia considerado que ele ainda não estava pronto para assumir regularmente a função no profissional. A necessidade atual pode provocar nova avaliação, mas não torna aquela análise anterior inexistente.
O meio-campo permite mais rotação que a defesa
Se as laterais concentram os maiores problemas de quantidade, o meio oferece mais margem para Cuca administrar minutos. Contra o Athletico, estavam relacionados João Schmidt, Willian Arão, Christian Oliva, Gabriel Bontempo, Miguelito, Rollheiser e Samuel Pierri.
As combinações podem mudar conforme o adversário. Arão, Schmidt e Oliva aumentam as possibilidades de proteção e controle; Bontempo, Miguelito e Rollheiser oferecem características diferentes para aproximar o time do ataque. Antes da derrota para o Athletico, o próprio Cuca já vinha lidando com o dilema entre reunir jogadores mais técnicos e montar uma equipe coletivamente mais equilibrada.
É nesse setor que a rotação tende a custar menos ao Santos. Em vez de tentar encontrar um time único para as três competições, Cuca pode variar as peças do meio sem recorrer imediatamente a jogadores fora de posição. A exceção é Gabriel Menino: quanto mais necessário ele for na lateral direita, menos poderá ser utilizado como opção de meio-campo.
No ataque, o desafio é distribuir funções
A ausência de Neymar por suspensão contra o Athletico expôs outra limitação. O Santos não marcou e produziu uma de suas atuações mais frágeis em casa na temporada, com dificuldade para organizar os ataques. O episódio não permite atribuir sozinho o desempenho à falta do camisa 10, mas reforça o problema de concentrar criação e capacidade de desequilíbrio em poucos jogadores.
Cuca ainda dispõe de Gabigol, Rony, Barreal, Thaciano, Caballero, Robinho Jr., Nadson e Davizinho, além de Neymar quando disponível. Moisés estava lesionado no momento do jogo contra o Athletico.
A questão, portanto, é menos numérica que funcional. O treinador precisa escolher quem dá profundidade, quem aproxima do meio, quem joga por dentro e quem pode entrar durante a partida sem obrigar o time a repetir o mesmo desenho. Essa distribuição também ajuda a evitar que todo o funcionamento ofensivo dependa de Neymar estar em campo e em condição de atuar durante 90 minutos.
Administrar as competições também virou parte da solução
O elenco curto não será resolvido apenas pela escalação. Depois da derrota de domingo, o Santos já tem compromisso pela Sul-Americana contra o Macará e, na sequência, enfrenta o Vasco pelo Brasileirão. O clube também está classificado para as quartas de final da Copa do Brasil.
Cuca admitiu que pode chegar o momento de estabelecer prioridade entre as competições. Isso não significa necessariamente abandonar um torneio, mas distribuir minutos de acordo com condição física, importância de cada confronto e alternativas disponíveis. Com um grupo mais curto, tentar repetir a força máxima em todas as partidas aumenta o risco de transformar uma carência pontual em novos desfalques.
Até o transfer ban ser resolvido, a margem de manobra do treinador está clara: Gabriel Menino cobre a direita, Escobar precisa ser administrado com cuidado na esquerda, João Ananias já deixou de ser apenas uma promessa, o meio suporta mais rotação e os jovens podem completar o grupo de forma seletiva.
Nenhuma dessas soluções elimina a necessidade de reforços. Elas apenas definem como o Santos pode atravessar as próximas semanas sem esperar que o mercado resolva imediatamente um problema que, neste momento, também depende das finanças do clube.





