O 13 de Maio virou o centro do Bembé do Mercado porque a população negra e o povo de santo de Santo Amaro transformaram o primeiro aniversário da Abolição, em 1889, em uma afirmação pública de liberdade. Em vez de limitar a data a uma comemoração cívica, a comunidade levou o Candomblé para o espaço aberto do Largo do Mercado, com atabaques, ritos, encontro entre terreiros e a entrega de presentes às divindades das águas. Essa combinação de memória da Abolição, ocupação do espaço público e continuidade religiosa ajuda a explicar por que o Bembé se tornou uma referência cultural do Recôncavo Baiano e, mais tarde, patrimônio imaterial reconhecido pelo Estado da Bahia e pelo Iphan.
1888 encerrou juridicamente a escravidão; 1889 marcou o primeiro Bembé
A Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, a Lei Áurea, declarou extinta a escravidão no Brasil. A mudança jurídica foi decisiva, mas não veio acompanhada de um programa amplo de inclusão social, reparação, acesso à terra ou garantia material de cidadania para a população negra recém-liberta. É nesse intervalo entre liberdade legal e liberdade vivida que o Bembé ganha parte de sua força histórica.
Segundo a documentação patrimonial e a história oral preservada em Santo Amaro, o primeiro Bembé ocorreu em 13 de maio de 1889, exatamente um ano depois da Abolição. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) registra que a memória local atribui a iniciativa a João de Obá, africano de origem malê, que teria saído às ruas com seus filhos de santo. Um caramanchão coberto de palha foi armado, tambores foram tocados e o Candomblé se estendeu por três dias, culminando com a entrega de presente à Mãe d'Água.
Essa origem deve ser lida com a precisão que as próprias fontes exigem: a participação de João de Obá é transmitida como história oral da comunidade, não como um detalhe demonstrado por um único documento contemporâneo de 1889. O ponto sólido, confirmado pelos registros patrimoniais, é que o Bembé remonta àquele primeiro aniversário da Abolição e se consolidou como celebração coletiva conduzida por comunidades de Candomblé.
Por que um “candomblé de rua” é mais do que um ritual fora do terreiro
Chamar o Bembé de “candomblé de rua” não descreve apenas o endereço da cerimônia. O Largo do Mercado é parte do sentido da celebração. Ao ocupar uma área pública e central da cidade, a prática religiosa se torna visível, compartilhada e territorial: a liberdade deixa de ser somente uma ideia jurídica e passa a ser exercida por corpos, sons, ritos e relações comunitárias no espaço urbano.
Essa dimensão é particularmente importante porque as religiões de matriz africana enfrentaram longa história de repressão, estigmatização e racismo religioso. No Bembé, o espaço público deixa de funcionar apenas como cenário. Ele se torna um lugar de memória e afirmação, no qual diferentes casas de Candomblé podem renovar vínculos, celebrar a ancestralidade e reafirmar sua presença na vida social de Santo Amaro.
Fontes do IPAC descrevem o Bembé também como momento de renovação do axé e de restabelecimento da força vital da cidade. A festa inclui agradecimentos a Iemanjá e Oxum e se relaciona à tradição de pescadores que oferecem presentes à Mãe d'Água. O caráter religioso, portanto, não é um adereço folclórico da programação: ele é o eixo que organiza a celebração.
O que acontece no Bembé e qual é o papel dos terreiros
O Bembé é uma celebração coletiva, não uma cerimônia de um único terreiro. Ao longo do tempo, dezenas de casas e lideranças religiosas passaram a participar de sua organização e de seus ritos. Programações recentes incluem celebrações no barracão do Mercado, cortejos, toques e cerimônias do Candomblé, além da saída do presente para a Praia de Itapema, onde ocorre a entrega à Mãe d'Água.
Manifestações como samba de roda, capoeira, maculelê, puxada de rede e Nego Fugido também aparecem associadas ao Bembé. Elas ampliam a dimensão pública da festa e revelam conexões com outras tradições afro-baianas do Recôncavo. Isso não significa que exista um roteiro imutável. A programação pode variar de um ano para outro, enquanto certos núcleos — a memória do 13 de Maio, a participação do povo de santo, os ritos e a relação com as águas — dão continuidade ao bem cultural.
Esse protagonismo dos terreiros é central para entender o patrimônio imaterial. O que se preserva não é uma encenação congelada, mas uma prática viva, transmitida e recriada por seus detentores. A continuidade depende justamente da capacidade de a comunidade ajustar formas de organização sem perder referências reconhecidas como fundamentais.
O 13 de Maio do Bembé não é uma celebração ingênua da Abolição
O 13 de Maio tem sentidos disputados na memória brasileira. A assinatura da Lei Áurea encerrou a escravidão legal, mas não eliminou desigualdades, racismo nem barreiras à cidadania. Por isso, interpretar o Bembé apenas como agradecimento pela lei empobrece a celebração.
No contexto de Santo Amaro, o primeiro aniversário da Abolição foi apropriado por uma comunidade negra que deu à data sua própria linguagem religiosa e política. O Bembé celebra a liberdade, mas ao mesmo tempo recorda que a liberdade precisava ser exercida e defendida no cotidiano. A escolha da rua, a reunião de terreiros e a permanência da festa atravessando gerações transformam o 13 de Maio em memória ativa do pós-abolição.
Essa leitura ajuda a evitar uma falsa oposição entre “comemorar” e “criticar” o 13 de Maio. No Bembé, as duas dimensões podem coexistir: há celebração da ruptura jurídica com a escravidão e há afirmação de uma população que continuou enfrentando exclusões depois de 1888.
Como o Bembé virou patrimônio cultural
O reconhecimento patrimonial aconteceu em camadas. Em 2012, o Governo da Bahia registrou o Bembé do Mercado como patrimônio cultural imaterial do estado por meio do Decreto Estadual nº 14.129. O reconhecimento estadual formalizou a relevância da celebração para a memória e a identidade baianas e abriu espaço para ações de documentação, debate e salvaguarda.
Em 13 de junho de 2019, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou o Bembé do Mercado como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro de Registro das Celebrações. O processo teve como proponente a Associação Beneficente e Cultural Ilê Axé Ojú Onirè e considerou a continuidade histórica, o vínculo com as comunidades detentoras, a relação com o espaço urbano de Santo Amaro e a relevância da celebração para a trajetória da população negra brasileira.
O registro federal não significa que o Estado “criou” a tradição, nem que passou a ser dono dela. No patrimônio imaterial, o objetivo é reconhecer uma referência cultural já mantida por uma comunidade e criar condições para sua salvaguarda. Isso pode envolver documentação, transmissão de conhecimentos, apoio à organização dos detentores, visibilidade pública e proteção das condições que permitem a continuidade da prática.
Em 2026, o próprio Iphan destacou que o Bembé foi o primeiro bem cultural de matriz africana inscrito no Livro de Registro das Celebrações. A afirmação reforça por que o reconhecimento federal ultrapassa o interesse local: o Bembé tornou-se também uma referência nacional sobre presença negra, liberdade religiosa e ocupação do espaço público.
O Mercado e o Largo também importam para a salvaguarda
Embora o Bembé seja um patrimônio imaterial, ele depende de lugares concretos. O Largo do Mercado e o Mercado Municipal estão ligados à história, à circulação das pessoas e à visibilidade pública da celebração. Preservar a festa, portanto, não significa cuidar somente de ritos e memórias; significa também considerar as condições urbanas e físicas em que ela acontece.
Em janeiro de 2026, começaram obras de restauração do Mercado Municipal e requalificação da Feira do Bembé, com investimento anunciado de R$ 28,5 milhões pelo Novo PAC e acompanhamento técnico do Iphan. A intervenção material é distinta do registro imaterial do Bembé, mas mostra como as duas dimensões podem se encontrar na política de preservação: o espaço construído sustenta práticas, encontros e circuitos de memória.
No mesmo ano, o IPAC acompanhou a 137ª edição da celebração para reunir documentação e depoimentos destinados ao processo de revalidação do reconhecimento estadual. Essa revisão periódica é importante porque patrimônio imaterial não é sinônimo de imobilidade. O poder público precisa verificar como o bem mudou, quais riscos enfrenta e quais ações de salvaguarda fazem sentido para os seus detentores no presente.
Linha do tempo: de 1888 ao presente
| Data | O que aconteceu | Por que importa |
|---|---|---|
| 13/05/1888 | A Lei Áurea extingue juridicamente a escravidão no Brasil. | Cria o marco histórico que será reinterpretado pelo Bembé. |
| 13/05/1889 | O primeiro Bembé é realizado em Santo Amaro no aniversário de um ano da Abolição. | A liberdade é celebrada publicamente por meio do Candomblé e da ação comunitária. |
| 2012 | O Bembé do Mercado é registrado como patrimônio imaterial da Bahia. | O Estado reconhece formalmente seu valor cultural e inicia uma nova camada de salvaguarda. |
| 13/06/2019 | O Iphan registra o Bembé no Livro de Registro das Celebrações. | A celebração passa a ser Patrimônio Cultural do Brasil. |
| 2026 | A 137ª edição é acompanhada por ações de revalidação estadual e por obras de requalificação do Mercado e da Feira do Bembé. | Mostra que a preservação continua sendo um processo vivo, ligado tanto à comunidade quanto ao espaço. |
Por que o Bembé é patrimônio — em uma frase
O Bembé do Mercado virou patrimônio porque comunidades negras de Santo Amaro mantiveram, transmitiram e renovaram por gerações uma celebração que transforma o 13 de Maio em experiência própria de liberdade, fé, ancestralidade e presença pública.
Seu valor não está apenas na idade da festa. Está na ligação entre memória do pós-abolição, terreiros de Candomblé, uso ritual da rua, tradições do Recôncavo e continuidade comunitária. O reconhecimento de 2012 e o registro federal de 2019 vieram depois: eles não inauguraram o Bembé, mas reconheceram institucionalmente algo que seus detentores já haviam preservado por mais de um século.
Fontes para aprofundar
- Iphan — Bembé do Mercado no banco de Bens Culturais Registrados
- Iphan — 137 anos do Bembé do Mercado, 2026
- IPAC — Bembé do Mercado e o registro estadual
- IPAC — descrição de elementos rituais e da relação com Iemanjá, Oxum e a Mãe d'Água
- Iphan — restauração do Mercado Municipal e requalificação da Feira do Bembé, 2026
- Governo da Bahia — monitoramento para revalidação estadual, 2026





