O golpe do falso advogado explora uma vantagem perigosa: o criminoso pode conhecer nomes, números de processo, valores aproximados e até dados do escritório verdadeiro. Com essas informações, cria uma conversa convincente no WhatsApp e pede um Pix sob pretextos como “liberar o alvará”, “pagar uma taxa” ou “destravar o valor da ação”. O dado correto na mensagem, porém, não prova que quem escreve é o advogado.
Antes de transferir qualquer valor, a regra prática é separar três verificações: o profissional existe e está regularmente inscrito?; a pessoa que fala com você é realmente esse profissional?; e o pagamento solicitado faz sentido no processo e para o beneficiário informado?. O ConfirmADV ajuda principalmente na segunda etapa, mas deve ser combinado com checagens independentes.
Como o golpe do falso advogado costuma funcionar
Segundo alerta do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), criminosos podem usar informações verdadeiras de processos e se apresentar como o advogado da vítima ou como alguém do escritório. O contato costuma vir por WhatsApp ou e-mail e pode reproduzir nome, fotografia, logotipo e detalhes reais da ação.
O pedido financeiro geralmente aparece associado a uma promessa de recebimento: seria necessário pagar uma taxa, custo ou valor prévio para liberar dinheiro do processo. A urgência é parte do método. Quanto menos tempo a vítima tiver para conferir a história com outra fonte, maior a chance de fazer o Pix antes de perceber inconsistências.
Por isso, informação processual correta não deve ser tratada como prova de identidade. O próprio TJDFT alerta que o tribunal não cobra valores para cadastrar pessoas nem para liberar dinheiro de processos judiciais.
O que o ConfirmADV confirma — e o que ele não confirma
O ConfirmADV, criado pelo Conselho Federal da OAB, é integrado ao Cadastro Nacional dos Advogados (CNA). A plataforma permite que o cidadão tente confirmar a identidade de quem se apresenta como advogado mediante dados do registro profissional e uma confirmação eletrônica enviada ao e-mail cadastrado no CNA.
Na prática, isso é diferente de apenas procurar um nome no cadastro. A consulta ao CNA ajuda a verificar a existência e a situação do registro profissional; o ConfirmADV adiciona uma etapa de validação vinculada ao contato eletrônico que consta no cadastro da OAB.
A própria OAB ressalta que o ConfirmADV é um mecanismo auxiliar de consulta pública. Portanto, uma confirmação positiva é uma camada relevante de segurança, mas não transforma automaticamente qualquer pedido de Pix em legítimo. Ainda é necessário conferir o motivo da cobrança, o processo, o canal usado e o destinatário do dinheiro.
Como usar o ConfirmADV antes de pagar
- Abra diretamente confirmadv.oab.org.br, em vez de usar um link enviado na conversa suspeita.
- Informe o número de inscrição na OAB, o estado do registro e o e-mail profissional que foi apresentado a você, além dos dados solicitados pela plataforma.
- Aguarde a tentativa de confirmação pelo canal cadastrado no CNA. Orientações da OAB descrevem uma janela curta para o profissional responder à solicitação.
- Se houver confirmação, faça ainda a segunda checagem: contate o escritório por um telefone ou endereço que você já conhecia, que esteja no contrato ou que tenha sido obtido de fonte independente.
- Se não houver confirmação, não faça o Pix. Interrompa a operação e investigue a divergência por outro canal.
“Não confirmado” significa golpe?
Não necessariamente. Em balanço publicado em 29 de abril de 2026, a OAB informou que o ConfirmADV havia recebido 32.318 solicitações de verificação no primeiro ano: 22.685 foram confirmadas e 9.633 não foram confirmadas. A própria entidade esclareceu que o grupo não confirmado inclui tentativas sem conclusão e registros com dados incorretos.
Isso muda a interpretação correta do resultado: uma falha de confirmação é motivo para parar o pagamento, não uma sentença automática de fraude. O passo seguinte é procurar o advogado ou escritório por um contato independente e conferir os dados antes de qualquer transferência.
Checklist antes de fazer um Pix para quem diz ser seu advogado
- Confira a inscrição na OAB. Pesquise no CNA usando nome e/ou número de inscrição e verifique se os dados correspondem ao profissional conhecido.
- Use o ConfirmADV. Faça a validação pelo endereço oficial da ferramenta, sem depender de links recebidos no WhatsApp.
- Compare o número de telefone. Se o contato mudou, não aceite a mudança apenas porque a pessoa sabe detalhes do processo. Ligue para o número já conhecido do escritório ou para um número obtido independentemente.
- Confirme a cobrança. Pergunte ao advogado ou ao escritório, por outro canal, qual é a natureza do pagamento e por que ele seria necessário naquele momento.
- Consulte o processo. Se a história envolve liberação de valores, alvará, acordo ou decisão recente, confira a movimentação no portal oficial do tribunal ou com a unidade judicial responsável.
- Cheque o beneficiário do Pix. Nome e CPF/CNPJ exibidos pelo banco devem fazer sentido em relação ao profissional ou ao escritório. Conta de terceiro, nome desconhecido ou divergência exigem nova verificação antes de pagar.
- Desconfie da urgência. Pressão para pagar “agora”, ameaça de perder um valor ou insistência para não telefonar ao escritório são sinais clássicos de engenharia social.
Sinais de alerta que pesam mais quando aparecem juntos
Um único elemento pode ter explicação legítima; vários, combinados, justificam interromper a conversa. Entre os sinais recorrentes estão número de WhatsApp desconhecido, troca repentina de contato, pedido de Pix para pessoa sem relação clara com o caso, mensagem dizendo que o dinheiro precisa ser enviado imediatamente, link encurtado ou estranho, documento com aparência oficial enviado apenas como imagem e resistência quando você propõe ligar para o escritório.
Outro sinal importante é a tentativa de transformar dados verdadeiros em autoridade: “sei seu número de processo, então sou seu advogado”. Esse raciocínio é inseguro porque parte dos dados processuais pode ser obtida em fontes públicas ou ter sido exposta por outros meios. A checagem precisa confirmar a pessoa, não apenas a informação que ela conhece.
Como preservar provas sem continuar alimentando o golpe
Se você suspeitou da fraude, não apague a conversa imediatamente. O TJDFT orienta guardar mensagens, números de telefone, e-mails e comprovantes. Faça capturas de tela que mostrem o contexto, o número ou perfil utilizado, datas, horários, chave Pix, nome do beneficiário, valor pedido e eventuais documentos enviados.
Também vale salvar o comprovante de qualquer transferência já realizada e anotar por qual canal você confirmou depois que a abordagem era falsa. Essas evidências podem ser úteis no boletim de ocorrência, na comunicação ao banco e em uma denúncia à OAB.
Preservar prova não significa continuar conversando com o suspeito. Depois de registrar o necessário, interrompa o contato e use canais oficiais ou já conhecidos para as verificações seguintes.
Se o Pix já foi feito, aja rápido
O Banco Central orienta a vítima de golpe a entrar em contato com sua instituição financeira o mais rapidamente possível, relatar a fraude e solicitar a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). Em paralelo, recomenda registrar boletim de ocorrência.
No fluxo descrito pelo BC, o banco da vítima registra a notificação de infração e instaura o MED; a instituição do recebedor bloqueia os valores disponíveis; o caso é analisado pelas instituições e, se a fraude for confirmada, os recursos podem ser devolvidos. O MED não garante recuperação integral, pois ela depende da análise e da existência de saldo ou recursos que possam ser bloqueados.
O pedido de MED pode ser feito em até 80 dias da transação, mas o próprio Banco Central destaca que agir rapidamente aumenta as chances de recuperação. Portanto, se você percebeu o golpe depois de pagar, não espere terminar todas as outras providências para falar com o banco.
Roteiro de verificação em dois minutos
- Pare o pagamento e não clique em links da conversa.
- Confira o advogado no CNA.
- Tente a validação no ConfirmADV.
- Ligue para o escritório por um contato independente e confirme a cobrança.
- Cheque o processo no tribunal quando a justificativa envolver valores judiciais.
- Compare o nome do beneficiário do Pix com o profissional ou escritório confirmado.
- Se algo não bater, não pague e preserve as evidências.
- Se já pagou, acione o banco para o MED e registre boletim de ocorrência.
A lógica mais segura é simples: não use um único dado como prova de identidade. Nome correto, foto do advogado, número do processo e até conhecimento de detalhes do caso podem ser reproduzidos por um golpista. Antes do Pix, combine cadastro profissional, ConfirmADV, confirmação por canal independente e coerência do pagamento. Essa sequência reduz a chance de uma mensagem convincente virar uma transferência irreversível.





