Trocar todas as senhas pode não ser a primeira providência depois de um golpe digital. A ordem depende do que está em risco naquele momento: se há dinheiro saindo, o banco vem primeiro; se o e-mail foi tomado, ele pode ser a chave para recuperar as demais contas; se um mensageiro está sendo usado para pedir dinheiro, é preciso retomar o acesso e avisar os contatos.
Em 26 de maio de 2026, o CERT.br lançou o fascículo Golpes: Caiu? Veja o que Fazer, dedicado às medidas posteriores a golpes e fraudes. O material recomenda agir rapidamente, interromper o contato, contestar transações, trocar senhas expostas, guardar evidências, denunciar contas maliciosas e monitorar a vida financeira.
O cronograma de 5, 15 e 30 minutos apresentado abaixo é uma síntese editorial prática dessas orientações e dos procedimentos informados pelo Banco Central, pelo Ministério da Justiça e pelas próprias plataformas. Ele não representa um prazo oficial nem garante recuperação de valores ou contas.
Antes de começar: identifique o dano mais urgente
Não tente resolver tudo ao mesmo tempo. Faça esta pergunta:
O que o golpista ainda consegue fazer agora?
| Situação identificada | Primeira providência |
|---|---|
| Pix realizado, movimentação desconhecida ou cartão exposto | Acionar imediatamente o banco por aplicativo, telefone ou site oficial |
| E-mail invadido ou senha do e-mail entregue em página falsa | Recuperar e proteger o e-mail em um dispositivo seguro |
| WhatsApp ou outro mensageiro tomado | Iniciar a recuperação oficial e alertar os contatos por outro canal |
| Rede social invadida ou perfil falso criado | Usar a recuperação ou denúncia da própria plataforma e avisar os contatos |
| Link aberto, arquivo executado ou aplicativo suspeito instalado | Desconectar temporariamente o aparelho da internet e usar outro dispositivo seguro |
| Apenas uma conversa suspeita, sem dados ou pagamentos enviados | Interromper o contato, bloquear e guardar os registros relevantes |
Se mais de uma situação ocorreu, a prioridade costuma ser: interromper perdas financeiras ativas, proteger a conta que permite redefinir as demais e conter o uso do seu nome contra outras pessoas.
Nos primeiros 5 minutos: interrompa o dano
1. Pare de conversar com o golpista
Não envie mais dinheiro, documentos, códigos, fotos ou explicações. Não tente negociar a devolução e não pague supostas taxas para liberar um estorno. Antes de bloquear o contato, faça capturas de tela essenciais, desde que isso não prolongue a exposição.
O CERT.br recomenda cortar o contato, não enviar mais informações e bloquear o perfil ou número.
2. Se houve movimentação financeira, fale com o banco agora
Abra diretamente o aplicativo do banco ou use o telefone informado no verso do cartão e no site oficial. Não utilize números, links ou centrais enviados durante a conversa com o golpista.
Informe:
- qual transação ocorreu;
- data, horário e valor;
- conta ou chave de destino;
- se a operação foi feita por você após ser enganado ou sem sua autorização;
- se cartões, senhas ou o próprio aplicativo bancário podem estar comprometidos.
Para um Pix relacionado a fraude, golpe ou crime, solicite a contestação e o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução, o MED. O Banco Central orienta que a contestação seja feita imediatamente no aplicativo da instituição. O pedido pode ser registrado em até 80 dias, mas esperar reduz a possibilidade prática de encontrar saldo disponível. A devolução não é garantida e pode ser integral, parcial ou inexistente, conforme a análise e a disponibilidade de recursos.
Se os dados de um cartão foram expostos, bloqueie ou cancele o cartão e os cartões virtuais vinculados. Conteste também compras que não reconheça.
3. Se instalou um aplicativo ou permitiu acesso remoto, isole o aparelho
Desative temporariamente Wi-Fi e dados móveis no dispositivo suspeito. Faça os próximos contatos bancários e mudanças de senha em outro celular ou computador que você considere seguro.
O Ministério da Justiça recomenda interromper o contato e desconectar temporariamente da internet o celular usado para acessar um link suspeito. Também orienta trocar senhas em um aparelho seguro.
Não formate o aparelho imediatamente apenas por impulso. Primeiro contenha movimentações, preserve as provas disponíveis e avalie a necessidade de orientação técnica ou policial.
Até 15 minutos: recupere a conta mais importante
Depois de conter uma perda financeira imediata, escolha o bloco correspondente à conta comprometida.
Banco: bloqueie acessos e confira o que ainda está pendente
Além de contestar as transações já realizadas:
- troque a senha bancária por um dispositivo seguro;
- encerre ou bloqueie acessos desconhecidos, quando o aplicativo oferecer essa opção;
- cancele cartões virtuais ativos;
- confira transferências agendadas, débitos e resgates de investimentos;
- anote o protocolo e o horário do atendimento;
- ative notificações para cada nova movimentação.
O Ministério da Justiça recomenda informar a fraude, encaminhar evidências, bloquear o acesso, cancelar cartões virtuais e verificar transações agendadas.
E-mail: proteja a conta que recupera as outras
O e-mail merece prioridade quando foi invadido, quando sua senha foi digitada em uma página falsa ou quando ele é usado para redefinir senhas de bancos, lojas e redes sociais.
Em um dispositivo seguro:
- Entre pela página ou pelo aplicativo oficial do provedor.
- Use o processo oficial de recuperação se não conseguir acessar.
- Crie uma senha nova, longa e exclusiva.
- Revise telefone e endereço de recuperação.
- Verifique logins recentes, dispositivos conectados e aplicativos autorizados.
- Encerre sessões que não reconheça.
- Ative a autenticação em duas etapas.
- Troque, em seguida, a senha de outros serviços que utilizavam a mesma combinação.
O Google orienta revisar eventos de segurança, dispositivos conectados, métodos de recuperação e aplicativos com acesso à conta. Também recomenda trocar imediatamente a senha da conta e dos serviços em que a mesma senha foi reutilizada.
Procedimentos equivalentes existem em outros provedores. A Apple, por exemplo, orienta alterar ou redefinir a senha, corrigir informações de segurança e remover dispositivos desconhecidos.
Atenção: trocar a senha sem revisar métodos de recuperação, dispositivos e sessões pode ser insuficiente se o invasor já tiver alterado outras configurações.
Mensageiro: retome o número e avise seus contatos
Se sua conta de WhatsApp ou outro mensageiro estiver enviando mensagens sem sua autorização:
- use apenas o processo de recuperação oferecido pelo aplicativo;
- confirme novamente seu número, quando solicitado;
- nunca repasse o código recebido por SMS, chamada ou e-mail;
- revise os aparelhos ou sessões vinculadas;
- ative a verificação em duas etapas;
- avise parentes, clientes e colegas por ligação, SMS ou outra rede;
- peça que não façam transferências nem acreditem em pedidos recentes.
No WhatsApp, o fluxo oficial de recuperação pode solicitar o número completo e um código de seis dígitos. Também pode ser pedido o PIN da verificação em duas etapas.
O CERT.br recomenda alertar os contatos quando uma conta for invadida, um perfil falso for criado ou alguém alegar que você mudou de número e passar a pedir Pix ou pagamento de boletos.
Rede social: recuperar, denunciar e conter a falsa identidade
Quando o perfil foi invadido:
- procure a opção oficial “minha conta foi invadida”, “esqueci a senha” ou equivalente;
- recupere primeiro o e-mail associado, caso ele também esteja comprometido;
- troque a senha;
- encerre sessões desconhecidas;
- remova aplicativos que você não autorizou;
- ative a autenticação em duas etapas;
- salve as mensagens e publicações feitas pelo invasor.
Quando foi criado um perfil falso:
- registre capturas de tela do perfil, nome de usuário e publicações;
- copie o identificador ou endereço do perfil para o seu registro de provas;
- denuncie a conta por falsidade ou imitação;
- peça que contatos próximos também usem a ferramenta de denúncia;
- avise publicamente, sem divulgar documentos pessoais ou dados bancários.
O Ministério da Justiça orienta usar as ferramentas de recuperação das próprias redes, denunciar perfis clonados, avisar amigos e familiares e nunca pagar resgate pela devolução da conta.
Até 30 minutos: organize as provas e registre o ocorrido
Preserve evidências antes que desapareçam
Crie uma pasta e guarde, quando disponíveis:
- capturas de tela das conversas;
- número de telefone, nome de usuário e perfil envolvidos;
- datas e horários;
- comprovantes de Pix, boletos e pagamentos;
- dados do destinatário exibidos no comprovante;
- e-mails e notificações de alteração de senha;
- alertas de novos logins;
- anúncios, páginas ou ofertas usados no golpe;
- protocolos, nomes de atendentes e respostas das plataformas;
- uma descrição em ordem cronológica do que aconteceu.
Não edite as imagens nem apague as conversas antes de guardar os registros. Também não continue acessando links suspeitos apenas para obter novas capturas.
O fascículo do CERT.br destaca que essas evidências podem ser necessárias para pedidos de estorno ou ressarcimento, boletim de ocorrência, reclamações de consumo e eventual medida judicial.
Registre o boletim de ocorrência
O boletim de ocorrência não substitui a comunicação imediata ao banco. Se há dinheiro em movimento, o banco deve ser acionado antes ou em paralelo.
No BO, inclua:
- como o contato começou;
- o que foi solicitado;
- quais informações foram entregues;
- valor e forma de pagamento;
- conta, chave ou destinatário;
- números de telefone e perfis;
- datas e horários;
- protocolos bancários;
- evidências reunidas.
O registro pode ser feito presencialmente ou pela delegacia virtual do estado de residência, conforme a disponibilidade local. O Ministério da Justiça recomenda anexar prints, registros de chamadas, comprovantes e dados das transferências.
Denuncie o conteúdo dentro da própria plataforma
Depois de salvar as evidências, denuncie o perfil, anúncio, mensagem ou página usada no golpe. A denúncia pode ajudar a interromper o uso daquela conta contra outras pessoas, embora a retirada não seja automática nem garantida.
Checklist dos primeiros 30 minutos
Em até 5 minutos
- Interromper o contato.
- Acionar o banco se houve pagamento, Pix ou acesso à conta.
- Bloquear cartões expostos.
- Desconectar da internet o aparelho com possível acesso remoto.
- Passar a usar um dispositivo seguro.
Em até 15 minutos
- Recuperar e proteger o e-mail comprometido.
- Alterar senhas expostas ou reutilizadas.
- Encerrar sessões e remover dispositivos desconhecidos.
- Recuperar o mensageiro e avisar os contatos.
- Iniciar a recuperação ou denúncia da rede social.
Em até 30 minutos
- Salvar conversas, perfis, comprovantes e protocolos.
- Registrar o boletim de ocorrência.
- Denunciar contas, anúncios ou páginas fraudulentas.
- Conferir novas movimentações e logins.
- Anotar todas as providências já tomadas.
O que não fazer depois de cair em um golpe
Não pague mais para “desbloquear” dinheiro ou recuperar uma conta. Pedidos de taxa, caução ou resgate podem ser uma continuação do golpe.
Não procure o banco por um telefone enviado na mensagem suspeita. Abra o aplicativo por conta própria ou consulte o verso do cartão e o site oficial.
Não mude senhas em um aparelho que pode estar sob controle remoto. Use outro dispositivo até verificar ou reinstalar o equipamento.
Não aprove notificações de login que você não iniciou. O CERT.br orienta recusar solicitações de autenticação desconhecidas.
Não acredite em promessa de devolução garantida pelo MED. O mecanismo aumenta a possibilidade de recuperação, mas depende da análise do caso e da existência de recursos.
Não apague imediatamente o aparelho e todas as mensagens. A contenção é urgente, mas algumas informações podem ser necessárias como prova. O CERT.br recomenda reinstalar ou restaurar dispositivos quando houver suspeita de malware; essa etapa deve ocorrer depois da preservação do que for relevante e, em casos complexos, com orientação técnica ou policial.
Depois dos primeiros 30 minutos
Continue acompanhando contas, faturas, logins e notificações. Se documentos ou dados pessoais foram expostos, observe tentativas de abertura de contas, empréstimos ou uso indevido da identidade.
O CERT.br recomenda monitorar transações, sessões ativas e registros financeiros no Registrato do Banco Central. Também sugere procurar o Procon, registrar reclamação no Banco Central ou buscar orientação jurídica quando o problema não for resolvido.
Se o golpe envolveu mais de uma conta, avance por dependência:
- e-mail e número de telefone;
- bancos e meios de pagamento;
- gerenciadores de senhas e armazenamento em nuvem;
- mensageiros;
- redes sociais;
- lojas, assinaturas e outros serviços.
Ao concluir, crie senhas exclusivas, mantenha a autenticação em duas etapas ativa e revise periodicamente dispositivos, aplicativos autorizados e informações de recuperação.
Abra agora o aplicativo ou site oficial do banco ou da plataforma comprometida. Depois, salve este checklist em um local acessível — uma resposta organizada pode reduzir o alcance do golpe e facilitar os pedidos de recuperação.





