A principal mudança de calendário é objetiva: a Instrução Normativa SEGES/MGI nº 129, de 30 de março de 2026, alterou o art. 63 da IN SEGES/MGI nº 512/2025 e fixou sua entrada em vigor em 30 de novembro de 2026. A IN 512 regulamenta o diálogo competitivo do art. 32 da Lei nº 14.133/2021 para a Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional. Até a nova data, órgãos federais têm uma janela adicional para estruturar governança, equipe, documentos e uso do Compras.gov.br antes de aplicar o rito regulamentado.
O que muda em 30 de novembro de 2026
A Lei nº 14.133 já prevê o diálogo competitivo como modalidade de licitação. O que a IN 512 acrescenta, no âmbito federal alcançado por ela, é um procedimento operacional detalhado. A norma organiza o processo em três fases, define documentos, disciplina sigilo e interação com licitantes, exige registros no sistema e detalha a passagem da definição do problema para a competição final.
A alteração promovida pela IN 129 não reescreveu o conteúdo do regulamento. Ela adiou sua vigência para 30 de novembro de 2026. Por isso, o efeito prático para os órgãos federais é sobretudo de preparação: processos que pretendam usar a modalidade depois dessa data deverão estar alinhados ao desenho procedimental da IN 512.
Quando o diálogo competitivo pode ser usado
O art. 32 da Lei nº 14.133 restringe a modalidade a contratações em que a Administração enfrenta uma necessidade que não pode ser tratada adequadamente com uma especificação convencional pronta. Entre as situações previstas estão inovação tecnológica ou técnica, necessidade de adaptar soluções existentes e impossibilidade de definir com precisão suficiente as especificações técnicas.
A IN 512 mantém esse foco. O órgão deve motivar a escolha da modalidade e descrever o problema a ser resolvido. O diálogo pode servir para identificar a solução técnica mais adequada, requisitos técnicos, estrutura jurídica ou financeira do contrato e outros meios capazes de satisfazer a necessidade administrativa.
Isso significa que o diálogo competitivo não é uma alternativa genérica para qualquer compra complexa. A justificativa deve demonstrar por que a necessidade se enquadra nas hipóteses legais e por que o contato estruturado com o mercado é útil para construir a solução antes da fase competitiva.
Como ficam as três fases da modalidade
A IN 512 determina que o procedimento seja realizado pelo Sistema de Compras do Governo Federal, o Compras.gov.br, e estrutura o fluxo em três grandes fases.
1. Pré-seleção
O processo começa com etapa preparatória, edital de pré-seleção, requerimentos de participação, julgamento e recursos. A norma prevê um estudo técnico preliminar simplificado no início, com descrição da necessidade, interesse público e justificativa para adoção da modalidade. O edital deve trazer critérios objetivos mínimos para a pré-seleção e regras para a fase de diálogo.
A Lei nº 14.133 e a IN 512 estabelecem prazo mínimo de 25 dias úteis para a manifestação de interesse. Devem ser admitidos à fase de diálogo os interessados que atendam aos requisitos objetivos definidos.
2. Diálogo
Na segunda fase, a Administração realiza reuniões com os pré-selecionados para explorar alternativas e identificar soluções adequadas. O procedimento deve preservar tratamento isonômico e confidencialidade. A Administração não pode revelar a outros participantes soluções propostas ou informações sigilosas sem consentimento, ressalvadas as hipóteses previstas na própria norma.
A IN 512 também exige cuidado com os registros. O diálogo prossegue até que a comissão entenda esgotadas as tratativas necessárias e identifique solução ou soluções aptas a atender à necessidade. Apenas os licitantes que permaneçam pré-selecionados e apresentem soluções consideradas apropriadas podem seguir para a fase competitiva.
3. Fase competitiva
Encerrado o diálogo, a Administração complementa o planejamento da contratação com base na solução ou nas soluções consideradas adequadas. O estudo técnico preliminar é completado, a contratação deve ser incluída no plano de contratações anual e o termo de referência é estruturado para a competição final.
Pela Lei nº 14.133, o edital da fase competitiva deve abrir prazo não inferior a 60 dias úteis para que os licitantes pré-selecionados apresentem suas propostas. A seleção segue critérios objetivos divulgados previamente. A IN 512 admite, quando justificado, mecanismos como amostra, prova de conceito ou visita técnica para comprovação de critérios técnicos.
O que os órgãos federais precisam preparar antes da vigência
O adiamento cria tempo para preparação institucional. Um checklist prático pode ser organizado em sete frentes:
- Mapeamento de casos: identificar demandas em que inovação, adaptação de soluções ou indefinição técnica realmente justifiquem a modalidade.
- Motivação: padronizar a forma de registrar o problema, as hipóteses legais aplicáveis e a razão para escolha do diálogo competitivo.
- Comissão: planejar a designação de comissão de contratação com pelo menos três servidores efetivos ou empregados públicos dos quadros permanentes, conforme a Lei e a IN.
- Capacitação: preparar equipe para condução de reuniões, avaliação de soluções, documentação do processo, proteção de informações sigilosas e transição para a fase competitiva.
- Governança de sigilo e propriedade intelectual: definir procedimentos para informações confidenciais, anuências de divulgação e tratamento de ativos intelectuais associados às soluções apresentadas.
- Documentos e controles: revisar modelos de estudo técnico preliminar, editais, registros das reuniões, parecer jurídico e documentos da fase competitiva.
- Sistemas: alinhar fluxos internos ao Compras.gov.br e às publicações exigidas no PNCP e nos demais meios previstos.
Por que o planejamento muda ao longo do procedimento
Uma diferença importante do diálogo competitivo é que parte do planejamento amadurece depois da interação estruturada com o mercado. A IN 512 permite que o processo comece com estudo técnico preliminar simplificado. Depois da fase de diálogo, esse estudo é complementado com os elementos exigidos pela Lei nº 14.133, incorporando a solução ou as soluções consideradas adequadas.
A própria norma prevê que a estimativa do valor da contratação e a inclusão no plano de contratações anual sejam tratadas após a fase dialógica, em conexão com o amadurecimento da solução. Isso exige controles claros para que a flexibilidade do procedimento não seja confundida com ausência de planejamento.
Sigilo não significa falta de transparência
O diálogo competitivo combina publicidade do procedimento com proteção das soluções e informações sensíveis apresentadas pelos participantes. A IN 512 proíbe divulgação discriminatória de informações e preserva o sigilo de propostas, informações e soluções, inclusive após o encerramento do diálogo, salvo consentimento ou hipóteses específicas previstas na norma.
Ao mesmo tempo, a fase externa começa com publicação do edital no Portal Nacional de Contratações Públicas, além das demais divulgações exigidas. Reuniões e atos precisam ser documentados. O desafio de governança é separar o que deve ser público do que precisa permanecer protegido para resguardar competição, propriedade intelectual e informações confidenciais.
A nova data deve ser tratada como marco de prontidão
Para órgãos federais abrangidos pela IN 512, 30 de novembro de 2026 não é apenas uma data normativa. É um marco para ter pessoas, modelos, controles e sistemas preparados para um procedimento que exige mais interação e documentação do que modalidades tradicionais.
Antes de iniciar um caso concreto, vale confirmar se a necessidade realmente se enquadra no art. 32 da Lei nº 14.133, registrar a motivação, formar a comissão e estruturar desde o início as regras de sigilo, diálogo, avaliação e competição final. A modalidade pode ser útil quando a Administração conhece o problema, mas ainda precisa construir com o mercado o caminho técnico, jurídico ou financeiro para resolvê-lo.





